AC RETRÔ: A vila encantada dos anos 1970 e um novo conceito de programação infantil

Por Jorge Ventura

 

Comentei no artigo anterior que, até o início dos anos 1970, o Clube do Capitão Aza liderava a audiência da programação infantil na TV, com larga vantagem em relação a sua concorrente – leia-se a TV Tupi à frente da TV Globo. No entanto, não demorou muito para a Vênus Platinada esboçar uma reação. A equipe do Dr. Roberto Marinho percebeu que, a partir do Clube do Capitão Aza e do Clube do Carequinha (transmitido pelo pool TV Record, de São Paulo, e TV Rio, do Rio de Janeiro), em toda atração voltada para as crianças, deveria haver quadros musicais, trilhas sonoras e jingles marcantes. Mais que isso, deveria apresentar um conteúdo pedagógico, com a função de instruir e entreter ao mesmo tempo.

Foi quando o então diretor da Central Globo de Produções, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (mais conhecido como Boni), e o diretor da TV Cultura de São Paulo, Claudio Petraglia, tiveram a ideia de adaptar Sesame Street, um popular programa infantil dos EUA. Essa parceria, que resultou na exibição de Vila Sésamo (versão brasileira) pelas duas emissoras, trouxe um resultado positivo, uma vez que a TV Globo não dispunha de estúdios para filmar o programa e a TV Cultura tentava emplacar uma atração infantil com esse viés educativo.

Com os direitos adquiridos junto à  Children´s Television Workshop, o roteiro mesclava exercícios de alfabetização com brincadeiras e bom humor. O cenário do programa já encantava: uma vila onde moravam pessoas, bonecos, em meio a letras e números apresentados em desenho animado. Os temas abordados iam desde higiene, boas maneiras até o respeito ao trânsito, à natureza e ao semelhante.

A magia ganhava um colorido a mais com as canções compostas por Nelson Motta em parceria com a dupla Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, irmãos talentosos que assinavam muitos temas para a criançada nos idos de 1970.

“Todo dia é dia, toda hora é hora / De saber que esse mundo é seu/ Se você for amigo e companheiro/ Com alegria e imaginação / Vivendo e sorrindo / Criando e rindo / Será muito feliz e todos / Serão também” – Alegria da vida.

Abertura da Vila Sésamo:

 

Quem não se lembra dessa letra que ficou na memória dos setentistas?

Vila Sésamo estreou numa data bem oportuna: no dia 12 de outubro de 1972, Dia das Crianças. A série infantil fez tanto sucesso que durou até 4 de março de 1977 e, durante esse período, apresentou diversos formatos. Inicialmente, Vila Sésamo era exibido às 10h45 e às 16h, e seu tempo de duração, de meia-hora a uma hora. No entanto, entre 1973 e 1974, a TV Globo assumiu 100% o controle da produção, e o programa foi totalmente nacionalizado, com inovações que deram mais dinamismo.

Os bonecos protagonistas, como o Garibaldo, o Gugu e o Funga-Funga, ganharam uma versão brasileira ao serem confeccionados pelo laureado dramaturgo, cenógrafo e figurinista Naum Alves de Sousa. Novos quadros também foram inseridos com outras temáticas, mas sempre de cunho pedagógico. Os cenários foram ampliados, e o programa, enquanto esteve no ar, ao longo de quase cinco anos, chegou a contar com a presença e participação de cerca de 800 crianças, algumas delas, crianças carentes entre 3 e 10 anos de idade. Os únicos personagens utilizados da série original eram Ênio e Beto, o Come-Come e o sapo Caco (da família Muppet Show), manipulados pelo criador Jim Henson e dublados no Brasil. Os irmãos Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, novamente, triunfaram na composição das belíssimas canções dedicadas a cada boneco protagonista, no caso, o Garibaldo – um pássaro alto, com bico acentuado, desengonçado e cheio de plumas (interpretado por Laerte Morrone) –, o Gugu – um boneco  rabugento, que implicava com o Garibaldo e nunca saía do barril onde morava (interpretado por Roberto Orozco) – , e Funga-Funga (interpretado por Marcos Miranda) – um tamanduá de grande estatura, que mais parecia um elefante, meio esquisito, mas carismático, que ficava triste pelo fato de as pessoas não o virem como um ser “normal”. Porém, era querido pelo Garibaldo e pelas crianças.

Tema do Garibaldo:

 

Tema do Funga-Funga:

 

tema do GUGU:

 

CONFIRA QUEM É QUEM EM VILA SÉSAMO

 

ELENCO DE ESTRELAS

Vila Sésamo contou com um elenco estelar da TV Globo ao longo das três temporadas. Entre eles: Armando Bógus (Juca), Aracy Balabanian (Gabriela), a estreante Sônia Braga (Ana Maria), Flávio Galvão (Antônio), Milton Gonçalves (Professor Leão), Manuel Inocêncio (Seu Almeida), Ayres Pinto (Cuca), Nuno Leal Maia (Pedreiro), Sandra Bréa (Professora de ginástica) e Antônio Abujamra (Diretor).

 

Com um elenco com Armando Bogus (Juca), Aracy Balabanian (Gabriela), Sônia Braga (Ana Maria), Laerte Morrone (Garibaldo), Roberto Orozco (Gugu), Alexandre Moreno (Elmo) Paulo José (Mágico), Manoel Inocêncio (Sem Almeida), Flávio Galvão (Antônio), entre muitos outros, Vila Sésamo marcou época

 

Segundo fontes, os altos custos de produção e o fim do contrato com a emissora norte-americana, infelizmente, foram as causas do encerramento do programa. Contudo, os adultos da minha geração guardam na memória e no coração todos esses personagens, os cenários e canções.

Outro programa que estreou na grade infantil da TV Globo para combater a audiência do Clube do Capitão Aza, da TV Tupi, foi o Globo Cor Especial. A ideia do Boni, o todo-poderoso da Vênus Platinada, era passar um conceito de que as atrações transmitidas pela concorrente faziam parte do passado: os velhos heróis do faroeste e, principalmente, o Batman, da famosa série de 1966. Mais uma vez, o genial Nelson Motta, em parceria com Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, compôs “Cinto de Inutilidades”, uma canção bem-humorada que criticava esses “ídolos ultrapassados”. O tema de abertura, além de reunir uma letra criativa, tinha uma melodia cativante, ancorada por uma animação que ironizava – com intuito de ridicularizar – personagens icônicos, como King-Kong, caubói, índio e Batman. Havia também uma imensa boca sorridente, que de dentro saía um arco-íris vibrante, que reforçava o “mundo novo e colorido” que surgia na TV.

A letra dizia:

“Não existe nada mais antigo/ Do que caubói que dá cem tiros de uma vez/ A vó da gente deve ter saudade/ Do Zing-Pow! Do cinto de inutilidades!/ No nosso mundo tudo é novo e colorido/ Não tem lugar pra essa gente que já era/ Morcego velho, bang-bang de mentira/ Vocês já eram / O nosso papo é alegria”…

Aí entrava o locutor assinando, enquanto um carro de Fórmula 1 em animação passava pela telinha:

No ar… Globo Cor Especial! A máquina quente da TV!

Confira a abertura do GLOBO COR Especial de 1973:

 

 

Globo Cor Especial foi ao ar, pela primeira vez, no dia no dia 2 de abril de 1973, dedicado ao público infantil e infantojuvenil, e se estendeu até 4 de março de 1983. Foi um período em que assistíamos a uma seleção de clássicos, como Ligeirinho, A fábrica de Mickey Mouse, Jackson Five, Laboratório Submarino e Missão Quase Impossível. Numa parceria comercial inovadora, a TV Globo firmou contrato com distribuidoras e os estúdios Hanna-Barbera, tendo comprado um pacote de novos desenhos animados e outros seriados, entre os quais, Mary Tyler Moore, Dick Van Dike, Família Dó-Ré-Mi, Goober e os Caçadores de Fantasmas, Grande Polegar: Detetive Particular, Charlie Chan, Hong Kong Fu, Os Muzzarelas, O Vale dos Dinossauros, Butch Cassidy e os Sundance Kids, Speed Buggy e Devlin, o motoqueiro.

Com o fim do programa Clube do Capitão Aza, em 1979, e o fechamento da TV Tupi, em 1980, Globo Cor Especial se tornou referência da atração infantil vespertina.

Curiosidades extras: 

1) Vila Sésamo reuniu mais artistas badalados que qualquer Lollapalooza! Confira o link abaixo:

A banda REM na Vila Sesamo. Clique AQUI para ver os artistas que passaram por Vila Sésamo

2) Veja quando quiser um programa completo na TV Cultura da Vila Sésamo de … 1972!

Ah, tempos bons! Quem se lembra?

 

*  Todas as imagens (fotos e vídeos) respeitam os seus respectivos direitos autorais e são utilizados aqui apenas para efeito de pesquisa e resenha jornalística.

 

Quiz :

E para fechar por hoje o baú de memórias, deixo aqui um quiz cuja resposta será publicada no próximo artigo. Ah, os três primeiros que comentarem a resposta certa no post oficial desse artigo no Instagram do @artecult, receberão brindes especiais. Participe!

Corra e comente a resposta certa no post desse artigo no Instagram do @artecult.
(imagem abaixo) Participe!! Clique AQUI para acessar o post oficial desse artigo.

SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.

Instagram @jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ

Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️

Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.

Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨

 

 

Author

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ. E, agora vocês já sabem... Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman. Instagram @jorgeventura4758

6 comments

  • Perdidos no Espaço….

    Perigo…perigo…kkkkk amava o robô
    Parabéns pela matéria…muitas saudades

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  • Não tenho lembranças dos episódios por intercorrências de épocas, mas já ouvi sobre a Vila Sésamo e agora , depois de ler o artigo, senti vontade de conhecer sobre o episódios desse seriado e de outros aqui descrito. Seriados, de uma maneira geral, fertilizam nossa mente. Parabéns pela coluna.

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  • Sempre trazendo um ótimo conteúdo nostálgico. Fiquei curiosa para conhecer os episódios do seriado Vila Sésamo. Parabéns pela coluna!

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  • Que trabalho primoroso! Parabéns, Jorge Ventura! Acredito que Vila Sésamo tenha sido um dos desenhos de maior audiência entre as criança e até mesmo os adultos. O seu colorido e as músicas encantava a todos.

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