AC RETRÔ: Uma telenovela com 328 capítulos, quem teria hoje “Coragem” para assistir?

 

Uma telenovela com 328 capítulos, quem teria hoje “Coragem” para assistir?

Por Jorge Ventura

 

Manhã, despontando lá fora / Manhã, já é sol, já é hora / E os campos se abriram em flor / E é preciso coragem / Que a vida é viagem / Destino do amor / Abre o peito coragem, irmão! / Faz do amor sua imagem, irmão! / Quem à vida se entrega / A sorte não nega seu braço e seu chão / (…) O rumo, a raça, a roda, o rodeio / O rio, a relva, o risco, a razão / Mas quem à vida se entrega / A sorte não nega seu braço e seu chão …/ Manhã, despontando lá fora / Manhã, já é sol, já é hora / E os campos se abriram em flor / E é preciso coragem / Que a vida é viagem / Destino do amor / (…)  Irmão, é preciso coragem / Irmão, é preciso coragem / Irmão, é preciso coragem …

Os versos mencionados acima fazem parte da letra do tema de abertura de um dos maiores sucessos da TV brasileira: a telenovela “Irmãos Coragem”. E, antes de começar a comentar sobre a grande obra assinada por Janete Clair, devo revelar a primeira curiosidade. Essa versão cantada da música “Irmãos Coragem”, na voz e interpretação de Jair Rodrigues, foi apresentada pela primeira vez no capítulo 31 – na antológica cena em que o personagem João Coragem (Tarcísio Meira) encontra o tão cobiçado diamante – prevalecendo até o final da telenovela. Nos 30 capítulos iniciais, usava-se apenas a versão instrumental.

Composta por encomenda pela dupla Nonato Buzar e Paulinho Tapajós, revelo aqui, na coluna AC Retrô, a segunda curiosidade. No remake de 1995, o tema foi aproveitado, mas com algumas modificações. Além de a música ter sido compactada e rearranjada, e a voz de Jair Rodrigues ter dado lugar à de Milton Nascimento, um verso da letra sofreu uma pequena alteração: E os campos se abrindo em flor em vez de E os campos se abriram em flor. Até hoje não se sabe ao certo se foi um descuido do Milton ou dos próprios produtores na hora da gravação.

Capa do DVD lançado anos mais tarde em homenagem à novela de Janete Clair.

Bem, isto posto, vou me ater à produção de “Irmãos Coragem”, que marcou sua estreia em 8 de junho de 1970 e encerrou sua exibição em 12 de junho de 1971. Foram exatos 328 capítulos! E detalhe: não foi a telenovela mais longeva, tendo em vista que “A Grande Mentira” (de 1968) contou com 341 capítulos. Janete Clair, que já havia escrito “Sangue e Areia”, “Passo dos Ventos”, “Rosa Rebelde” e “Véu de Noiva” para a TV Globo, veio ocupar o espaço deixado pela autora cubana Gloria Magadan, responsável também por outros sucessos da emissora, entre os quais, “O Sheik de Agadir”. Janete, com “Irmãos Coragem”, buscou persuadir o público masculino ao criar um roteiro no estilo western brasileiro e ao apresentar como protagonista um jogador de futebol. Isso porque havia, na época, o tabu de que os homens não tinham muito interesse em assistir às telenovelas, destinadas hipoteticamente apenas ao público feminino. Por recomendação da emissora, a autora cumpriu bem a missão de mudar tal estatística. “Irmãos Coragem” foi a primeira telenovela a contar com uma cidade cenográfica para as gravações. A direção geral foi de Daniel Filho, com a colaboração de Milton Gonçalves e Reynaldo Boury.

“Foi a primeira novela que os homens admitiam que viam por causa da ação que ela tinha. Até então, eles viam meio escondidos, olhando de canto, com vergonha de admitir, porque novela era coisa de mulher” – disse Tarcísio Meira ao Memória Globo, em 2006.

A ganância do homem por riqueza e poder, o amor proibido entre irmãos, a disputa pelo garimpo, a luta pela liberdade e contra a opressão faziam parte do eixo principal da trama de “Irmãos Coragem”. João Coragem, figura íntegra, consagrou duas cenas memoráveis da teledramaturgia brasileira. Quando o vilão Coronel Pedro Barroso roubou o seu valioso diamante, que, ao longo da história, acabou caindo nas mãos de outro personagem misterioso, somente descoberto no último capítulo da novela, causando surpresa a todos os telespectadores. Com isso, o enredo ganhou contornos de filme policial. Aplausos para a cena da roda-gigante no parque de diversão, no momento da perseguição. Outra cena impactante foi a de João após saber da morte do seu irmão Jerônimo e da índia Potira.  Em estado de fúria, ele tomou a picareta de um garimpeiro e partiu em pedaços o cobiçado diamante.

Um dos pontos de destaque, além das brilhantes atuações dos atores, foi a trilha sonora, incluindo as músicas incidentais. Daniel Filho utilizou temas conhecidos do cinema de faroeste e até dos filmes de James Bond, como o instrumental “007” (The John Barry Orchestra). Essa telenovela foi a segunda produção da TV Globo a contar com uma trilha original, ou seja, feita sob medida para divulgação da obra. O jovem e talentoso Nelson Motta, que já havia assinado a trilha de “Véu de Noiva”, foi quem assinou o trabalho musical. No repertório seletivo, havia desde músicas pop até melodias eruditas, como exemplo, de Tim Maia a Villa-Lobos, incluindo canjas de atores do elenco. A atriz Regina Duarte gravou “Minhas Tardes ao Sol”, de Paulinho Machado, enquanto o ator Cláudio Cavalcanti cantou “Menina”, de Paulinho Nogueira, tema do seu personagem Jerônimo Coragem e da índia Potira, personagem com que fazia o par romântico.

Em janeiro de 1971, passando férias com a família, em Poços de Caldas/MG, eu havia ganhado de um vendedor de souvenirs uns cristais brutos que, de tão translúcidos, brilhavam como diamantes. Escolhi a pedra maior e dizia, de brincadeira, a amigos e parentes, que havia encontrado o “diamante do João Coragem”. Pra que fui inventar isso? Houve um primo de São Paulo que acreditou nessa história e tentou me “filar” – gíria da época que significava o mesmo que “tomar algo de outro na mão grande”, se é que os leitores me entendem –  este pedaço de minério muito pouco ou nada valioso.

Claudio Cavalcanti, Tarcísio Meira e Claudio Marzo em “Irmãos Coragem”

Com interpretações magistrais, “Irmãos Coragem” reuniu numa só telenovela três galãs protagonistas. Além de Tarcísio Meira e Cláudio Cavalcanti, Cláudio Marzo encarnou Duda Coragem, que não convivia com os garimpeiros na fictícia cidade de Coroado, na região central do Brasil. O personagem era jogador de futebol e se tornou famoso por defender o Flamengo, clube do Rio de Janeiro. Gilberto Martinho, na pele do Coronel Pedro Barros – o velho tirano, o homem mais poderoso da cidade, chefe maior dos garimpeiros – foi estupendo. Em sua última participação na telenovela, o personagem remontou ao histórico ato do imperador Nero, que, num acesso de loucura, incendiou Roma. Assim também o fez o velho Coronel, deixando Coroado em chamas. Outra interpretação arrebatadora foi a de Emiliano Queiroz, como Juca Cipó, meio débil, meio vilão, um dos capatazes de Pedro Barros.

Emiliano Queiroz e Gilberto Martinho em “Irmãos Coragem”

E, se houvesse um prêmio por melhor atuação, sem sombra de dúvidas, o troféu iria para as mãos de Glória Menezes que viveu três personagens distintas na mesma telenovela. Na verdade, a personagem principal era a recatada Lara, filha de Pedro Barros, que sofria do transtorno dissociativo de identidade. Com isso, em momentos de crise, Lara se transformava em Diana, uma mulher espevitada e fogosa, fato que confundia seu par romântico, João Coragem, um homem rude, simples e honesto, mas que, após ter sido vítima de tantas injustiças, passou a liderar um bando de garimpeiros revoltados, considerados foras da lei.

O transtorno de Lara resultou em outra personagem, Márcia, cuja personalidade assumida atingia o equilíbrio necessário e fazia o contraponto entre as duas. Certamente, uma grande ousadia da autora Janete Clair ao levar um assunto psiquiátrico para uma telenovela daquela época.

Gloria Menezes em “Irmãos Coragem”. Foto: TV GLOBO

Para completar o elenco, a telenovela contou com outros nomes consagrados, como Regina Duarte, Zilka Salaberry, Ana Ariel, Glauce Rocha, Lúcia Alves, Milton Gonçalves, Dary Reis, Carlos Eduardo Dolabella, Sônia Braga, Hemílcio Fróes, Ângela Leal, Antônio Victor, Yara Amaral, José Augusto Branco, Ênio Santos, Macedo Neto, Felipe Wagner, Arthur Costa Filho, Suzana Faíni, Arnaldo Weiss, B. de Paiva, Dorinha Duval, Paulo Araújo, Myriam Pérsia, Mirian Pires, Neuza Amaral, Monah Delacy, Jurema Penna, Fernando José, Renato Master, José Steimberg e Moacyr Deriquém.

Elenco de “Irmãos Coragem”. Gilberto Martinho (3), Tarcisio Meira (5), Gloria Menezes (4), Regina Duarte (24), Milton Gonçalves (11), Claudio Cavalcanti (10) , Sonia Braga (16) Carlos Eduardo Dolabella (21), Zilka Salaberry (22), Emiliano Queiroz (23) . Foto: TV GLOBO

Desse elenco estelar, uma das poucas remanescentes de “Irmãos Coragem” é a atriz Leda Lucia, que interpretou a personagem Margarida, a filha do prefeito de Coroado, com quem este colunista que vos escreve teve a honra de conversar e realizar uma entrevista exclusiva. Leda Lucia começou sua carreira na TV Tupi, a convite do diretor Maurício Sherman, no humorístico “Rua do Ri Ri Ri”. Fascinada pelo teatro revista, atuava, paralelamente, nos shows de Carlos Machado, ao lado de famosos, como Grande Otelo e Betty Faria, entre outros. Trabalhou depois na TV Excelsior, TV Globo e no SBT. Na TV Globo, além de “Irmãos Coragem”, participou de várias telenovelas, entre as quais, “Anastácia, a Mulher sem Destino” e “O Bofe”. Durante cinco anos, interpretou Eglantine, filha de Valfrido Canavieira, personagem de Chico Anysio, no programa “Chico City”.

Leda Lucia. Foto: Jorge Ventura

No teatro, foram dezenas de participações em comédias, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Sucessos como “Por falta de roupa nova…  Passei o ferro na velha”, com Carvalhinho, Henriqueta Brieba e Selma Lopes;  “Sexo etc e tal”, com André Rangel; “Chica Boa”, completando mais de um ano de cartaz; “3 mulheres”, “Tomando chá nas tardes de outono”, “Histórias ao Entardecer” e “Bodas de Ouro”, de autoria de Gualdino Calixto; “Marlene, a incomparável – a convite do produtor João Luiz Azevedo; e, em 2024, “ Devagarinho eu deixo…”, comédia de A. Ferraresi, sob sua direção e a de Lula Medeiros, fazem parte do seu vasto currículo artístico.

CONFIRA ABAIXO NOSSA ENTREVISTA COM LEDA LUCIA!

 

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

 

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

9 comments

  • Mais um ótimo artigo de Jorge Ventura, que sempre nos brinda com seu escrever elegante e consistente!

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  • Saboroso artigo do nosso querido amigo e poeta Jorge Ventura: rebobina um tempo, uma escuta, um olhar de uma geração.
    Minha irmã gravou o CD “O Lirismo de Paulinho Tapajós” e tivemos o prazer de conviver com o Paulinho.
    Sim, Irmãos Coragem em seu lirismo.
    Obrigada pelo seu artigo-presente, Jorge.
    Bjs, Rose Araujo.
    Poeta, designer gráfico e anfitriã do
    Espaço das Artes CasAmarElinha.

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    • Minha querida Rose, amiga e poeta multiartista, agradeço em muito o seu comentário e prestígio. Gostei de saber que você conheceu e conviveu com o Paulinho Tapajós. Beijos!

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  • Que belo trabalho Jorge Ventura, que nos leva a viajar no tempo. Confesso que me emocionei com uma pequena mostra da interpretação do ator Tarcísio Meira com a atriz Glória Menezes. Quanta saudade! Fiquei feliz com a entrevista da querida amiga atriz Leda Lucia, que fez parte do elenco de Irmãos Coragem e continua brilhando no teatro… Parabéns e sucesso, Leda Lúcia! ❤️. Abraço Jorge Ventura! ❤️

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  • Ótimo artigo, querido Jorge Ventura! Uma pesquisa consistente e deliciosa sobre o gênero. Irmãos Coragem foi uma novela que marcou época pela excelente dramaturgia, lirismo e maravilhosos atores. Seu artigo foi uma verdadeira viagem ao tempo. Viva a Arte! ❤️ Deixo aqui um grande abraço.

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  • Que artigo belíssimo! Sempre ouvi falar da novela Irmãos Coragem em casa, minha mãe e meu tio sempre comentavam, mas nunca assisti um trecho sequer. Pude perceber e entender pelo artigo como a novela era impactante. A trilha sonora de abertura na voz de Jair Rodrigues é linda demais, sem falar da Glória Menezes com atuação impecável, tratando de um assunto psiquiátrico naquela época. Parabéns, Jorge! Trabalho incrível!

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