AC Retrô – Em Terra de Gigantes, ficamos Perdidos no Espaço. Que tal uma Viagem ao Fundo do Mar pelo Túnel do Tempo?

gerada por IA

Por Jorge Ventura

No período agudo da Guerra Fria, os Estados Unidos e a extinta União Soviética travavam uma disputa incessante pela corrida espacial. A conquista da Lua era o prêmio maior para demonstrar força nacionalista, poder e grande capacidade de investimento tecnológico. Isso, certamente, despertou a imaginação de vários escritores e roteiristas de sci-fi (ficção científica). Entre 1950 e 1970, efetivamente, muitos romances, novelas e contos foram publicados, assim como filmes, desenhos animados e seriados, produzidos em profusão, com o intuito de cativar uma legião de fãs e interessados no gênero. 

A brincadeira que eu fiz com o título deste artigo reúne quatro clássicos que fizeram bastante sucesso na TV: Viagem ao Fundo do Mar (1964-1968), Perdidos no Espaço (1965-1968), O Túnel do Tempo (1966-1967) e Terra de Gigantes (1968-1970). E o que esses seriados têm em comum? Eu respondo, prezado(a) leitor(a): todos foram criados pela mente inventiva de Irwin Allen, o Senhor Sci-Fi das aventuras fantásticas ou, como era chamado no meio artístico, The Master of Disaster (O Mestre do Desastre), em razão do seu envolvimento também com produções do cinema-catástrofe, tendo assinado obras como O Destino do Poseidon (1972) e Inferno na Torre (1974). 

Irwin Allen. Foto: reprodução Internet.

Irwin Allen, um fervoroso divulgador de temáticas científicas, conseguiu levar para a telinha um universo futurista, atraente e desafiador, desenvolvendo cenários, transportes e personagens que entraram para a nossa memória afetiva. Seus roteiros misturavam engenharia espacial, cibernética, projetos paramilitares, viagem no tempo, exploração planetária e marítima. Pelo admirável mundo de Allen, passavam espaçonaves (Júpiter 2) e submarinos (Seaview), robôs (B-9), equipes de cientistas, seres intergalácticos e monstros marinhos. Os episódios eram compostos de argumentos ficcionais, alguns inspirados em romances, e outros, baseados em fatos históricos e pesquisas laboratoriais. Contudo, Allen, como idealizador, produtor e diretor, sabia da sua responsabilidade diante dos interesses comerciais dos anunciantes, ou seja, transformar o programa televisivo em algo que instigasse os adultos, mas que entretivesse, sobretudo, as crianças.  

A tarefa não era fácil para Irwin Allen, mas confesso que foi assistindo ao seriado O Túnel do Tempo, meu preferido, que me encantei ainda mais com as aulas de história na escola. A primeira vez que eu ouvi o nome do transatlântico RMS Titanic e soube do seu trágico naufrágio foi no episódio “Volta ao Passado”, na estreia do seriado, pela fala do personagem Tony Newman, perito em física eletrônica e viajante do tempo.

https://www.facebook.com/reel/762493166342660 – Abertura ‘O Túnel do Tempo’ (The Time Tunnel) 1966

https://www.facebook.com/reel/944163198292001 – Mais sobre a série ‘O Túnel do Tempo’ (The Time Tunnel) 1966

https://www.facebook.com/reel/886997597510258  – Cena de um episódio de ‘O Túnel do Tempo’  – E se Você Soubesse que o Titanic iria afundar? 

Mas a trajetória bem-sucedida de Allen se confirma com o filme piloto que deu origem à série Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea), em 1961, com a participação de astros e estrelas de Hollywood no elenco principal, como Joan Fontaine, Peter Lorre, Barbara Eden (que se consagraria, mais tarde, na TV como Jeannie, em Jeannie é um Gênio), Michael Ansara (casado, na época, com Barbara), Robert Sterling, Walter Pidgeon e Frankie Avalon. Três anos mais tarde, o seriado estrearia e apresentaria um novo elenco, composto pelos atores Richard Basehart (Almirante Nelson), David Hedison (Capitão Lee Crane), Robert Dowdell (Tenente-Comandante Chip Morton), Del Monroe (marinheiro Kowalski), Terry Becker (Chefe Francis Sharkey) e Paul Trinka (marinheiro Patterson). Claramente inspirado em Vinte Mil Léguas Submarinas, de Julio Verne, o seriado Viagem ao Fundo do Mar contava as aventuras dinâmicas de uma tripulação a bordo do submarino nuclear Seaview, sob o comando militar do Almirante Nelson e do Capitão Crane, com a missão de enfrentar ataques de nações inimigas e os perigos das profundezas do mar. Foram quatro temporadas (110 episódios ao todo), sendo a primeira exibida em preto e branco, e as demais em cores. Aqui, no Brasil, chegou em maio de 1965, transmitido pela TV Record, às 20h, nas noites de domingo.

 

Viagem ao Fundo do Mar

https://www.facebook.com/watch/?v=1655996808429413&rdid=RTDwN5MX4osNZkMY – Abertura da Série
” Viagem ao Fundo do Mar”

No entanto, foi em setembro de 1965 o ano de estreia do seriado de maior sucesso na carreira de Irwin Allen: Perdidos no Espaço. Embora o episódio piloto para a TV nunca tivesse ido ao ar, o seriado emplacou três temporadas tendo, em média, bons índices de audiência. A primeira, em preto e branco, considerada a melhor; a segunda ganhou cores, porém ganhou também forte concorrência. O sucesso da série Batman, estrelada por Adam West e Burt Ward, colorida e com estética camp, obrigou os roteiristas a deixarem o foco na ficção científica e a embarcarem no tom mais cômico, evidenciando a relação entre o garoto Will Robinson, o Robô B-9 e o Dr. Smith – que, por sinal, de um ardiloso vilão se tornou um grande covarde, trapalhão e caricato personagem.

Perdidos no Espaço – acredite! – se passa no “futuro”, em 16 de outubro de 1997, quando a espaçonave Júpiter 2 é lançada ao espaço, tendo a bordo a família Robinson: o professor John Robinson (interpretado por Guy Williams, o famoso Zorro, do seriado da Disney), sua esposa Maureen (June Lockhart), os filhos Judy (Marta Kristen), Penny (Angela Cartwright) e Will (Bill Mumy), o piloto major Don West (Mark Goddard), o Robô B-9 (conduzido pelo ator manipulador Bob May e dublado pelo  ator Dick Tufeld), e o espião sabotador do governo inimigo, Doutor Zachary Smith (Jonathan Harris), um inescrupuloso personagem infiltrado na missão especial de colonizar um planeta em Alfa Centauri, projeto montado para solucionar o problema da superpopulação da Terra. O espião Dr. Smith, vítima de sua sabotagem, acaba preso na espaçonave com os demais tripulantes, levando-os a ficar perdidos no espaço sideral. Uma curiosidade: no episódio piloto, Júpiter 2 se chamava Gemini 12, numa referência ao programa espacial norte-americano.

Perdidos no Espaço permaneceu no ar até março de 1968. Um pouco antes do início da produção da quarta temporada, mesmo com alguns roteiros prontos e cenas gravadas, a série foi cancelada, não por baixa audiência, mas em razão da crise financeira pela qual passava a CBS, que acabou por cancelar outros projetos. No Brasil, o seriado estreou em 4 de setembro de 1966 e foi transmitido pela TV Record. Vale destacar o trabalho primoroso da dublagem realizada pela AIC – São Paulo, especialmente com relação às vozes do garoto Will Robinson (Magali Sanches/Maria Inês), Robô B-9 (Jorgeh Ramos/ Amaury Costa) José Soares/Gilberto Baroli) e Dr. Smith (Borges de Barros), tendo como narradores Ibrahim Barchini, Emerson Camargo e Carlos Alberto Vaccari (a voz que ficou mais conhecida). O dublador Borges de Barros foi muito elogiado pelo próprio ator Jonathan Harris, quando visitou o Brasil, em 1969, para participar do programa da apresentadora de TV, Hebe Camargo, e teve a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Harris achou muito divertidos os bordões criados por Borges nas cenas em que seu personagem se referia ao Robô, como “sua lata de sardinha enferrujada”. E houve quem dissesse nos bastidores que a voz original de Harris era “meio fraca” e que a voz cheia de Borges de Barros deu mais vida ao Dr. Smith.

Outra lembrança que eu tenho desse seriado foi a emblemática campanha promocional do Ovomaltine, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. O seriado, que se tornou também um fenômeno de audiência na telinha brasileira, provocou euforia na mídia publicitária.  A dinâmica da campanha consistia em juntar os selos ou tickets encontrados no fundo das embalagens e enviar para a empresa. Os selos ou tickets eram trocados por um brinde: o Robô B-9 feito de plástico. Infelizmente, a demanda foi tão grande que o estoque dos brindes acabou rapidamente. Isso frustrou muitas crianças, que ficaram sem o produto promo. Eu fui uma delas. Atualmente, esse robô se tornou um item raro entre os colecionadores.  

Embora emendasse uma série em outra, o nível de produção de Irwin Allen continuava elevado. Entre um trabalho e outro na TV, ele encaixava um roteiro para o cinema. Ele sempre podia contar com uma equipe de primeira grandeza. Nesse período, Allen fez parceria com um talentoso maestro que viria a fazer sucesso no cinema, principalmente com outro parceiro, Steven Spielberg. Eu me refiro a John Williams, que, no começo da carreira, assinava Johnny Williams. John foi responsável pelos temas de abertura de Perdidos no Espaço, O Túnel do Tempo e Terra de Gigantes. Em parceria com Allen, assinou também a trilha sonora do filme Inferno na Torre, de 1974, um ano antes de compor o tema de Tubarão (Jaws) para Spielberg. 

Irwin Allen dirigindo Guy Williams, em Perdidos no Espaço

Allen tinha muito capricho com os temas de aberturas e não à toa escolhia maestros renomados. Em Viagem ao Fundo do Mar, o filme piloto, ele havia convidado ninguém menos do que Jerry Goldsmith (o mesmo autor da famosa trilha de Star Trek/Jornada nas estrelas), enquanto o seriado ficou sob a batuta de Paul Sawtell. A magia dos seriados de Allen se estendia em muitos países e quanto mais as emissoras reprisam os episódios, mais fãs conquistavam. 

O Túnel do Tempo e Terra de Gigantes foram outros seriados que dignificaram em muito a dedicação de Irwin Allen ao gênero sci-fi. Particularmente, O Túnel do Tempo, como disse na introdução desse artigo, é o seriado de que mais gosto. Até hoje, eu me lembro da narração: Dois cientistas americanos se perdem em um envolvente labirinto de épocas passadas e futuras, durante a primeira experiência do maior e mais secreto projeto americano, o Túnel do Tempo. Tony Newman e Doug Phillips são arrojados então a uma nova e fantástica aventura em alguma parte dos infinitos caminhos do tempo.

Na trama, tratava-se do projeto Tic-Toc, no qual os dois protagonistas Tony (interpretado por James Darren) e Doug (Robert Colbert) trabalhavam juntos, com todo o empenho, no subsolo do deserto do Arizona, envolvidos na construção de uma máquina que pudesse transportar qualquer pessoa ou objeto através do tempo. Sob ameaça de cancelamento do projeto, por ter sido considerado audacioso demais e muito oneroso para os cofres do governo norte-americano, Tony quis provar ao senador, em visita às instalações da experiência científica, que o investimento não era um desperdício. Tomou, então, a iniciativa de entrar no túnel, às escondidas, antes de a máquina ter sido totalmente testada. Ele viajou no tempo e foi parar no transatlântico Titanic, no ano de 1912 antes da tragédia ocorrida. Seu amigo Doug foi ao encalço de Tony na tentativa de resgatá-lo, sem saber que o túnel não reunia condições de trazê-los de volta ao tempo presente. E assim os dois seguiram viajando por diversas épocas, dividindo aventuras com personagens históricos, reais e fictícios, como Genghis Ghan, Robin Hood, Rei Arthur – nesse episódio 27, intitulado “Merlin, O Mágico”, o próprio mago surge na base militar do túnel, congela os cientistas e toda a equipe, levando Tony e Doug, em animação suspensa para o século VI. Seu intuito era impor que os viajantes protegessem Arthur em suas batalhas medievais. Completam o elenco da série, Whit Bissell (General Kirk), John Zaremba (dr. Raymond Swain), Lee Meriwether (dra. Ann MacGregor) – conhecida por ter sido a Mulher-Gato do longa Batman, de 1966 – Sam Groom (Jerry) e Weley Lau (Sargento Jiggs). O Túnel do Tempo estreou nos EUA, em 9 setembro de 1966, na rede ABC; e no Brasil, em 1967, sendo exibida pela extinta TV Tupi.

Assim como O Túnel do Tempo foi criado a partir da ideia central de A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, em Terra de Gigantes, Allen se inspirou em As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Eu me recordo que, na minha infância, adorava criar casas e objetos de papelão em tamanhos enormes para dar a sensação, nas brincadeiras do Jorginho e seus amigos, de que éramos “pequeninos” em Terra de Gigantes. A curtição era boa. Esse foi mais um seriado que emplacou na TV com a marca autoral de excelência do competente cineasta. A história começa no “futuro”, no ano de 1983, quando a aeronave Spindrift seguia a rota de Los Angeles a Londres e se deparou com uma névoa estranha. Ao atravessá-la, enfrentou uma tempestade magnética. Seu destino foi pousar num planeta parecido com a Terra, porém habitado por seres 12 vezes maior, ou seja, pessoas e animais gigantes. Durante as aventuras, os tripulantes da aeronave eram perseguidos por todos por serem considerados “anormais”, às vezes, tratados como brinquedinhos de carne e osso e até espiões de outros planetas. O seriado apresentava um planeta sob regime autoritário, controlado pelo SID (Special Investigation Departament), a polícia secreta dos gigantes, tendo como líder o inspetor Kobick. Sem dúvidas, o seriado fazia uma crítica ao totalitarismo, numa alusão às ditaduras que imperavam nos anos 1960.  Participavam da tripulação o comandante da Spindrift, capitão Steve Burton (Gary Conway), o copiloto Dan Erickson (Don Marshall), a aeromoça Betty Hamilton (Heather Young), e os passageiros: o engenheiro Mark Wilson (Don Matheson), a modelo Valerie Scott (Deanna Lund), a criança órfã Barry Lockridge (Stefan Arngrim) e o trapaceiro e ladrão de bancos Alexander Fitzhugh (Kurt Kasznar).

Em constante perigo, os “pequeninos” improvisavam com cordas e ganchos, utilizando pregadeiras ou clipes e barbantes gigantes.  Foram duas temporadas e 51 episódios. Terra de Gigantes estreou, nos EUA, em 22 de setembro de 1968 e encerrou sua exibição em 22 de março de 1970. No Brasil, estreou em 2 de março de 1969, pela TV Record. Esses clássicos mantiveram-se na grade da programação das tevês durante muito tempo e, apesar das inúmeras repetições, o sucesso era garantido. Em 1975, Irwin Allen lançou o seriado A Família Robinson, outra inspiração, dessa vez, a partir do romance Robinson Crusoé, de Daniel Dafoe, mas isso eu contarei em outro artigo. 

 

Ah, tempos bom! Quem se lembra?

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

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