AC RETRÔ : Uma geração cheia de graça e de boas gargalhadas

 

Uma geração cheia de graça e de boas gargalhadas

Por Jorge Ventura

 

 

Diferentemente da minha mãe – que sempre foi muito sisuda e de poucos amigos –, meu pai adorava contar piadas, fazer trocadilhos e levar a vida com bom humor. Não preciso nem dedicar um parágrafo para dizer o quanto ele preferia assistir aos filmes e seriados de comédia a melodramas. Eu me lembro de que, uma vez ele convidou toda a família para assistir, no cinema, a dois clássicos desse gênero: Um convidado bem trapalhão (1968), com Peter Sellers, e De caniço e samburá (1969), com Jerry Lewis. Não é que até minha mãe gostou e se divertiu?

 

 

Haviam sido as minhas primeiras comédias assistidas no telão, pois o meu pai me chamava para assistir, nas matinês de domingo, ao desenho Tom & Jerry, que eu tanto amava! Acredito que foi a partir daí que passei a curtir o trabalho maravilhoso desses artistas comediantes. Entre o humor inglês – refinado, inteligente e, às vezes, ácido – e o humor norte-americano – espalhafatoso e caricato –, meu pai não fazia distinção. Para ele, ou o filme/programa tinha graça ou não tinha.

E foi assim que me tornei fã de Carlitos (Charles Chaplin), de Buster Keaton, de Stan Laurel e Oliver Hardy (O Gordo e O Magro), da dupla Abbott e Costello e da série de TV Comedy Capers (Os reis do riso), que reunia uma trupe de primeira grandeza: Snub Pollard, Ben Turpin, Billy Bevan, George Gee, Harry Langdon, Tommy Cooper, The Keystone Cops, os próprios Laurel & Hardy, entre outros. Na verdade, essa série eram sequências de filmes de curta-metragem da chamada “era silenciosa”, produzidas por Mack Sennett e Hal Roach, nas décadas de 1920 e 1940.
Isso porque eu ficava assistindo a esses shows de humor pela TV, na companhia do meu pai, que soltava altas gargalhadas na sala do nosso pequeno apartamento. Em outra oportunidade, também comentarei a respeito de programas de humor produzidos no Brasil, sucessos nas rádios e TVs da época.

 

 

 

Atento-me, porém, neste artigo, a três ícones da comédia pastelão, anunciados pelo locutor a cada episódio: A Screen Gems apresenta uma sessão de bom humor e gargalhadas… Os Três Patetas! O trio mais biruta da tela, que nos divertirá, hoje, com a comédia … (…) Versão brasileira: AIC – São Paulo!

Moe, Larry e Curly faziam parte do mais famoso trio cômico e eram, de tão carismáticos, os patetas mais queridos por crianças e adultos. Entre tapas e caretas, puxões de orelha e caneladas, atrapalhadas e tortas na cara, a comédia física cumpria muito bem a sua função. Moe Howard (o líder, de cabelo de cuia, ranzinza) era irmão, na vida real de Curly Howard (o mais engraçado, de cabeça raspada), que chegou a atuar como um dos Três Patetas durante 12 anos, mas, infelizmente, sofreu um derrame cerebral, em 1946, dando lugar a outro irmão (também muito engraçado, o de cabelo preto e testa franzida), Shemp Howard. Apesar de Shemp ter composto, oficialmente, a segunda formação do trio, também esteve presente no início, desde a criação do trio, e atuou em um curto período, antes de Curly. Como Pateta, chegou a participar de 77 curtas-metragens e dos longas-metragens Soup to Nuts (1930) e Gold Raiders (1951). Permaneceu atuando até 1955, quando faleceu em razão de um ataque cardíaco. Ao contrário de Curly, que era mais infantil, Shemp mostrava seu “mau humor” diante das situações mais bizarras. Críticos consideravam-no um comediante mais textual do que físico. O fato é que os irmãos Curly e Shemp desenvolveram, cada qual a sua maneira, uma série de reações, expressões faciais e vocais, além de bordões, características marcantes e inesquecíveis dos seus respectivos personagens.

Larry, o segundo Pateta, meio calvo, tinha cabelos enrolados e desalinhados, que faziam volume pelos lados e por trás da cabeça. Mesmo um pouco desengonçado, Larry Fine era o meio-termo do lúcido Moe e dos irreverentes Curly e Shemp. Com o falecimento de Shemp, o ator e dublador Joe Besser (“Joe”), menos engraçado em relação aos seus antecessores, foi convidado a compor a terceira formação, encerrando a temporada dos curtas-metragens. Ao todo, Os Três Patetas exibiu 190 episódios, também transmitidos pela TV, o que resultou em uma nova geração de fãs. Quando o trio se dedicou mais à produção dos longas-metragens, foi a vez de Joe DeRita (“Curly-Joe”) substituir Joe, numa tentativa de resgatar o jeito mais caricato de quem atuava como o terceiro Pateta. A fórmula parece não ter dado tão certo quanto os curtas, embora vários filmes tivessem sido realizados entre 1959 e 1970. Um deles, The Outlaws is Coming (Os Reis do Faroeste), de 1964, trouxe no elenco um ator que se tornaria, dois anos depois, um astro da cultura pop: Adam West, o Batman da TV!

A série Os Três Patetas (The Three Stooges), comédia produzida em preto e branco e dirigida por Jules White, hoje é vista como cult, porém, décadas atrás, ganhou versões animadas, entre elas, uma versão cibernética, que passou por aqui, na TV brasileira, sob a tradução Os Robobos. No ano de 1978, a extinta TV Tupi estreou a comédia pastelão Os Pankekas, claramente inspirada no trio norte-americano, o mais biruta da tela. Os três cômicos brasileiros eram Rony Cócegas (interpretando Maionese, caracterizado de Larry), Sandrini (interpretando Mexilin) e Mario Alimari (interpretando Feneguetti, caracterizado de Moe). O programa ficou quase um ano no ar. Em 1979, ainda estrelaram o longa Os Pankekas e O Calhambeque de Ouro, dirigido por António Moura Mattos e roteirizado por Emanoel Rodrigues. Além de um tributo a Os Três Patetas, o programa conquistou uma ligeira audiência infantil. Em 2012, no telão, outro grande tributo ao trio: um remake, com os atores Chris Diamantopoulos (Moe), (Sean Hayes (Larry) e (Will Sasso (Curly). Isso sem contar as versões colorizadas da série original no formato DVD, chegando a alcançar bons índices de vendas.

O trio teve ainda adaptações para as histórias em quadrinhos, tanto publicadas nos EUA quanto no Brasil. Nos Estados Unidos, as aventuras saíram pela editora St. John, com duas edições em 1949 e, posteriormente, mais sete entre 1953 e 1954. No mercado brasileiro, as editoras La Selva e EBAL publicaram os personagens, porém trocando seus nomes. Nas publicações da La Selva, Moe virou Mico, Shemp virou Chico, e Larry, Tico. Pelo selo da EBAL, eles foram rebatizados de Mu, Franjinha e Cacheado. A EBAL lançou ainda um álbum em 3D, que obrigava a ter óculos especiais para a leitura, e uma edição especial chamada “Os Três Patetas com Hércules no Olimpo”. Segundo pesquisa, houve outro projeto editorial brasileiro, uma HQ, cujo título foi Três Patetas Surdos, do mineiro Lucas Ramon Alves (conhecido como Tikinho, um cartunista surdo), lançada em 2015, na FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), em Belo Horizonte, cuja ideia surgiu a partir de sua experiência pessoal e de sua paixão por desenhos e quadrinhos. A temática abordava a convivência de três amigos surdos – Tikinho, Tetinho e Fefinho – e sua língua de sinais, de maneira acessível e divertida.

A verdade é que a ideia do trio cômico foi imitada por diversos produtores e redatores de comédia, mas nenhuma outra formação de atores comediantes superou Os Três Patetas. Baixinhos na estatura, gigantes na arte do humor. Incomparáveis! Porém, penso que, nos dias atuais, o gênero pastelão não funcione mais. O público do mundo moderno exige uma comédia inteligente, comedida, responsável e respeitosa. Mas que o humor exagerado desses três irreverentes e hilariantes “patetas” marcou uma geração e nos dá uma grande saudade, isso é verdade!

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

 

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

 

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

3 comments

  • Amo essa coluna. Ela nos lembra de dias felizes, de poucas amarguras (essas ficavam para os adultos) e de que a vida poderia ser uma maravilha, entre risos e palhaçadas inconsequentes. Tudo era fácil e o mundo pequeno cabia numa gargalhada. Pra mim, O Gordo e o Magro eram imbatíveis, mas nossos heróis eram todos perfeitos dentro de suas imperfeições. A Coluna nos mostra que éramos felizes e sabíamos. Crescer, às vezes, nos tira da rota. Parabéns ao pai do poeta que cresceu cultivando sua criança e lhe ensinou o caminho do cinema e da literatura, ainda que inconscientemente. Viva a alegria dentro de todos nós! Vivam os nossos artistas do riso.

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  • É sempre bom ler sua coluna, amigo, pois é uma verdadeira viagem no tempo para aqueles que puderam viver uma boa época e também um meio de conhecer um pouco sobre outros períodos cheios de histórias não vivenciadas por muitos, como é o meu caso. Brilhante!!!

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