AC RETRÔ : Batman de 66. A série é cult, e o Morcego é pop!

 Batman de 66. A série é cult, e o Morcego é pop!

Por Jorge Ventura

Quando a série Batman de 66 passou a ser considerada, definitivamente, “clássica” pela crítica especializada e pela grande mídia do entretenimento, os fãs na faixa dos 50/60 anos comemoraram como se tivessem conquistado um título importante de futebol em nível mundial. E não era para menos.

Na arte e, mais especificamente, na literatura, os critérios que definem se a obra pode ser um clássico dizem respeito à sua originalidade e à fidelidade ao período em que foi criada, escrita ou produzida. A estética e/ou o conteúdo da obra, de rara inventividade, transcendem gerações sem perder seu valor. No caso de um livro, filme ou série televisiva, deve ter apelo universal. Sua história pode emocionar, encantar, incomodar, assustar, excitar ou divertir, mas, invariavelmente, deve surpreender pessoas de diferentes culturas, de modo a se tornar inesquecível.

Os clássicos sempre serão referências porque exercem influência não apenas na vida dos leitores, espectadores ou apreciadores, mas também na maneira de criar de outros autores e artistas, que – em sua maioria, ainda no início de suas trajetórias – buscam inspirações sobre estilos e ideias para composição de suas obras.

Foi o que aconteceu com Batman da TV, ao longo dos seus quase 60 anos, para que, finalmente, fosse reconhecida como um clássico da cultura pop. A série mereceu tal honraria por ter sido visionária desde sempre. Por meio do humor camp, inovou em tudo: nos enquadramentos, na trilha sonora, nas músicas incidentais, nos cenários e figurinos de cores psicodélicas, nas aventuras surrealistas, no elenco estelar, nos roteiros inteligentes em que se discutiam assuntos polêmicos, pondo a crítica, o engajamento e a denúncia a serviço da diversão.

Do que foi mostrado no programa, em 1966, como uma reflexão de tempos vindouros, hoje, em pleno século XXI, transformou-se em realidade. A visão futurista de um mundo dominado pela tecnologia (a batcaverna repleta de batcomputadores, equipamentos de última geração, laboratório de pesquisa etc); o design arrojado do batmóvel, veículo ultramoderno (que já nasceu clássico pelas mãos do genial George Barris); o consumo desenfreado do supérfluo nas sociedades capitalistas, representado pelo cinto de utilidades do herói; a morosidade e ineficiência das polícias metropolitanas, em casos mais complexos de investigação (caricaturadas de Comissário Gordon e Chefe O´Hara); a cartilha do “politicamente correto” nos ensinamentos do Cruzado Embuçado ao Menino-Prodígio; o aliciamento de belas jovens para o crime sob promessas de muito dinheiro, fama e vida fácil (as comparsas dos arquivilões); os crescentes movimentos sociais, as campanhas políticas fraudulentas (como a do Pinguim para prefeito); a liberação sexual e o fetiche (na figura da Mulher-Gato); o poder de sedução e dominação (representadas por Márcia – a Rainha dos Diamantes, Sereia e Viúva Negra); a causa feminista simbolizada pela heroína Batgirl, e até o empoderamento (embora pelo apoderamento) da vilã Nora Clavícula.

São temas e assuntos discutidos atualmente em palestras, seminários, noticiários e debates em universidades. Isso prova como a série esteve à frente do seu tempo. Um autêntico clássico cult da TV.

O leitor deste artigo deve ter percebido que, ao me referir ao programa, procuro categorizá-lo como “cult-série”, fazendo valer a denominação dada aos produtos da cultura pop que atraem milhares, às vezes, milhões de ávidos fãs. Em geral, ser cult é continuar a ser lembrado, homenageado e, por consequência, representar inspiração para gerar novas obras; é possuir admiradores e consumidores mesmo depois de não estar mais em evidência na grande mídia, em razão de sua produção ter sido interrompida ou cancelada. É, inclusive, mais comum receber esse status quando saem das grades de exibição.

E por que a série, sendo uma sátira inapropriada para o perfil hodierno do Cavaleiro das Trevas, se tornou cult? Respondo pelos fãs da minha geração: o saudosismo de uma infância inocente, alegre, descontraída e entretida com os episódios eletrizantes da Dupla Dinâmica. A rica lembrança dos divertidos Batman e Robin e suas célebres expressões “bat-isso” e “bat-aquilo”, “para o batmóvel!” ou “santa alguma coisa!”, da famosa chamada final do narrador que acabou marcando com o bordão: “na mesma bat-hora, no mesmo bat-canal!”, da descida pelos bat-postes e das bat-escaladas nos prédios. Tudo isso ficou gravado na memória e no coração dos fãs que assistiam ao seriado nos anos 1960.

Nos tempos atuais, dificilmente o Homem-Morcego ganharia novamente uma roupagem camp. Não me refiro às produções animadas de categoria infantil – como exemplo Brave and The Bold/Os Bravos e Destemidos e os filmes da Warner Bros. Animation em parceria com a Lego – mas sim a uma versão live-action. O leitor/espectador das gerações Y, Z e Alpha entende o herói de Gotham City como um personagem sério, preparado para enfrentar um mundo violento e injusto. É uma lenda urbana, um vigilante noturno de carne e osso, mas revestido por uma armadura militar de combate. Daí a importância da série sessentista ter entrado para a galeria dos grandes clássicos da TV, por sua extraordinária qualidade de produção, merecedora de um tratamento Hors Concours pela crítica especializada e apreciadores do gênero.

Na icônica adaptação das histórias em quadrinhos para a telinha, incríveis onomatopeias explodiam durante as lutas e mirabolantes gadgets faziam parte do espetáculo, o Batman de Adam West estava mais para um Sherlock Holmes divertido e irreverente, com lógicas infundadas e deduções ridículas para se chegar à pista deixada pelo arquivilão. Nem cool, nem dark. Foi esse o perfil do Morcegão que marcou os anos 1960 e se eternizou na cultura pop.

Em 2012, a partir do acordo entre Fox e Warner, muitos itens colecionáveis ligados ao programa foram responsáveis pela longevidade artística e cultural do seriado. Com isso, ocorreu um fato curioso. Fãs da minha geração, do Brasil e de todas as partes do mundo, acompanhados de amigos de infância, esposas, filhos e até de netos, passaram a criar e a participar de encontros, eventos, convenções e concursos de cosplays referentes ao famoso seriado. Pela internet, grupos de discussão, fansites e contatos nas redes sociais feitos por colecionadores e fãs-clubes foram aumentando e, por fim, conquistando novos adeptos. E, é claro, o status de cult é medido pela proporção do sucesso comercial, pelo grande interesse do público e pelo aquecimento do mercado para a indústria do entretenimento.

Em 24 de julho de 2014, durante as comemorações dos 75 anos da criação do personagem Batman, na San Diego Comic-Con – um dos maiores eventos de cultura pop do mundo –, Adam West, Burt Ward e Julie Newmar anunciaram, oficialmente, o lançamento da cult-série no formato home vídeo (Blu-Ray, DVD e Digital HD) sendo ovacionado pelo público presente. West passou, então, a ser o garoto-propaganda desse box, concedendo entrevistas em convenções, programas televisivos, de rádio e internet. West, Ward e Newmar tiveram a oportunidade de acompanhar o lançamento de outras linhas de produção, como maquetes, modelos, estatuetas e action-figures com suas respectivas feições.

O box Batman – The Complete Television Series reuniu 120 episódios remasterizados e mais três horas de conteúdo extra e inédito. O box veio também com um dispositivo, na parte lateral, em que se aciona um botão e se ouve o tema de abertura do programa.

Box Blu-ray com os 120 episódios da cult-série Batman da TV, mais encartes promo, disco extra com entrevistas e um batmóvel miniatura da HotWheels.

E mais: dentro do box, vem uma réplica em miniatura do batmóvel (da marca HotWheels), além de um livro de fotografias extraídas do arquivo pessoal de Adam West, 44 trading cards e um guia de episódios com sinopse, mais fotos e uma carta assinada pelo ator.

Moldura com foto de Batman (Adam West) autografada e com dedicatória a mim.

 

Foto emoldurada da Mulher-Gato da cult-série Batman da TV (Julie Newmar), com autógrafo e dedicatória ao colunista Jorge Ventura

No conteúdo extra, uma explanação sobre as memorabilias derivadas da cult-série, um bate-papo com o ator e seus amigos, um documentário e entrevistas com atores e produtores. Por sorte, a dublagem oficial brasileira (AIC-São Paulo) foi mantida. No Brasil, para frustração dos fãs, saiu apenas o box com DVDs. Mesmo sem o acabamento desejado, a caixa promo veio com uma camiseta estampada com o símbolo do Batman como brinde.

Quem acompanha meu trabalho como memorialista e crítico de TV, sabe o que esta cult-série representa para mim. Tive, inclusive, a oportunidade de dedicar uma pesquisa rigorosa sobre o referido programa a partir de uma monografia desenvolvida por mim, “A força da marca Batman e sua poderosa bat-franquia”, no curso de pós-graduação de Marketing, que resultou em dois livros emblemáticos no segmento geek: Sock! Pow! Crash! – 40 anos da série Batman da TV (Operagraphica, 2006) e Sock! Pow! Crash! 2 – A história da cult-série Batman de 66 (CQi, 2017).

Nesses livros, enalteço a figura principal do sucesso da batmania dos sixties, ou seja, o responsável por ter elevado a série à categoria cult: Adam West. O ator-símbolo da criança Jorge Ventura, que, nas brincadeiras de rua, pedalava sua bicicleta cantarolando tã-nã-nã-nã-nã… Batmaaan! Na visão dos adultos, a cult-série era uma sátira maliciosa. Na visão da criançada, uma aventura empolgante e inocente. Inocência tamanha que me levou a ser resgatado por bombeiros, quando eu e meu irmão mais novo, fantasiados como a Dupla Dinâmica, tentávamos descer pela bat-corda improvisada, de um prédio de dois andares, situado na vila onde morávamos. Conclusão: levei uma surra memorável dos meus pais, mas isso é outra história.

Apesar de nunca ter apresentado muitos recursos de interpretação e de ter sido considerado um canastrão de primeira grandeza, West não precisava de muito desempenho, pois seu talento estava no charme e no carisma que havia emprestado ao Cruzado Embuçado e ao seu alter ego, o milionário Bruce Wayne.

Em 9 de junho de 2017, a notícia do falecimento de Adam West em muito me impactou. Mal conseguia atender às ligações e acompanhar as notas pela internet. Ele faleceu em Los Angeles, aos 88 anos, cercado de sua família, a esposa Marcelle, os seis filhos, os cinco netos e os dois bisnetos. Infelizmente, o ator perdeu a batalha para o seu maior vilão: a leucemia. A família se mostrou discreta, preferiu não divulgar à imprensa a doença e o seu estado de saúde, nos últimos meses, para não gerar preocupação e tristeza aos fãs.

Na ocasião, como uma homenagem póstuma, fiz uma trova, publicada no meu segundo livro, Sock! Pow! Crash! 2 – A história da cult-série Batman de 66, que dizia:

Uma estrela na lembrança

Assinou no azul-celeste

Aos olhos do eu criança

Seu nome é Adam West

Costumava dizer que eu tinha dois pais-heróis, um real e outro, na ficção. West foi, para mim, exemplo de honestidade, lealdade e coragem. Ele me inspirou a ser um homem forte, preparado para combater os “arquivilões” do dia a dia. Que saudade eu tenho dele e da minha infância! Antes de encerrar este artigo, convido vocês todos a lerem o artigo da querida amiga e colega colunista da editoria AC Literatura (Às Quartas), Ana Lúcia Gosling, dedicado ao ator.

Clique na imagem para ler o artigo “Batman: gibi, série, filme. A arte e o prazer de ler papel ou tela” de Ana Lúcia Gosling

 

Que tal voltar um pouco mais nesse túnel do tempo? Vamos confirar alguns trechos inesquecíveis da icônica série de 1966:

 

 

Clique para ver um trecho de um episódio da série Batman de 66

 

 

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

A primeira pessoa que comentarem a resposta certa no post oficial desse artigo
no Instagram do @artecult
, receberá uma linda camisa AC RETRÔ!

Participe!

 

 

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

6 comments

  • Obrigada pela gentil citação!
    Assistir a trechos da série hoje é tão hilário porque, primeiro, crescemos e perdemos algumas lentes de inocência e segundo porque a estética é bem datada. Mas eu, particularmente, amo isso. O colorido, os recursos…
    Seu artigo leva a série ao momento da sua origem e, por isso, consegue ser tão profundo na análise dos seus elementos: a crítica social, a liberdade sexual, o avanço tecnológico. Muito bom, Jorge! Queria ler seus livros. Ainda há disponíveis?

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  • De fato, os clássicos sempre serão referências na vida dos leitores e espectadores. O personagem Batman foi um dos super-heróis que fizeram parte da minha pré-adolescência, seja nos filmes ou nos desenhos animados. Adorei a coluna sobre um tema tão interessante como esse, principalmente as curiosidades sobre uma série que conquistou muitos. Parabéns!!! Excelente texto!

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