
Os reis do ringue na época do Telecatch
Por Jorge Ventura
Bem antes das competições acirradas nas arenas do MMA (Artes Marciais Mistas), em que feras do octógono – como Anderson Silva (Spider), Georges St-Pierre, Jon Jones, Jose Aldo e Amanda Nunes – abrilhantavam os espetáculos de luta organizados e promovidos pelo UFC (Campeonato de Combate Final), o mundo esportivo já havia se rendido para a Era de Ouro das disputas de boxe. Nesse período glamouroso, especialmente dos anos 1960 e 1970, pugilistas pesos-pesados como George Foreman, Joe Frazier e Muhammad Ali (Cassius Clay) protagonizaram rivalidades históricas, atraindo multidões aos estádios e grande cobertura da mídia.
No Brasil, o nome do brasileiro Eder Jofre – “Galo de Ouro” – era muito popular por ter sido tricampeão mundial de boxe na categoria peso-galo e, mais tarde, campeão mundial na categoria peso-pena. Entretanto, até para os fãs que levavam esse tipo de esporte a sério, o programa de TV que agradava os jovens e, principalmente, os pais da minha geração, por misturar encenação teatral, coreografia, arte circense e, é claro, um pouco da técnica de luta livre, era o Telecatch!
Embora tudo não passasse de uma farsa bem orquestrada pelos produtores, o público telespectador vibrava e torcia com fervor como se acreditasse nos combates. O Telecatch passou por três fases de ouro, se assim podemos chamar. Começou a ser exibido na extinta TV Excelsior, do Rio de Janeiro, sob o patrocínio da Vulcan, sendo batizado de Telecatch Vulcan, devido à relação com a casa de borracha dos Cassini, do setor de esportes náuticos, e com a Imperatriz das Sedas, representada pelos sócios César Murane e Rafick. Este último, inclusive, foi quem teve a ideia de promover o programa pela TV. A atração foi ao ar de 1965 a 1966.
Um ano depois, com a mudança de patrocinador e de emissora, o programa passou a ser chamado de Telecatch Montilla, e exibido entre 1967 e 1969, pela TV Globo, ganhando mais popularidade e conquistando bons pontos de audiência.

O curioso é pensar, nos dias de hoje, como a marca de uma bebida alcoólica – no caso, o Ron (run, em espanhol) Montilla – poderia estar associada à prática de um esporte cuja essência era o preparo e o vigor físico. Há quem diga que o patrocínio se justificava pelo slogan do produto:
“Viva o espírito pirata”.
No rótulo da garrafa, vinha a ilustração de um pirata sorridente e fanfarrão com um papagaio em seu ombro, fazendo o estilo dos bárbaros navegantes. Coisas da época!

A transmissão pela TV Globo do Telecatch Montilla foi, sem sombra de dúvidas, a consagração desse espetáculo de entretenimento, que proporcionava momentos de ação e comédia. No ringue, o roteiro era ensaiado e seguido à risca. Os lutadores encarnavam diversos personagens: mocinhos, vilões, galãs e bizarros; havia os de corpos esculturais, os de músculos flácidos, os cabeludos e barrigudos, os barbudos e carecas, além dos mascarados e misteriosos, que se enfrentavam para o delírio da plateia.
Valia tudo na prática do telecatch! Numa simples distração do juiz, os vilões aproveitavam para atacar, covardemente, os mocinhos. Havia mordidas, rasteiras, tijoladas na cabeça, dedos e limões espremidos nos olhos dos adversários e, de vez em quando, até o juiz era alvejado. Havia também o soco-inglês (uma peça metálica usada pelos vilões que se encaixava nos quatros dedos, com exceção do polegar) para desferir golpes violentos nos oponentes. Esses golpes, é claro, faziam parte da encenação, tanto que o sangue de groselha escorria entre as mãos deles para a revolta da plateia, que, em repúdio, gritava, jogava sapatos e guarda-chuvas no ringue. Os galãs bonzinhos, por sua vez, ao serem humilhados, respondiam com “tesouras voadoras” nos malvados (golpe rápido em que as duas pernas saltam abertas e se fecham no pescoço do rival), levando-os ao nocaute e pondo fim à luta.
Pesquisadores, entretanto, afirmam que o programa pioneiro aconteceu em 1956, na TV Rio, chamado de TV Rio Ring, embora dedicado às exibições de boxe. Segundo fontes, o sucesso de audiência começou a despertar daí, tendo como narrador Luiz Mendes; como apresentador dos lutadores, Léo Batista (sim, o locutor da voz marcante da TV); e, como comentarista, o jornalista Teti Alfonso. A atração chamou a atenção de três emissoras concorrentes: a TV Record, que estreou As fera do ringue; a TV Tupi, Gigantes do ringue; e a TV Bandeirantes, Campeões do 13.
O que mais impressionava, portanto, era a galeria de personagens. Os lutadores se transformavam em figuras com nomes e características próprias.

Álbum de figurinihas dos anos 60 “Os Reis do Ringue”, com os astros do Telecath brasileiro
Entre eles: o galã loiro Ted Boy Marino – na verdade, Mario Marino, um italiano boa-pinta, de porte atlético e sedutor, que cresceu em Buenos Aires e depois veio para o Brasil, aos 24 anos. Por ser o mocinho, fazia sucesso com a criançada. Por ser bonito, fazia sucesso com o mulherio –, o extraordinário Tigre Paraguaio, o Aquiles, o traiçoeiro Mongol, o exótico Leopardo, o terrível Rasputin Barba Vermelha , a Múmia e os misteriosos Verdugo e Fantomas.
- Ted Boy Marino
- Tigre Paraguai
- A Múmia
Eu tenho uma história engraçada sobre um dos lutadores que interpretaram o Verdugo. Uma vez, eu deveria ter por volta de 7 anos de idade e estava num bar, no bairro de Vicente Carvalho, zona norte do Rio de Janeiro, com meu pai e meu padrinho. Eles tomavam uma cerveja, e eu brincava com uma bola. Conversa vai, conversa vem, meu padrinho comentou, quase num sussurro, que, na mesa ao lado, estava sentado o “lendário Verdugo”, e todos os moradores da região o conheciam. Fiquei com medo e passei a olhá-lo de soslaio. De repente, minha bola quicou perto dele. Apavorado, fiquei entre as pernas do meu pai. Eis que o homem alto, forte, muito branco (parecia um agente russo) se agachou para pegar a bola e foi até a nossa mesa para devolvê-la a mim. Por pouco, tive uma crise de choro!

Verdugo e Pé na Cova
Contudo, Verdugo foi meu ídolo no telecatch. Como eu adorava os heróis e vilões mascarados dos seriados da TV, eu tinha fascínio para saber quem estava por trás do disfarce. Houve uma luta em que o adversário conseguiu retirar a máscara do Verdugo, porém seu rosto não foi revelado ao grande público, porque ele usava outra máscara, de um tamanho menor. Este misterioso personagem, no ringue, usava uma máscara de caveira, lutava com os braços estendidos, abrindo e fechando as mãos enluvadas, e arrastava uma perna retesada feito uma múmia dos filmes de terror. Era acompanhado pelo Pé na Cova, seu inseparável assistente, até a entrada no ringue. Há quem diga que o intérprete de Pé na Cova, um homem baixo e magro, que pintava os olhos de preto antes das apresentações, era cabo da Polícia Militar, porém o diretor Teti Alfonso afirmou, em entrevista, que o próprio foi escolhido por acaso e que a dupla macabra acabou dando certo. Verdugo entrou no imaginário popular como o vilão mais querido. O grande desafio dos adversários era desmascará-lo durante a luta. Os patrocinadores chegavam a oferecer um prêmio milionário caso alguém realizasse o intento, mas as limitações de locomoção faziam com que ele apanhasse, em média, até o quarto assalto. Em seguida, Verdugo reagia e vencia o oponente sob os gritos frenéticos da plateia.

Verdugo em combate
Fãs inveterados do Telecatch Montilla garantem que houve quatro intérpretes. O primeiro lutador se chamava Torres, um policial militar, mais conhecido no meio do catch como Banzo; depois, foram os argentinos El Toro e Ali Bonani; e por último, Wilson Rosaline, que, aos 80 anos, já aposentado, fazia aparições, em períodos natalinos, vestido de Papai Noel. Wilson voltou às manchetes de jornal, em 2000, por ter sido assassinado com sete tiros, em Jardim Ingá, no entorno do Distrito Federal.
O personagem Fantomas, quase um genérico do Verdugo, que usava uma máscara parecida, também foi interpretado pelos argentinos El toro e Ali Bonani. E, para completar esse casting, o juiz mais conhecido e adorado pelo público, por ser alvo certo dos lutadores, se chamava Crispim. Os astros do ringue se tornaram verdadeiras celebridades e destaques até em álbum de figurinhas.

Fantomas. O lutador “gigante demolidor”
A popularidade do telecatch, por outro lado, provocou o protesto de muitos profissionais (lutadores e pugilistas), de empresários e da imprensa especializada. A maioria entendia que a luta livre combinada e caricatural, propagada na TV, desrespeitava e ridicularizava o esporte no Brasil. Entretanto, a força dos grandes anunciantes falou mais alto, e nada abalou a audiência.
O programa Telecatch Montilla ia ao ar nas noites de sábado, às 20h. Porém, em 1969, passou a ser exibido após as 23h, por proibição da censura. Para muitos especialistas no assunto, o espetáculo é cultuado até hoje pelo mundo, mas parece que “a piada da luta” perdeu a graça e nunca mais as exibições alcançaram os bons índices de audiência dos anos 1960/1970. Quem curtiu na época curtiu pra valer!
Ah, tempos bons! Quem se lembra?
* Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.
Instagram
@jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ
Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️
Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.
Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

















Quando pequeno eu até fechava o olho quando eles pulavam , da quina do Ringue, um em cima do outro kkkk
Kkkk Pode crer! Eu também achava tudo muito real. E, é claro, ver o Verdugo no ringue era um misto de medo e admiração…rsrs
Seu texto tá ótimo, amigo. Cada um melhor que o outro. Vc sabe como ninguem encadear bem cada etapa dessa viagem que vc está nos proporcionando via AC RETRÔ
Muito obrigado pela força de sempre, amigo! É com muito orgulho e satisfação que faço parte dessa equipe maravilhosa do Artecult.com.
Muito boa a matéria. Eu conheci Ted Boy pessoalmente. Gente boa.
Eu tambem, minha mãe tirou uma foto minha com ele, acho que no aeroporto. Mas não encontrei mais essa foto…
Querida Leda, grato pelo comentário! Aproveito a oportunidade para lhe dizer que a sua entrevista estará no próximo artigo sobre a telenovela “Irmãos Coragem’. Beijos!
A cada leitura, novas descobertas de épocas recheadas de curiosidades. Parabéns! Texto incrível!
Valeu, Rivane, pela leitura e o prestígio de sempre. Fico muitíssimo feliz pelo seu comentário. Beijos!
Amei o texto, super aprendi. Parabéns ArteCult, parabéns Jorge Ventura. Belíssima coluna.
obrigado pelo comentário, querida Val
Valeu, Val, por mais esta força! Aos poucos, o AC Retrô vai conquistando mais e mais leitores! Beijos!
Jorge Ventura nos presenteiam com um trabalho de pesquisa cada vez mais aprimorado. As lutas eram bem aceitas e assistidas pelos fãs. Acredito que Ted Boy Marino foi um sucesso de audiência no TeleCatch. Abraço Jorge Ventura e parabéns!
Foi, sim, um grande sucesso, querida Maria Célia! Marcou uma geração. Grato pelo comentário. Bjs!