
Coluna de Márcio Calixto

A vaga preferida no condomínio
– Márcio, por que você sempre para aqui? A vaga é péssima.
Mal sabe ela, minha digníssima esposa, o motivo pelo qual estaciono nosso carro na vaga de sempre. Em nosso condomínio, em função de escolhas modernas, sobram vagas. Hoje, muitos não têm mais carros. O antigo fetiche da classe média não é mais tão desejado assim. Sobram boas vagas pelo prédio. Só que não estaciono tão próximo assim de onde moramos, lá no bloco 1, o primeiro do condomínio. Estaciono no prédio destinado à sobra de carros, distante, perto da área de recreação, longe mesmo de para onde temos de ir.
Meu carro é enorme. Uma SUV tradicional de 2010, puro suco de gastança de gasolina e de tamanho. Típica lasanha ou Restinho de Rico. Uma clássica norte-americana Jeep Cherokee, profundamente confortável e ultrapassada, isso se levando em consideração os atuais carros elétricos, tecnológicos e econômicos. Minha filha e minha esposa são afeitas às modernidades. Eu tenho um Fusca 72, uma dafra Kansas 2014, essa Cherokee 2010. Sou afeito às velharias. Eu mesmo já posso ser considerado uma velharia.
Ao estacionar, em um lugar distante, o carro fica sozinho, isolado. Não há mais nada nem ninguém. Temos de andar pelo condomínio. É dali que sinto o cheiro dos eucaliptos, do terreno que tem atrás do prédio. Se eu estacionar nas vagas que há logo na entrada, eu me pouparia dos eucaliptos.
De noite, logo depois de um dia de trabalho, aquele perfume é um abraço. A área de paisagismo do prédio é maravilhosa, do nada vem o cheiro dos eucaliptos, que me move à lentidão necessária para arrefecer antes de se chegar à casa. Desço-me de mim e me refaço.
Ter esse perfume, depois de qualquer dia, é uma felicidade particular. A vaga não é ruim, não é distante. Ela desapressa, devaneia, diminui, divaga. Fecho os olhos por segundos. O perfume se torna sublime. Ali está o princípio do lar.
Em um outro momento, conversando com um vizinho, o que anda com vários cachorros, entre eles uma Rotweiller agitadíssima e feliz, que me pula sempre que me vê, me lambe e corre querendo que eu corra junto, disse-lhe que já morara no interior do Rio, em Araruama, e que vendi tudo para ir morar onde agora moramos. Ele disse ser desejoso do caminho inverso, quer uma casa no interior, morar sozinho, em um espaço onde ele possa colher e cuidar da horta. Eu, que já vivera esse mundo, expus a trabalheira que é. Algo que hoje não tenho mais. Posso apenas reclamar no grupo do zap do condomínio se as plantas não estão do jeito de que gosto, se a piscina parece suja. Mal sabem, reclamo por balela, lá estão os eucaliptos que tanto me adoçam o olfato. A jardinagem é sempre agradável. A vaga em que paro de alguma maneira estará à minha espera.
O interior que hoje tenho é o meu. Não deixa de ser um fugere urbem tão ao gosto dos árcades, que também se imaginavam gregos estando em suas escrivaninhas em Minas Gerais.
Ainda urbana, minha rua se deleita em algum silêncio, por vezes cortado pelo jogo de futebol que acontece às terças no convento ao lado. Sim, o prédio é vizinho a um convento. Théo, o meu mais novo, às vezes vai ao convento, com sua patinete, e brinca. Sofia, quando bem criança, abria a casa de Araruama toda, passeava com seu velotrol o dia inteiro. Arthur o fez na casa do avô. Nesse processo peculiar de memória e significação, hoje caminho o perfume dos eucaliptos.
Da acidez efusiva da gasolina, do calor rítmico do asfalto ao silêncio calcinante do motor, a vaga distante, o perfume dos eucaliptos. Minha esposa reclama. Meus filhos não querem andar o tanto que andarão. O perfume. Peço que apreciem o perfume…
– Pai, bora logo, quero ir no banheiro!
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


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