CONTO DE QUINTA: Algumas gotas de mágoa e uma pitada de desalento

com César Manzolillo

 

ALGUMAS GOTAS DE MÁGOA E UMA PITADA DE DESALENTO

 

Quando Jairo se sentou naquele banco, Dulce já estava ali. Folheava uma revista de fofocas, aparentemente sem muito interesse. Ficaram lado a lado sem nada dizer por cerca de dez minutos até que uma borboleta azul, enorme e linda, pousou na ponta do banco, bem ao lado da mulher. Depois que ela foi embora, Jairo falou:

– A senhora viu que beleza? Parecia uma pintura.

– A borboleta? É, vi sim.

– Eu adoro pássaros e, de certa maneira, tudo o que voa. Por isso trago sempre comigo este binóculo… para observar melhor, entende? Aqui mesmo na praça…

– Sei.

– Que coisa maravilhosa deve ser voar, poder explorar o mundo, ver as coisas de cima, sob outra perspectiva.

– É.

– A senhora sabe, eu fico pensando se os nossos netos vão ter a chance…

– Nossos netos? Como assim nossos?

– Nossos, os meus e os seus. Quer dizer, não necessariamente os mesmos, tá entendendo?

– Meu senhor…

– Jairo, eu me chamo Jairo. Muito prazer.

– Senhor Jairo, fique o senhor sabendo que eu não tenho e jamais vou ter filhos e, consequentemente, netos. O senhor acha que eu lá vou ter coragem de pôr filho num mundo como este? Ora, faça-me o favor. Eu tremo só de ver uma mulher grávida andando pela rua. Que coragem!

Nesse momento, uma menininha de cerca de 3 anos, em companhia da avó, aproxima-se dos dois e começa a cavoucar a terra bem diante do banco onde eles estavam, parecendo extremamente concentrada na tarefa que realiza.

– Eu só queria dizer que o homem está destruindo o planeta, acabando com a natureza. Talvez as futuras gerações não tenham a chance de…

– Que discurso mais batido e manjado! Seja como for, talvez não existam futuras gerações, essa é que é a verdade. Do jeito que o mundo está, só botando tudo abaixo e começando de novo. Do zero!

– Nossa, que exagero, também não é assim…

– Como não é assim? O senhor não lê jornal, não vê televisão? Ou prefere dar uma de avestruz já que gosta tanto de aves? E olha que avestruz nem voa, hein!

– Também pudera, com aquele peso todo…

– Camila, chama a avó da garotinha, vamos embora, querida, já está quase na hora do almoço.

Obediente, a criança para de escavar a terra e corre ao encontro da avó. Antes, porém, entrega a Dulce uma margaridinha amarela colhida perto do banco.

– Mas a senhora não gosta de nada? Não sente prazer com coisa nenhuma?

– Cada vez menos. Sempre acho que algo ruim pode acontecer de uma hora para a outra, sabe? Agora mesmo, aqui nesta praça, pode ter alguém nas redondezas apontando uma arma para a gente. Uma pessoa dentro de um desses prédios só esperando o melhor momento para atirar.

– Mas por quê? Atirar na gente por quê?

– Sem motivo. Por prazer apenas. O ser humano é imprevisível. Cada indivíduo é um universo. O senhor quer ver uma coisa? Pense em algo, qualquer coisa, a coisa mais absurda e estranha que o senhor puder imaginar.

– Torcer pelo Vasco vale?

– Engraçadinho. Bem, como eu ia dizendo, em números redondos somos 8 bilhões de habitantes no planeta… um, pelo menos um, vai aceitar fazer aquela coisa, compreende? Por exemplo, um filme pornô.

– A senhora vê?

– Não, claro que não. De jeito nenhum. Mas eu li uma vez que eles, os produtores lá do tal filme, queriam fazer uma cena com uma mulher, dois homens, três cavalos e uma cobra. Tudo isso junto e misturado, entrando e saindo de tudo que é buraco possível e imaginável. Não lhe parece uma coisa repugnante?

– Sim, sim, doentia até.

– Pois não tenha dúvida, senhor Jairo, de que, certamente, em algum lugar do mundo, uma mulher e dois homens, já que os irracionais não contam, vão aceitar fazer esse filme grotesco. Quer ver um outro exemplo?

– Manda.

– O senhor imagina que alguém possa ser convidado para jantar na casa de um desconhecido e ser ele mesmo o próprio jantar? É uma coisa estranha, mas aconteceu de fato. Na Alemanha, se não me engano.

– Mas como é que uma pessoa pode ser convidada para jantar na casa de um desconhecido? Se ela não conhece o dono da casa…

– Conhecia… mas só pela internet, entende?

– Ah, sim, claro.

– Pois então, ele foi até a casa do conhecido virtual para jantar. Quando chegou lá, contou que queria morrer, mas que desejava fazer a última refeição com um amigo. Era um solitário, coitado. Falou depois que ele mesmo queria ser a comida. O outro, o que era o dono da casa, cortou então uns bifes do braço do convidado…

– Pelo amor de Deus, chega! Não quero ouvir mais nada. Eu já entendi o que a senhora quer dizer. Vamos mudar de assunto. E de arte a senhora gosta?

– Arte, como assim, arte?

– Música, cinema, teatro, literatura, dança, ópera, pintura, escultura.

– Gosto, mas não tenho tempo. Cinema eu vejo em casa mesmo, pela televisão. Rádio também escuto de vez em quando… notícia e música. Eu gosto de música sim. Quando faço faxina lá em casa, sempre ligo o rádio, compreende? Ajuda o tempo a passar mais depressa, o trabalho rende mais.

– Pois, então, viu como ainda existem coisas boas no mundo? Coisas que nos enriquecem, que nos tornam pessoas melhores. Eu adoro arte, todo tipo de arte. Não consigo imaginar o mundo sem ela.

– Sim, talvez, mas arte é para poucos, para a elite. Especialmente aqui no Brasil. Com tanta gente sem comida na mesa o senhor acha que alguém se preocupa com arte?

Neste instante, um cão dálmata chega e começa a revolver com as patas traseiras a terra em frente ao banco. Um pouco da terra espalhada pelo animal atinge as pernas de Dulce, que muda de lugar, tentando escapar do ataque. O dono do bicho, percebendo o incidente, pede desculpas:

– Me perdoe, minha senhora.

– Não foi nada. Está tudo bem.

– Rex, seu peralta, viu o que você fez?

– Não foi nada, nada mesmo. Sério.

Depois que os dois se afastaram, Dulce comentou:

– Rex, que nome mais antigo e sem graça, que falta de imaginação. Meu avô já tinha um cachorro chamado Rex. Tem gente que não se atualiza, que parou no tempo…

– Eu acho um nome bonito. Quer dizer rei em latim.

– Pois não é o que eu digo? Uma língua morta.

– E amigos a senhora tem?

– Poucos. Já estou quase desistindo do ser humano. Ultimamente tenho preferido a companhia do Alfredo, meu gato de estimação. As pessoas estão cada vez mais vazias e superficiais hoje em dia. Entram e saem de nossas vidas sem que a gente possa sequer se dar conta. Aliás, acho que, na maior parte dos casos, o termo correto seria passam. As pessoas não entram mais nas nossas vidas. Passam simplesmente. Muitas vezes, com a velocidade de um foguete. Todos trabalham tanto, têm sempre inúmeros compromissos… vão vivendo de forma automática. Não pensam no futuro… na falta que um amigo de verdade pode fazer na velhice. E lhe digo ainda, por mais amigos que tenhamos, na hora da necessidade, só podemos contar com a gente mesmo. Sim, isso é verdade. Estou plenamente convencida. Já tive inúmeras provas disso ao longo da vida.

– Acho que antigamente as pessoas estavam mais disponíveis para os amigos. Eram outros tempos. Tudo parecia andar mais devagar. Havia menos opções. Hoje em dia, a senhora já reparou como todos nós estamos sempre em falta com alguma coisa? Eu, por exemplo, nunca dou conta de assistir a todos os filmes que pretendo nem de ler todos os livros que desejo. E o jornal, quem é que consegue ler o jornal todos os dias? E falo ler de verdade, não só as manchetes. E tem também os passeios, as viagens, os programas de TV, a internet… os médicos, os exames, o dentista, além do trabalho, claro. Uma verdadeira loucura, dona… como é mesmo o seu nome? Percebi que já estamos aqui conversando há um certo tempo e ainda não sei como a senhora se chama.

– E por que deveria saber? É bem provável que, depois de hoje, a gente nunca mais volte a se ver. Que importa se me chamo Dora, Felícia, Joana ou Patrícia?

– Sim, de certo modo…

– Adivinha.

– Como?

– Adivinha como eu me chamo.

– Mas a senhora não vê que isso é impossível? São tantas as possibilidades…

– O senhor acha que eu tenho cara de quê?

– Não sei mesmo. É difícil.

Ao redor do banco, um pai e seu filho de uns 5 anos põem-se a atirar milho aos pombos. Em pouco tempo, um bando deles chega para degustar a bem-vinda refeição.

– Olha aí as suas aves.

– Não são lindas? A senhora não se encanta com uma visão dessas?

– Pombos transmitem doenças. São bichos sujos, nojentos. O senhor por acaso não sabe que muita gente os chama de ratos com asas? Isso que este homem está fazendo é um verdadeiro crime. E ainda mais junto com uma criança. Repare só, quase não se vê o menino tantos são os pombos a sua volta, arrematou a mulher com cara de nojo.

– Mas se olharmos por um outro ângulo, é possível supor que ele esteja apenas transmitindo noções de ecologia ao filho.

– Bem, eu preciso ir. Ainda tenho de passar no banco, no supermercado e na tinturaria. Ah, e na farmácia também. Gasto uma verdadeira fortuna com remédios todos os meses. Minha saúde é tão precária.

– Pena. Sinto que ainda poderíamos…

– A propósito, Dulce. Eu me chamo Dulce.

– É um nome muito bonito. No entanto, jamais pensaria… é que Dulce tem a ver com doce, e a senhora tem me dado a impressão de ser um tanto amarga, se me permite o comentário.

– O senhor tem mania de nomes e significados. Um nome é apenas um nome, ora bolas. Apesar disso, não posso deixar de admitir que o senhor tem certa razão. Eu já fui bem diferente. Se o senhor tivesse me conhecido dez anos atrás, veria que um dia já combinei bem mais com o meu próprio nome. Mas são muitas as pancadas que tenho recebido ao longo da vida: dos colegas de trabalho, dos vizinhos, da família, do governo e até mesmo de desconhecidos. O senhor acredita que outro dia mesmo uma velha asquerosa que vinha passando na rua… bem, estou atrasada. Preciso ir. Essa história geriátrica vai ter de ficar para um outro dia. Devo proprio andare, como diriam os italianos.

– A senhora vem sempre aqui?

– Às vezes. Até qualquer hora, senhor Jairo.

Dulce já tinha dado alguns passos em direção à rua quando resolveu voltar. Num tom inquisitório e tribunalesco, indagou:

– Eu estava pensando… quando o senhor usou o termo ¨pena¨ se referia à minha saúde ou ao fato de eu precisar ir embora?

A pergunta surpreendeu Jairo.

– Bem, na verdade, gostaria de poder conversar com a senhora ainda um pouco mais. É claro que lamento também o fato de sua saúde não ser tão boa, como a senhora diz. Se bem que, olhando para a senhora, ninguém poderia pensar… seu aspecto é tão saudável.

– Sei.

– Sua revista, a senhora está esquecendo a sua revista.

– Era só para passar o tempo, já não me interessa. Além do mais, é da semana passada.  Até logo.

O homem ficou olhando Dulce partir até que ela sumisse completamente. Refletiu sobre tudo o que conversaram. Em volta dele, os pombos continuavam disputando a grande quantidade de comida espalhada pelo chão. Pai e filho, já de mãos vazias, ainda podiam ser vistos lá adiante, caminhando juntos. Quando se preparava para deixar o local também, Jairo ouviu o pai do menino gritar desesperado. Pelo que pôde perceber, a criança havia sido atingida no braço por uma bala vinda não se sabe de onde. No mesmo instante, um dos pombos do bando, acertado em pleno vôo, caiu morto bem ao lado de Jairo. Os projéteis só poderiam ter mesmo partido de um dos prédios da frente. Sem hesitar, ele pegou o binóculo que trazia pendurado no peito e apontou-o na direção dos edifícios que encaravam a praça. De relance, vislumbrou, numa das janelas, uma mulher que fechava apressadamente uma cortina branca, segurando nas mãos uma espingarda. Foi tudo muito rápido, mas ele poderia jurar que a pessoa atrás do pano era ninguém menos que sua recém-amiga Dulce.

 

 

CÉSAR MANZOLILLO

 

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Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de 32 coletâneas literárias. Autor do livro de contos "A angústia e outros presságios funestos" (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos. Toda quinta-feira, no ArteCult, publica um conto em sua coluna "CONTO DE QUINTA", que integra o projeto "AC VERSO & PROSA" junto com Ana Lúcia Gosling (crônicas) e Tanussi Cardoso (poemas).

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