A PRINCESA E A ERVILHA

Imagem retirada de CGSociety

A PRINCESA E A ERVILHA

 

Uma das histórias que eu mais gostava de ler quando era pequena era “A princesa e a ervilha”, de Hans Christian Andersen, pela singeleza e autenticidade como era contada (e recontada) num livrinho bem pequeno que meu pai me deu. Eu desprezava o texto em francês que eu não conseguia ler, mas conhecia palavra a palavra, fitava as gravuras quase saltando para dentro delas, percorrendo os passos da princesa, que chegava encharcada ao palácio do príncipe que só queria se casar com uma “princesa de verdade”.

Hans Christian Andersen em 1869. Foto: Thora Hallager / museum.odense.dk

Esse destaque para a princesa de “verdade” me angustiava, mas eu sabia que a princesa era autêntica, porém ela estava toda molhada e descabelada, sem parecer princesa de jeito nenhum. A rainha teve, então, uma grande ideia: pôs uma ervilha debaixo da pilha de colchões que fez para a princesa dormir. Se ela realmente fosse uma princesa, saberia que a ervilha estava ali. Mas, como?
Na manhã seguinte (e a história acabava rápido), tudo foi resolvido: ao ser perguntada como tinha dormido, a princesa respondeu que muito mal, pois passara a noite toda incomodada com algo debaixo dos colchões. Era a ervilha! Então o príncipe soube que estava diante de uma princesa de verdade, e pôde pedi-la em casamento.

Hans Christian Andersen conta esta história em apenas uma página de livro, mas eu repassei o conto mil vezes na minha cabeça quando era criança e nunca entendi por que nunca tinha sido publicado no Brasil. Recentemente, eu soube que sim, mas ainda nunca vi. Perguntei a amigos editores e eles desconheciam.

Há uma edição francesa com imagens lindas que quero comprar para publicar, mas não é a mesma, é uma adaptação, mas eu não resisti às imagens… Ainda estou na fila de espera para conseguir os não sei quantos mil euros para comprar a edição, traduzido por Astrid Cabral (ela já traduziu o livro, mas eu ainda não publiquei).

Para ser editor, é preciso ter muito dinheiro para bancar todos os sonhos e transformá-los em livros de verdade. Fim da história.

Primavera de 2025

Thereza Christina Rocque da Motta

 

 

 

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

One comment

  • Que lindo, Thereza. Lembro com doçura dos contos de fadas e fábulas da infância. Foram a porta de entrada pro gostar de ler e, às vezes, pro aprendizado de vida. Que você consiga realizar o sonho de publicá-lo.

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