CONTO DE QUINTA: O último acorde

com César Manzolillo

Imagem: Divulgação

 

O ÚLTIMO ACORDE

 

Logo após ter se formado na escola de música, Gabriel decidiu tocar naquela praça. Normalmente, se apresentava às quintas e sextas. Gabriel, você nem sabe, peguei gosto por música instrumental. Agora ouço todo dia. Lamento tanto o tempo que perdi. Aparecia no fim da tarde, por volta das cinco, e ficava até umas sete. Foi criando seu público. Saía de casa e caminhava quase um quilômetro até o local da exibição. Aquele jovem franzino carregando nas costas uma carga tão grande chamava a atenção. Quando chegava, já havia plateia formada. Ele cumprimentava as pessoas e abria o estojo onde guardava o violoncelo. Depois de uma breve preparação, começava sua performance. Variava o repertório de acordo com seu humor e os pedidos da audiência. Costumava iniciar com “Someone like you”. Era fã de Adele. Numa sexta-feira de outono ameno, tocou acompanhado de Mário, um amigo da época de estudante. Dona Elvira se emocionou mais do que o habitual. Paloma e Rafaela, sua bebê de um ano e meio, ficavam tocadas ao ouvirem “Rolling in the deep”, outro grande sucesso do repertório do músico. Juarez trabalhava na farmácia em frente à praça. Assistia ao início da apresentação de dentro do estabelecimento mesmo. Às seis, quando terminava o expediente, juntava-se ao grupo reunido em volta do artista e ali permanecia até o final do segundo bis. Numa quinta-feira de inverno rigoroso, ficou acertado que, atendendo a um pedido de dona Elvira, Gabriel tocaria “Brasileirinho”. No dia combinado, ela não apareceu. Ele tampouco executou a composição de Waldir Azevedo. Chegou à praça ligeiramente atrasado, em torno das cinco e quinze. Não falou com ninguém e ignorou os cumprimentos a ele dirigidos. Abriu o estojo do violoncelo e retirou dele um fuzil. Sem dizer nada, atirou nas pessoas que estavam ali apenas para ouvi-lo. Por fim, abriu a boca, abocanhou o cano da arma e disparou. Foi seu último acorde.

 

CÉSAR MANZOLILLO

 

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Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de 32 coletâneas literárias. Autor do livro de contos "A angústia e outros presságios funestos" (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos. Toda quinta-feira, no ArteCult, publica um conto em sua coluna "CONTO DE QUINTA", que integra o projeto "AC VERSO & PROSA" junto com Ana Lúcia Gosling (crônicas) e Tanussi Cardoso (poemas).

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