
com César Manzolillo

O DONO DE ESTIMAÇÃO
Havia anos que a vida de dono se arrastava num lodo cinzento de tédio. Os dias transcorriam sem novidade, sem pressa e sem rumo. Às vezes, ele permanecia durante horas encarando o teto, imóvel, na esperança de que algo tivesse o condão de resgatá-lo daquela monotonia. Os planos que fazia murchavam antes mesmo de brotar, e as relações pessoais se desfaziam como neblina. “Sua vida está cheia de nós, amarrada e sem saída”, disse alguém certa vez com uma crueldade precisa que indicava mais diagnóstico do que maldição.
Numa tarde pálida e fria de um sábado qualquer, caminhando sem destino pelas ruas do centro, dono cruzou com gato. Solitário e displicente, o filhote rondava os arbustos secos de uma praça abandonada, dessas que existem só para lembrar que aquela cidade perdeu todo afeto por si mesma. gato estava magro, faminto e relutante. dono decidiu levá-lo para casa. No início, gato resistiu. Desconfiado, mostrou os dentes em formação, arqueou o dorso e miou seu menosprezo. Acabou cedendo, e, quando deu por si, já estava dentro da mochila surrada de dono prestes a mudar de mundo.
No novo ambiente, aos poucos, foi tomando posse do território: sofá, cama, estante, geladeira, pias: tudo era seu. Abria torneiras com as patas ágeis, quebrava objetos com elegância estabanada e, nos momentos em que ansiava por solidão, encenava um leave me alone à la Greta Garbo e sumia nos buracos mais improváveis.
A rotina seguia mansa e previsível, até que um toque na campainha ensaiou mudar tudo. tia-avó, última parente viva de dono, chegou sem convite e sem aviso alegando precisar estar perto do hospital onde enfrentaria um longo e severo tratamento de saúde. Com voz cansada e lenço florido ocultando a perda de cabelos, sua presença logo se tornou inevitável. Ao menos para dono. Para gato, porém, era uma afronta. “Você dá muita confiança a esse animal”, repetia a velha, rouca e irritada. “Reaja, homem! Mostre quem é que manda!”, continuava ela. gato, por sua vez, era um estrategista. Como um vilão de cinema, tramava vinganças e executava planos com precisão felina: vasculhava bagagens, espalhava roupas pelo chão, urinava fora da caixa e, golpe supremo, cravava os dentes finos nos calcanhares frágeis e delicados de tia-avó. dono tentava reagir, mas sua inação representava um convite à dominação. gato era o rei, a autoridade máxima da casa… Indiferentes ao drama que se desenrolava no interior do lar, os dias — tic-tac, tic-tac — continuavam a seguir o compasso implacável do tempo.
Num domingo gélido de agosto, vestida de desalento, tia-avó preparava um chá cantando baixinho um antigo sucesso de Dalva de Oliveira enquanto gato a observava com olhos de predador paciente. Ele então pulou e derrubou a idosa no chão. tia-avó, fósforo na mão, caiu sobre a esteira de palha que fazia as vezes de tapete. O fogo, rápido e cruel, consumiu a casa. gato escapou. dono e tia-avó, não.
Quando as chamas se tornaram cinzas e o lar virou ruína, gato decidiu caminhar devagar pela rua. Vez por outra, olhava para trás, contemplando a destruição como quem aprecia uma obra terminada. Nessa hora, alguém atento e sensível ao mínimo detalhe talvez conseguisse enxergar um discreto sorriso desenhado na boca do bicho.

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