AC RETRÔ: E os capitães, quem diria, animavam a criançada

Por Jorge Ventura

 

Há alguns meses, um meme circulou pela Internet mostrando uma reportagem para a TV, dos anos 1980, em que uma garotinha indignada protestava: Que Xou da Xuxa é esse?! Que Xou da Xuxa é esse?! Ela estava, desde as três horas da madrugada, numa imensa fila de crianças para entrar nos estúdios da emissora e se sentia injustiçada pelo fato de muitas pessoas, que chegaram depois, terem passado a sua frente.

Sobre a “rainha dos baixinhos” e o megassucesso do seu programa, eu comentarei em outro artigo, certamente. Agora, sobre esse tipo de frisson da criançada, posso afirmar que já havia desde o tempo em que dois “capitães”, quem diria, comandavam a programação infantil da TV. Os apresentadores, devidamente fardados, representavam duas Forças Armadas do Brasil: a Marinha e a Aeronáutica. Nada mais coerente com o sistema de governo vigente, na época, sob o regime militar.

O primeiro a que eu me refiro é o personagem Capitão Furacão, interpretado pelo ator e dublador Pietro Mário, que conduzia o programa a bordo do seu navio cenográfico. Ele estreou no mesmo dia em que a TV Globo, a realizadora, foi inaugurada, em 26 de abril de 1965. Esse formato de apresentação, dirigido ao público mirim, foi considerado o precursor em relação a tantos outros que o sucederam naquele período. O Capitão Furação conquistou em pouco tempo a audiência, chegando a alavancar a venda de produtos licenciados com a sua marca. Eu me lembro, ainda moleque, que perturbava a minha mãe lhe pedindo que comprasse uma calça brim coringa, indicada pelo Capitão Furacão.

O intérprete Pietro Mário, com apenas 26 anos de idade, para encarnar o velho desbravador do mar, precisou usar bigode e barba postiços. Quando o colunista que vos escreve se tornou um dublador, lá pelos anos 2000, teve o prazer de conhecê-lo nos corredores da extinta Herbert Richers. Ele, sempre muito gentil e educado, brincava que podia voltar a ser o Capitão Furacão, sem disfarce, pois já estava idoso e barbudo naturalmente.

Como o programa foi ao ar no primeiro dia de transmissão da TV Globo, o anúncio da atração era a figura de um leme em fusão com o globo terrestre, primeira logo da emissora. O horário do programa era das 17h às 19h, e o Capitão Furacão aparecia no intervalo dos desenhos animados de Hanna-Barbera e de seriados clássicos, como Super-Homem, Zorro e Os Três Patetas. Sempre rodeado de crianças, conforme o Capitão girava o leme, narrava histórias sobre o mar, orientava marinheiros iniciantes, divulgava gincanas e lia as cartas enviadas pelos fãs telespectadores.

A atração contou, no ano seguinte à estreia, com uma assistente do Capitão Furacão. Era a atriz adolescente Elizangela, que anos mais tarde viria a estrelar minisséries e telenovelas da Globo. Em 1978, chegou a gravar a canção “Pertinho de Você”, lançando-a num compacto simples que estourou nas paradas de sucesso (eu tive esse disquinho, porque era apaixonado por ela). A presença de Elizangela fomentou a criação do Clube do Capitão Furacão. As crianças que acompanhavam o programa eram chamadas de grumetes, levando a sério o bordão “Sempre alerta e obediente”.

Capitão Furacão e sua ajudante Elizangela

 

Confira as entrevistas com Pietro Mário e Elizangela:

Veja algumas imagens daquela época:

Webdoc entretenimento na GloboPlay – Capitão Furacão (1965):

https://globoplay.globo.com/v/2105598/

 

O “velho capitão” durou até 1970, mas a verdade é que, a partir de 1968, foi perdendo audiência para o seu forte concorrente na disputa do entretenimento infantil: o Capitão Aza. Interpretado pelo ator e policial civil Wilson Vianna, o programa do capitão da Aeronáutica era mais alegre, atraente, dinâmico e musical. A produção da TV Tupi caprichava nos cenários e efeitos especiais, que, apesar dos limitados recursos da época, funcionavam muito bem, dando a sensação de que o apresentador – a bordo de sua aeronave – viajava pelo espaço sideral, enquanto anunciava as atrações. As luzes, a sonoplastia e os espelhamentos de imagens despertavam a imaginação das crianças.

Transmitido pela TV Tupi do Rio de Janeiro, o Clube do Capitão Aza foi ao ar entre 1966 e 1979, porém teve vários formatos, aberturas, fases e durações. O sucesso popular cresceu a partir de 1974, quando a TV em cores já era uma realidade. O programa era visto em todo o território nacional, via satélite, pela Embratel.  Vestindo um uniforme aeronáutico e um capacete de piloto estampado com a logo em destaque – a letra “A” com duas asas –, o comunicador começava o programa assim:

Alô, alô, Sumaré! Alô, alô, Embratel! Alô, alô, Intelsat 4! Alô, alô, criançada do meu Brasil! Aqui quem fala é o Capitão Aza, comandante em chefe das forças armadas infantis deste Brasil…

Confira a abertura do programa:

Agora, imagine, prezado(a) leitor (a), se, nos dias de hoje, algum apresentador falasse na TV: “comandante em chefe das forças armadas infantis deste Brasil”? Bem, isso é outro assunto. Afinal, naquela época, o ufanismo era inevitável para agradar ao regime e, por isso, muito comum nos meios de comunicação. Eu me lembro que, uma vez, estudando e fazendo os exercícios de redação de escola, escrevi “asa” com z. Fui logo repreendido pelo meu pai. Eu o retruquei dizendo que a “aza” do Capitão Aza se escrevia com z. Assim como eu, milhares de crianças enviaram cartinhas para a TV Tupi do Rio de Janeiro, situada no antigo prédio do Cassino da Urca, pedindo que o Capitão Aza explicasse o erro. A produção do programa agiu rapidamente e o ídolo da criançada justificou que o seu nome foi batizado com z, porque não se referia à asa de um avião, mas sim à homenagem a um falecido herói da FAB, combatente na Segunda Grande Guerra, o capitão aviador Adalberto Azambuja, mais conhecido como Aza.

Wilson Vianna, o Capitão Aza

Criado por Maurício Sherman, Vianinha e Paulo Pontes, o intrépido personagem Capitão Aza, vivido por Wilson Vianna (cujo sobrenome, curiosamente, era grafado com apenas um “n” nos créditos do programa), conquistou altos índices de audiência. Muito do seu estrondoso sucesso se deveu à interpretação do ator e à equipe de produção que criou uma grande estrutura de marketing para aumentar sua popularidade junto ao público infantil. O Capitão Aza, no instante de chamar a atração – fosse um seriado ou um desenho animado – improvisava falas, fazia contagem regressiva em inglês, e assumia a voz de comando sem ser arrogante, ao contrário, esbanjava carisma e simpatia. Wilson Vianna, ator experiente, com participações em filmes da famosa companhia cinematográfica brasileira, a Atlântida, e em produções estrangeiras nos EUA e México, na pele do Capitão Aza, cantava com animação, lia as cartinhas das crianças, dava bons conselhos aos jovens, como o de respeitar os mais velhos e o de compartilhar amizades, além de passar noções de Moral e Cívica.

Em alguns pontos, o formato do Clube do Capitão Aza se assemelhava com o do Clube do Capitão Furacão. Portanto, não foi à toa que o programa tenha sido criado com a finalidade de superar o concorrente. O capitão da Aeronáutica se tornou muito mais famoso que o capitão da Marinha. Ele visitou centenas de escolas do Rio de Janeiro (pena que a minha nunca foi escolhida pela produção), recebeu no seu estúdio diversas celebridades nacionais e até internacionais, como exemplo, o cantor Roberto Carlos, o lutador de telecatch Ted Boy Marino e o ator norte-americano Jonathan Harris (intérprete do personagem Dr.Smith, do seriado “Perdidos no Espaço”, durante sua visita ao Brasil). O Capitão Aza também realizava passeios turísticos com a criançada, nos fins de semana, promovidos pela TV Tupi e com o aporte dos patrocinadores. Houve um período em que o Clube do Capitão Aza apresentava um concurso mirim, “Mini Chance”, um quadro de calouros, oferecendo às crianças a oportunidade de se tornarem artistas, sendo avaliadas por um júri e, aquelas que se destacavam, ganhavam cadernetas de poupança, entre outros prêmios.  No feriado de 7 de setembro, ele fazia questão de desfilar na Avenida Presidente Vargas com sua moto. Naquela ocasião, exaltava os feitos dos ex-combatentes da FEB (Força expedicionária Brasileira), conhecidos como “pracinhas”, na Segunda Grande Guerra.

A cada temporada, ele estreitava o contato com o seu público. Além de contar com uma seleta programação – os seriados “Jeannie é um Gênio”, “A Feiticeira”, “Thunderbirds”, “Capitão Escarlate”, “Joe 90”, “Stingray”, “Robô Gigante”, “Vingadores do Espaço”, os desenhos da Marvel, “Fantomas”, “Sansão e Golias”, “Os Brasinhas do Espaço”, “Anjo do Espaço”, “Mr. Magoo” e a “Turma da Pantera Cor de Rosa”, entre tantos clássicos da animação – em 1973, o Capitão Aza se tornou personagem de Histórias em Quadrinhos, publicadas na revista O Cruzeiro Infantil, numa parceria com a Editora O Cruzeiro. Dois anos depois, com o fim da empresa, infelizmente as aventuras quadrinizadas do “herói viajante do espaço” pararam de circular. Contudo, de 1975 a 1978, por meio de um acordo comercial entre a TV Tupi (que exibia “Capitão América”, “Homem de Ferro”, “Namor”, “Thor”, “Hulk” e “Homem-Aranha”) e a Bloch Editores (que detinha os direitos de publicação desses heróis Marvel) o apresentador passou a divulgar na TV os gibis da Bloch e do seu “Clube do Bloquinho”, tendo como contrapartida uma coluna fixa chamada “Notícias do Capitão Aza”, em todas edições das HQs, trazendo informações das atividades do programa, das visitas e das novas atrações. Pesquisadores afirmam que, em 1976, ele chegou a ser novamente quadrinizado numa tira do jornal Diário de Notícias, com roteiro de Cláudio Almeida e desenhos de Carlos Chagas.

 

Veja cenas inéditas de um programa colorido do Capitão na extinta TV Tupi que foi remontado por PH do canal PH TOP TV:

 

Uma curiosidade: em 1975, a cult-série Batman, estrelada por Adam West e Burt Ward e  transmitida em preto e branco,  em 1966, pela antiga TV Paulista, foi redublada em razão de sua reprise, apresentada pela primeira vez em cores. Nesse mesmo ano, o desenho Speed Racer, que havia sido exibido pela TV Globo do Rio de Janeiro, em 1972, ganhou repercussão em nível nacional quando o Clube do Capitão Aza mostrou suas cores originais. Para se adaptar a essa nova tecnologia televisiva, os produtores do programa tiveram de se adaptar e até o capacete do ídolo da criançada foi pintado. A TV Globo, nesse período, voltava a disputar audiência, com um novo conceito de programa, trazido dos EUA, que envolvia entretenimento, valores éticos e, principalmente, instrução: Vila Sésamo. Ao mesmo tempo, levava ao ar Globo Cor Especial, um pacote de novos desenhos de Hanna-Barbera, mas isso eu comentarei em outro artigo.

Bem como o Capitão Furacão, o Capitão Aza também contou com uma assistente em uma fase bastante musical: a loirinha Martinha. Bela e desenvolta, ela o acompanhava no estúdio (ou melhor, a bordo da espaçonave) e nas gravações fonográficas, fazendo um duo espetacular nas canções infantis que marcaram a minha geração, como “ABC”, “Se você quer ser alguém”, “Eu sonhei”, “A Princesa”, “Song Blue” e tantos sucessos inesquecíveis. Até hoje eu me pego cantarolando “Sideral”, o tema de abertura, uma composição magistral do trio Durval Ferreira, Tibério Gaspar e Waldir Granthon:

Comandando uma astronave/  Rasgando o céu/ Vou pisando em estrelas, constelações / Deixo longe o mundo aflito e a bomba H / Corpo livre no infinito eu vou / Na estrada do sol. / Traço rumo do meus passos na solidão/ Ganho espaço nas revistas, televisões / Mas os homens se destroem /Nas guerras vãs /E vão no pó dos sonhos, ah / Em nome do amor / Eu vou colorindo de vermelho / Este céu azul / Minha nave é um espelho / Rebrilha ao sol Pela trilha da esperança / Cantando o amor e a paz / Eu vou cantando o amor e a paz …


Confira a música:

https://www.youtube.com/watch?v=zvst4sMs8_o&ab_channel=MiltonLeite

 

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

 

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

 

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

8 comments

  • Ótimo artigo. Eu tinha preferência pelo Capitão Furacão. Os desenhos do programa dele me agradavam mais.

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    • Grato, Renato, pelo comentário. Realmente, eram atrações diferentes, mas eu gostava de ambos. Abraços!

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    • Valeu, meu querido amigo e parceiro cultural, Rapha Gomide! Fico contente por respeitar e considerar o meu trabalho. Estamos juntos!

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  • Caramba…Capitão Furacão tinha 26 anos? Kkkk.. Eu assistia os dois…mas depois acabei ficando só com o Capitão Aza…adorei saber a origem do nome.
    Adorei a matéria…lembrei de todas as musiquinha.

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  • Dois heróis, Capitão Furacão e Capitão Aza, que encantaram as crianças e adolescentes da época. Hoje é só saudades do tempo privilegiado que vivenciaram. Parabéns, belo trabalho de pesquisa❤️

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  • Eu não cheguei a pegar ou acompanhar esse programas. Mas lendo sua matéria, Jorge, viajei no tempo, mesmo sem ter conhecido esses capitães! Acredita? Minha mãe falava muito no Capitão Furacão. Parabéns pelo texto.

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