Em meio ao quase nada habita algo de tudo, em meio ao pouco, muito pouco ou quase nada

Coluna de ROSE ARAUJO

Foto: Acervo da autora

 

EM MEIO AO QUASE NADA HABITA ALGO DE TUDO, EM MEIO AO POUCO, MUITO POUCO OU QUASE NADA

 

Em tépidos e fatigados dias, ali talvez não se encontre mais a bota perdida de Judas, pois até ela perdeu-se de si, esquecendo-se de honrar a expressão popular.
Viver longe de tudo, num pedaço de chão, em um recanto suspenso no tempo, beira o lirismo da poesia cotidiana, presente nas tradições e códigos locais.

Ao longe, na estrada, avista-se um clarinho – sim, não chega a ser um clarão, pois não tem tanta cidade assim – e os sentidos mais aguçados podem capturar o aroma do café fresquinho e o soar do sino na igreja local.
Ali coabitam os fantasmas idos, as versões de estórias da história do lugarejo, daqueles que conquistaram respeito local, assim como outros que recolheram suas dores e sumiram em meio a terra molhada das plantações.
São muitos causos e um esboçar de sorriso amarelo no rosto, mesclando esperança de algo novo sacudir a cidade e a segurança de sentir que poucas coisas mudarão o seu ritmo e que o [mal]dito progresso não contaminará aquele recanto.

No pastel com garapa de domingo, na travessia de balsa pra escola, nos paralelepipedos moldando despedidas, na praça em suas pipocas e carteados, no pão quentinho da padaria do seu Quirino, na dona Zulmira, fazendo hora extra, que Deus esqueceu de vir buscar, no filho da Salete, que acaba de chegar, no curau do seu Osmar, na Maria Otilia, que estuda na cidade vizinha e sonha em compor a NASA, no forasteiro Eusébio, que acaba de se apaixonar, na quermesse do Padre Pedro, na vaca Potira, no cachorro chamado Cachorro, que canta na missa com as carolas do lugar, no galo Terêncio, que às vezes esquece de cantar, há terra e há semente, há sereno e auroras, há estrelas visíveis, planetas alinhados, histórias suspensas, histórias densas, recompensas e diferenças em meio ao pouco ou quase nada de um resto de mundo esquecido no fim de linha de tudo, resistindo em um universo paralelo, intransferível e particular.

 

 

Na CasAmarÉlinha, cinco anos se acendem e transcendem: espaço das artes bordado em encontros, tecendo versos em sorriso que alumia. Que venham mais cinco, passarelando em poesia!

 

ROSE ARAUJO 

Rose Araujo (@rose_araujo_poeta). Foto: Divulgação.

 

Conheça a coluna de Rose Araujo

 

 

 

com Chris Herrmann

 

com Márcio Calixto

 


com Ana Lúcia Gosling

 

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com Tanussi Cardoso

com Rose Araújo

 

 

Author

Londrinense-carioca, poeta de inspiração e designer gráfico de profissão, Rose Araujo coordena o Espaço Cultural da CasAmarElinha, em Itaipu - carinhosamente batizada de ItaiPAZ - na Região Oceânica de Niterói- RJ. Realiza lives, saraus e entrevistas sob o projeto itinerante da Passarela da Poesia (@rose_araujo_poeta ), projeto premiado pela APPERJ-RJ e Troféu Arte em Movimento, onde já passaram significantes nomes da poesia contemporânea brasileira. Estreou com o livro Quando Vida Poesia (Editorial Casa, 2022) em precioso prefácio de Tanussi Cardoso e grande receptividade de público e crítica. Membro da APPERJ-RJ, UBE-RJ, IICEM e PEN Clube do Brasil, Rose segue nas feituras do seu próximo livro, Poemas de Aguçar Sentidos, com lançamento em breve. E vamos juntos, evoé!

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