Às quartas – Quando sua casa deixou de ser minha

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Quando sua casa deixou de ser minha, quis entregar as chaves aos novos donos. Cheguei cedo. Caminhei com delicadeza sobre o piso de madeira do corredor, provocando o rangido que denunciava sua chegada do trabalho. Projetei memórias, como slides, nas paredes brancas da sala, enquanto os filmes dos almoços de domingo e das festas de fim de ano rodaram em minha lembrança. Joguei fora, pela última vez, as folhas que se acumulavam entre a grade e o vidro da janela do nosso quarto, como você fazia todas as manhãs.

Quando você partiu, assumi o controle da sua fortaleza. Desorganizei os móveis, apoiei os pés na mesa de centro e deixei acesa as luzes dos cômodos vazios, sem que você me advirtisse. Senti falta de contrariá-la. Do volume alto da televisão. Da conversa mole na hora do jantar, quando a vida estava calma, os dias mais vazios, a família mais tranquila e não havia novidades.

Recolhi a roupa de cama e abracei seu travesseiro, mesmo sabendo que já não era seu. Tudo deixou de ser meu também, por você não estar ali. O lar evaporou. Mas segui, como planejamos que eu seguiria.

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Na despedida, varri, antes, o quintal, como você fazia, como se trançasse os cabelos da filha que não tivemos, antes de as visitas chegarem. Você não abriria as portas da casa se os detalhes não estivessem arrumados. Quis fazer o mesmo.  Juntei, num canto, as folhas caídas, que sempre coloriram o chão, mesmo o tornando escorregadio. Uma metáfora da vida que atravessamos equilibrados entre encantamentos e perigos, jamais distraídos da beleza. Entre as rachaduras nas paredes, no piso do quintal, resistindo às investidas da vassoura, nasciam plantas. Delicadas, bonitas.

Vi nelas, pela última vez, seu sorriso estampado. Imaginei você me falando sobre milagres. Sobre as sementes que voam para longe e brotam nos lugares mais improváveis. Você me falaria da mágica para a qual a maioria dos olhos se fecham. Discretas mas fortes e de um verde muito marcante. Impossível não me lembrarem de nós. Só você, como eu, as teria notado, escondidas, com seus crescimentos sutis.

Os novos moradores pisaram nelas, desatentos, no dia da visita ao imóvel. Devem ocupar o quintal com novas plantas, sem darem-se conta de que são donos de uma pequena floresta. Talvez, daqui a uns anos, tenham o olhar treinado para as delicadezas, como nós que, na casa, aprendemos a ouvir o som do vento nas árvores e dos pássaros pousados na mangueira pela manhã.

Senti tantas saudades que cometi um desatino: arranquei uma dessas plantinhas e a trouxe comigo. Abri minha janela e espero uma brisa espalhar sua semente no ar. Tenho o peito fissurado. Minhas emoções parecem acimentadas. Torço para que ela brote em mim e cubra minhas cicatrizes de esperança. Mais à frente, quem sabe, eu possa sonhar, até, em florescer.

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ANA LÚCIA GOSLING

Ana Lucia Gosling (@analugosling)

 

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Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, aqui no ArteCult, há texto novo da autora. Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

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