
Mahatma Gandhi | Imagem: gosharpener com
Culturas mundiais: valorizando a vida, para além dos lucros capitalistas – parte 11 (final)
As Culturas, as Liberdades de Escolhas e as Identidades, breve ensaio para um mundo novo
“Quem sou eu quando deixo de ser o que possuo?”
José “Pepe” Mujica (1935-2025)
agricultor, ativista político e ex-Presidente do Uruguai
Não sei se a primeira história abaixo é verdadeira (o diálogo, o conheci como construído sobre um fato que teria acontecido). Dado o conteúdo, embora, como exposto, não tenha como garantir, parece ser da pessoa a quem o crédito é atribuído. Não obstante, ainda que o autor do libelo não seja o personagem histórico mencionado, o texto nos traz boas reflexões sobre as ações humanas e, ainda que indiretamente, sobre as Culturas, as Liberdades de Escolhas e as Identidades. Nesta parte 11, apresento, igualmente, algumas reflexões complementares àquelas que desenvolvi nas partes 1 e 2. Já a segunda história, até onde pude apurar, é sim, do personagem creditado, e traz reflexões também complementares para os objetivos que tracei na pesquisa realizada e ora encerrada com esta parte final.
O diálogo fictício abaixo foi adaptado e expõe uma história que é atribuída a Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), ou simplesmente, Mahatma (Grande Alma) Gandhi, como ficou mundialmente conhecido. Em vida, Gandhi foi advogado, líder espiritual indiano, além de ter sido, sem dar um único tiro e sem incentivar que alguém o desse, o líder político que levou o país a ficar independente do Império Britânico, o que aconteceu, oficialmente, em 15 de agosto de 1947. Gandhi, como líder pacifista, morreu assassinado com três tiros por um militante hindu e antimuçulmano (acreditava que a pregação por paz e a convivência pacífica entre os diferentes enfraquecia a reivindicações hindus), no que não diferiu de outros pacifistas famosos que também foram assassinados, como o músico britânico John Lennon (1940-1980) e o sociólogo e pastor batista norte americano Martin Luther King (1929-1968), que pregavam contra as guerras e as desigualdades sociais, como a consolidação dos Direitos Civis.
Primeira história. Quando Gandhi estudava Direito na Universidade de Londres, consta que havia um professor, tido como elitista e racista, que não gostava dele, mas Gandhi não abaixava a cabeça. Um dia, o professor estava comendo no refeitório, perto de Gandhi, e teria dito:
– Sr. Gandhi, o senhor sabe que um porco e um pássaro não comem juntos, não sabe?
– Certo, professor, já estou voando (e foi para outra mesa).
O professor teria tentando se vingar na primeira avaliação na turma, dizendo:
– Sr. Gandhi, imagine que o senhor está caminhando por uma rua e encontra uma sacola com dois pacotes, uma com dinheiro e outra com sabedoria. Qual o senhor pegaria para si?
– O pacote com dinheiro, professor.
– No seu lugar, sr. Gandhi, eu optaria pela sabedoria.
– Tem razão, professor, cada um deve escolher aquilo que não tem.
O professor, irritado, teria escrito na prova de Gandhi, a palavra “idiota”, e Gandhi teria falado em voz alta, na turma:
– Professor, o senhor assinou a minha prova, mas não deu a nota.
Conclusão possível: sejamos firmes, resolutos e não abaixemos a cabeça, mas façamos isso com sabedoria e bom humor. Insistir, persistir e não desistir é, não apenas necessário, como fundamental para a vida boa, retomando o pensamento de Isaiah Berlin (ver as partes 1 e 2), fruto, em grande medida, das nossas escolhas de vida e da liberdade de que tanto nos falou Jean-Paul Sartre (ver as partes 1 e 2). Essa liberdade de escolhas forja nossas identidades. Esse processo tem em outra forja, a de nossas culturas, o continente e o conteúdo das identidades transcendentes e mutantes que construímos, subjetiva e socialmente.
A segunda história, na verdade, não é uma história, é uma resposta de Umberto Eco (1932-2016), filósofo, semiólogo, escritor, linguista e bibliófilo (amante e colecionador de livros) italiano, ao porquê de ter acumulado, em sua biblioteca pessoal, mais de (estimados) 50 mil livros e se os teria lido, todos (a resposta a seguir também está adaptada).
“É tolice pensar que você tem que ler todos os livros que compra e ser criticado por isso. Seria como dizer que você deve usar todos os talheres que possui, antes de comprar outros. Há coisas na vida que precisamos ter em abundância, mesmo que usemos, apenas, pequena porção delas. Ninguém usa todos os remédios que têm em casa, mas os têm para uso eventual. Os livros devem estar à disposição para o momento da leitura ou da consulta. Quem compra apenas um ou outro livro, os lê e os descarta; essa é a mentalidade do consumismo capitalista aplicada ao mundo do saber, o que é incompatível. Quem ama os livros e o conhecimento, sabe que eles são tudo, menos mercadoria”.
Livros e saber são vida e não mercadoria, é o que nos disse Umberto Eco; o fetiche da mercadoria, como o definiram Marx e Engels, não deveria comandar nossas vidas. Nélida Piñon (1934-2022), escritora e jornalista brasileira, e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), disse, certa vez, que escrever liberta. Acrescento: ler, também. A leitura talvez seja a viagem, consciente e cognitivamente, mais profunda para dentro de você mesmo, ao prescrutar seus sentimentos arraigados e/ou escondidos e as reflexões mais recônditas; ler, e escrever, é imergir em si mesmo e desabrochar para o mundo, logo em seguida. Não deixa de ter, esta ideia, razoável similaridade quando imergimos na cultura em que nascemos e/ou na que escolhemos viver e quando interagimos com outras culturas várias. Esta reflexão me levou a imergir na beleza que é conhecer as coisas da vida, sentindo o mundo pela arte e a apreender e interpretar o mundo pelo estudo ou, dizendo de outro modo, pela leitura. É a isso o que se referiu o filósofo italiano. É isso o que nós, do Portal ArteCult, tentamos desenvolver com nossas imersões no mundo da arte e da cultura, aqui, no nosso gostoso cantinho e fazemos isso para nós e, com carinho, para você, querida leitora, prezado leitor.
Culturas, Liberdades de Escolhas e Identidades
Isaiah Berlin (ver partes 1 e 2), embora tivesse admiração explícita pelos filósofos Karl Marx e Friedrich Engels, como argutos analistas que foram, e que ainda são, não foram superados, por exemplo, como analistas do Capitalismo, do seu início até, pelo menos, a 4ª Revolução Industrial ou Indústria 4.0, iniciada, segundo pesquisadores, neste século XXI, cuja base é o uso intensivo dos meios computacionais, digitais e, recentemente, inteligência artificial. Por mais que se concorde com esta ideia, Berlin tinha uma discordância primordial dos dois pensadores comunistas. Às ideais marxistas, conforme mostrou John Gray (ver partes 1 e 2), Berlin adicionava a alcunha de “Metafísicas”, empregando este termo (ver parte 1), com um sentido um tanto pejorativo, o que, diga-se de passagem, não é a visão deste escriba.
A concepção central do idealismo de Hegel e sua visão do Estado (Poder Público) como uma espécie de absoluto universal humano e terrestre (já que, para Hegel e para muitos outros, o absoluto é Deus), ainda que Marx dissesse que invertera a dialética desse autor (ver parte 1), permaneceu, contudo, na base de análise marxista (o que, é bom ressaltar, Marx nunca negou). Marx, com seu Materialismo Histórico, afirmava que a História humana é fruto das condições materiais de produção, que levariam a uma consciência de classe, até que a sociedade perfeita, a comunista, emergisse. Teoricamente, um belo sonho que, contudo, visto pelo prisma dos acontecimentos futuros, virou, em muitos aspectos e sob diversos modos, um pesadelo; uma boa ideia, talvez perdida, ao menos por um razoável tempo histórico, em raciocínios curtos e realizações precárias. Quem sabe um dia…
Bem, para Berlin (e outros autores), essa ideia talvez fosse considerada pura Metafísica, posto que sua concepção de História era a de um processo que pode ser analisado sob o prisma de uma “sucessão dos efeitos sobre os homens do ambiente externo ou de suas próprias constituições inalteráveis, ou mesmo da inter-relação entre esses fatores (…) Sua essência é a luta do homem para realizar todas as suas potencialidades humanas” (Berlin Apud Gray, 2000: p.112). Como mostrou John Gray (2000: p.115), “a implicação do materialismo histórico marxista reza que a diferença cultural é epifenomenal e desaparecerá da vida humana com o fim das sociedades de classe, ou, se ela sobreviver, o fará de formas marginais e não importantes”. A palavra Metafísica, para esclarecer (uma ves mais) o conceito, vem do grego antigo e quer dizer algo como “além da física” (meta-física). Ramo da Filosofia iniciado por Aristóteles, Metafísica é a compreensão do mundo por meio do intelecto e da ontologia, ou seja, da investigação senso-perceptiva e cognitiva do ser, enquanto ser, notadamente nos aspectos não-materiais, ou seja, fora do mundo dito inteligível e que estão, estes aspectos, imersos no mundo sensível, por assim entendê-los. Muitos filósofos e pesquisadores não levam a Metafísica muito a sério, mas acho que é uma forma instigante de investigar o Homem.
Pensar nas subjetividades, individuais e coletivas, é como refletir sobre as identidades que cada um de nós constrói e que todos nós construímos no tempo e no espaço e elas são, por outro lado, aquilo que nos constituem como somos. Quer dizer, em outras palavras, são as culturas, forjadas a partir do que escolhemos ser, livremente, que nos identificam e com as quais nos identificamos. O Homem se cria continuamente; Marx e Berlin concordavam com esta ideia; concordavam em que o Homem é um ser autocriador, embora discordassem no tocante às inevitabilidades históricas, realidades para o primeiro, inexistentes para o segundo. De todo modo, a livre autocriação humana é o que nos leva a ser o quê e quem somos.
No que se refere às ideias Iluministas, e não apenas as Marxistas, John Gray nos dá mais uma panorâmica sobre a concepção Berliniana da questão cultural, fulcro desta nova sequência de artigos sobre Culturas, Liberdades de Escolhas e Identidades. Ao compreender erroneamente a diferença cultural e, portanto, o significado político da identificação coletiva, todas as ideologias iluministas do século XX talvez tenham falhado em confrontar as mais poderosas – e, de muitas formas, as mais destrutivas, forças dessa era. É uma característica distintiva do pensamento liberal de Berlin, como relata John Gray, que, embora permaneça firmemente comprometido com os valores Iluministas de tolerância, de liberdade, de emancipação humana da ignorância e da opressão (e nisso, há novo ponto de concordância de Berlin com ideias Marxistas), Isaiah Berlin rejeitou a concepção Iluminista que vê a universalização da razão como a marca distintiva e única do Homem, posto ser o instrumento para a criação de uma sociedade racional, onde a seria transcendida e, então, domesticada, pelos telos (objetivo, finalidade, propósito intrínseco de algo ou de alguém), do fim da história – o que é um enorme equívoco. Esta passagem é decisiva para compreendermos parte dos embates culturais ao longo do século XX e que estão muito em voga nos dias atuais. No entender de Berlin, ainda, é bom ressaltar, conforme mostrou John Gray (2000: p.191), que é através da diferença cultural que os seres humanos adquirem identidades particulares. Para a maioria, identidades culturais são formadas através do processo de escolha, somente se compreendermos ‘escolha’ em sentido muito amplo, com referência aos incontáveis ajustes de comportamento que as pessoas fazem frequentemente sem deliberação ou mesmo reflexão, às suas várias heranças e circunstâncias em mutação.
As diferenças humanas são variadas, em formas, sabores, tecituras, estruturas e efeitos. Uma de nossas grandes diferenças, talvez, sob certo ponto de vista, a mais importante, é a cultural. Por quê? Porque pensar nas culturas humanas, como elas foram forjadas, no tempo e no espaço, e como moldam os estilos de vida dos povos, é o que nos diferencia, em última instância, em termos políticos, ideológicos, religiosos e econômicos e essas quatro áreas de vida humana, por assim classificá-las, é o que, histórica e geograficamente, fez da humanidade o que sempre foi, o que é e o que será, daqui para frente, especialmente se adicionarmos a essas quatro dimensões, a ambiental. As diferenças culturais, como mostrou John Gray, acima, nos levam a idiossincrasias particulares, tanto subjetiva quanto coletivamente e são elas que moldam as visões de mundo das sociedades, interna e externamente.
Como mencionado na parte 2 desta sequência, que por sua vez, relembrou o conceito que cunhei em 2022 e que foi publicado neste mesmo Portal ArteCult, o de “Síndrome do Celofane”, a invisibilidade das pessoas, nesta cultura das celebridades, nesta “Selfiedade” (sociedade das selfies) tem sido causadora de guerras, destruições ambientais e de um grande mal estar da humanidade (Bauman & Donskis, 2019). Brevemente, a Síndrome que aqui me refiro (para maior aprofundamento, ver a parte 2), ocorre quando, pela indiferença social, pela indiferença das pessoas, sejam as distantes, sejam mesmo as próximas, parece que nos tornamos invisíveis aos seus olhos. É a morte social, por assim dizer; mais do que isso, é a morte humana, para a pessoa, tornada um “celofane social”, ainda em vida. E por onde passa essa indiferença ou, até pior, esse desprezo pelo outro? Reproduzindo a mim mesmo, na parte 2, passa pela desconsideração à liberdade de escolhas do outro de ser o que deseja ser, passa pelo ódio que muitos têm do fato do outro não ser um espelho que reflita nossa própria imagem ou que reproduza nossa própria voz. A intolerância à diversidade e à pluralidade é algo que deveríamos repudiar, incansável e inquestionavelmente.
A frase em epígrafe, de Pepe Mujica, uma das pessoas mais admiráveis de que já tive notícia, deveria ser reproduzida ad infinitum; ela expõe, cruamente, a questão que acima mencionei, a da “selfiedade”. O que importa, nesta cultura, é, acirradamente, mais do que antes, parecer e não ser, ter e não ser. Ser tornou-se uma abstração luxuosa para cada vez menos privilegiados; ser livre, então, é quase uma quimera que ilude quem não consegue superar a “síndrome do celofane” e se funda na “selfiedade”. No Capitalismo extremamente selvagem e neoliberal em que vivemos, que chamo de “Neocapitalismo Fluxional” só aqueles com capacidade para viver a velocidade dos fluxos do mundo digital e da inteligência artificial, têm condições de se readequar à vida tal como ela está sendo reconstruída. Paradoxalmente, apenas estes mesmos agentes são os que poderão resistir e reconstruir a vida humana e social e do planeta, em moldes mais democráticos, justos e fraternos. As Culturas Humanas terão que remodelar as nossas Identidades, subjetivas e coletivas e esse é um processo de Escolhas Livres ou nossos estilos de vida permanecerão destrutivos e nossos novos mundos, como dito anteriormente, apenas quimeras. Qual será nossa livre escolha?
Bibliografia sugerida para consulta
BAUMAN, Zygmunt & DONSKIS, Leonidas. Mal líquido: vivendo num mundo sem alternativas. São Paulo: Zahar, 2019
GRAY, John. Isaiah Berlin. Coleção Mestres do Pensamento. Rio de Janeiro: Editora Difel, 2000.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Petrópolis: Vozes, 1997.
VERÓN, Eliseo. A produção de sentido. São Paulo: Cultrix, 1980.

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana
Instagram: @cfgalvao54
E-mail: cfgalvao1980@terra.com.br









