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Ilustração ArteCult/DALL.e
Está tudo feliz e espetacular. Espera, é claro que tenho medo de que alguma coisa desande, mas ignoro a fragilidade do mundo, do meu mundo, do mundo dos outros. De mulher forte e frágil já basta eu. Sigo trabalhando com energia, visto calça pantalona jeans com fiapos fugindo em ordem equilibrada porque gosto, sem calcinha, sem sutiã, livre. Faz sol lá fora, o céu está claro, de noite a lua é cheia, os filhos estudam, tiram notas ótimas, depois vão pra quadra jogar bola que nem eu brincava descalça de queimada nas ruas lá de Miguel Couto assim que cheguei no Rio, voltam ralados que nem eu voltava quando morei em Vilar dos Teles, vão tomar banho sem precisar mandar, até escovam bem os dentes, o esposo promovido no trabalho, reconhecido pela competência, a casa está limpa, conseguimos manter e se a mamãe ainda viva fosse ficaria orgulhosa. Temos comida bem temperada, até fiz um tiquinho de chuchito ontem, com alho e cebola também, comida da minha terra que as amigas adoram quando faço, elas que me chamam de Teca por isso, derivação de guatemalteca, adoram essa palavra, mas adoram mesmo eu sendo brasileira nascida no Mato Grosso, filha de guatemalteca com brasileiro. A calcinha tá marcando? Pergunto pro espelho. Me sinto magra e poderia correr maratona, estou de folga, ajeito minha calça de novo e meu cabelo que todo mundo fala que é grande e lindo, gosto de ouvir. Tenho tempo para olhar o céu de cada boca sorridente que vejo do portão.
Graças a Deus nenhum homem babaca mexeu comigo, entro pra assistir algo, procuro programas de esporte, a quem eu quero enganar? Meu pau de laranjeira nem quebrou, nem o algodão acabou. Passo por programa de debate sobre gênero, concordo com quase tudo, depois vejo notícias pesadas, acabo na internet assistindo qualquer coisa do Caribe. Ninguém em casa. Abraço a almofada que tem escrito que amo a Baixada, mas amo? Amo mesmo? Ou só digo que amo? Amo sim.
Parece que começa a chover muito forte, mas não chove nada, nem é mês de março, está calor e a tempestade começa a vir no horizonte de dentro, cerceando os montes ao longe, sem perfume, anunciando que vem bem aqui na minha alma, vai chover no íntimo com direito a raios e trovões, não sei se resistirei. Abraço mais forte a almofada, estou no quarto, parece um parto. Tudo é muito confortável, não deveria estar me incomodando. Esse tipo de coisa é muito maior que nós. Me questiono: quem sou eu pra estar feliz? Que vida é essa que levo com tanta gente na merda? O que faço de bom pro mundo? Meus filhos tem orgulho da mãe? Ser concursada me conforta por que? Sou muito egoísta, não sou? Mamãe morreu de infecção urinária e eu não poderia ter tido dinheiro pra ajudar? Eu tinha dinheiro? Por que tudo é dinheiro nessa vida? E esse culote crescendo? Dedico tempo demais com tanta gente que não ligo no trabalho e vi que tudo está errado. Até a porcaria do chuchito não é igual ao da minha mãe e eu quero aquele, mas ela não volta. O aluguel mesmo que é pesado, está em dia, mas e amanhã? Se eu for exonerada, o que farei da vida? E se surgir uma catástrofe? E se eu for uma catástrofe? Se está tudo bem, por que está tudo mal? Me vem uma tristeza que não sei de onde, é uma vontade de chorar muito mais forte que eu porque eu já adorei mais a vida. Hoje pouco ou nada adoro dela. Me sinto perturbada por troços, pela minha cabeça que dói uma dor que remédio não cura, que chá não sara, que palavra não cuida. Se eu me perturbo o tempo todo, imagine se não estou perturbando quem eu amo. Travo no quarto. Tudo fica escuro. Sensação ruim toma conta do corpo. Tenho a cabeça nas mãos. É nessa hora que olho pra cômoda aqui do lado, tem uma faca que usei pra cortar maçã de tarde. As facas parecem muito bonitas e entenda uma coisa: elas também me acham bonita e querem me cortar. Fecho os olhos.
Não sei se dormi. Saí do quarto, a casa é pequena, não quis acender a luz, mas sinto o coração acelerado, um medo crescente, um grito em silêncio. A maçaneta da porta deveria girar, mas não gira. Tiro a calça, a blusa, sento nua no sofá, tudo segue escuro. Parece que algo vai acontecer e quando é assim sempre acontece. Tenho uma angústia aqui. Choro em silêncio. A luz acende, pessoas gritam Surpresa! e eu no susto levanto a mão direita na direção da primeira pessoa que pulou em cima de mim, depois na direção da segunda pessoa, tudo muito veloz, no instinto que misturava medo e algo primitivo que não sei dizer. Era meu esposo. Era também minha afilhada. A faca estava na minha mão. Lâmina já manchada de rubro. Na parede da frente estava escrito Parabéns, Teca. Nunca fez tanto sentido. Eu, narradora, me confesso. Se nunca me amo, nunca amarei ninguém.