
APELO À MODERAÇÃO
Diante do empate técnico entre os candidatos da esquerda e da direita nestas eleições a presidente, penso que o povo brasileiro tem uma alma bipartida. A velha dicotomia progressistas e conservadores, falando aqui na linguagem popular. Isso seria até saudável para o enriquecimento dos debates políticos sobre os destinos do país. Uma discussão política equilibrada, em tese, faz alcançar melhor, pelo diálogo, as soluções para cada questão que se apresente, evitando-se que a manada inteira se lance cegamente pelo penhasco em decorrência de decisões irrefletidas de uma maioria esmagadora. Melhor seria se houvesse mais discursos de linhas alternativas para esses diálogos.
Porém, algo ainda mais preocupante são os núcleos duros de cada ala ideológica, seja o dos conservadores, seja o dos progressistas, carinhosamente conhecidos pela população como “direitopatas” e “esquerdopatas”, respectivamente[1].
Refratários a qualquer discussão, não cedem um centímetro sequer em suas convicções em favor de nada, muito menos da tão procurada (e atualmente ofensiva) verdade (ou consenso) num diálogo político. Esses radicalismos são irreconciliáveis e, longe de buscarem qualquer saída inteligente para problemas sociais postos em discussão, aparentam querer, antes de qualquer coisa, a derrota total do argumento contraposto, independentemente de quem está com a razão, quando não a própria destruição física do adversário.
De aborto em qualquer fase de gestação à proibição total do aborto desde a concepção; da defesa total da propriedade à abolição de qualquer legitima defesa da propriedade; proibição total das drogas à liberação total das drogas; de tudo como propriedade privada à total ausência de propriedade; do porte e venda irrestrita de armas à proibição total de circulação de armas dentro da população civil; e por aí vai.
É tudo tão preto no branco, pão-pão, queijo-queijo, que se alguém tentar apresentar uma proposta intermediária chega a ser uma agressão pessoal aos radicais fervorosos. Difícil são as duas partes fazerem concessões, embora o que se vê no mundo é justamente modulações desses pontos de vista extremados, pois, na prática, o bom senso ainda tem uma chance de respirar. Assim, a contragosto das funestas minorias fundamentalistas, continua o aborto e o porte de armas existindo em casos específicos determinados pela lei. Viva o Estado Democrático de Direito.
Para esses extremistas, qualquer pessoa que se apresente por uma linha moderada do espectro das ideologias políticas é vista como alguém de pouco estudo ou caráter fraco, com posicionamento político sem firmeza e que não compreendeu bem o arcabouço teórico que rege cada ideologia. Entretanto, essa petulância e pedantismo dos radicais só escondem as suas verdadeiras naturezas: são intolerantes a ponto de comprometerem o próprio diálogo democrático com seus radicalismos. Paradoxalmente, como ensinado pelo filósofo Karl Popper, o remédio contra os intolerantes é a própria intolerância, pois deixá-los “soltos” (ser tolerantes com os intolerantes) é uma ameaça ao próprio ambiente democrático que pretendemos defender.
Assim, faço com humildade o meu apelo a uma maior moderação nos discursos e narrativas, e, antes de tudo, um apelo ao saber ouvir o outro lado. Caso haja discórdia, que se faça com argumentos claros, num ambiente saudável, em que se envide esforços para manter o diálogo e deem a todos os participantes a oportunidade de se manifestarem de maneira racional e ordenada, para que, enfim, alcancemos as conclusões mais racionais, assim como possamos fazer as composições mais adequadas às partes envolvidas.
Está na hora de dar um basta à violência ideológica em período eleitoral.
[1] Observação importante: Estamos tratando de denominações não acadêmicas, com pouca relevância científica dos termos. Está algo mais para o senso comum. Para o popular. Usadas de forma levemente jocosa e jovial.
RODOLFO GUIMARÃES NEVES

Rodolfo Guimarães Neve


com Márcio Calixto
com César Manzolillo















