O Bruxo do Cosme Velho e a Arte da Medicina

 

Na literatura, alguns temas nunca saem de moda.

Foi o que Shakespeare fez sobre o amor, na França do século XVI. Ou Cervantes, sobre a fantasia, durante o século XVII na Espanha. Mas para nós, no Brasil, o primeiro nome que vem à mente é Machado de Assis.

O autor (Bruxo do Cosme Velho, para os íntimos) escreveu romances, contos, crônicas e ensaios na segunda metade do século XIX – mas que até hoje são lidos como um retrato do Brasil. E, entendendo que não teria como reduzir toda essa obra a um livro só, nós organizamos este livro seguindo a moda: por tema.

A coleção “Machado de Assis: contos da medicina” (autoria Machado de Assis, com estudo crítico de André Nogueira, Fino Traço Editora) surge como uma nova organização dos textos de Machado. E esperamos que, dessa forma, possamos despertar novas leituras daquele que ressignificou a literatura brasileira.

Houve um tempo em que o destino de Machado de Assis era ser esquecido pelas novas gerações. Carlos Drummond de Andrade, autor dessa previsão, escreverá, depois – como ato de reconciliação –, o poema “A um bruxo, com amor”: prova de que mudaram as gerações, mas a obra machadiana, dando corpo ao seu potencial de interpretação, permaneceu – e permanece ainda. A obra machadiana é, nesse sentido, como um “tecido invisível” em que “se pode bordar tudo” e “se pode bordar nada”: o nada em cima do invisível (é assim que Machado descreve o “tempo” em Esaú e Jacó). Não será esse um modo de nomear a ficção? A ficção como uma trama de textos que, simultaneamente, diz tudo e não diz nada: forma ambígua e enigmática.

Como diria Drummond:

“outros leram da vida um capítulo, tu [“bruxo alusivo e zombeteiro”] leste o livro inteiro”. Ao leitor, cabe a tarefa de fazer girar em si a potência suscitada por “tantos enigmas”.

Este Machado de Assis – contos sobre medicina, organizado por André Nogueira, dá mais um grande e belo nó nessa trama de leituras: recortar entre os mais de 200 contos aqueles sobre a medicina é como bordar uma forma que apenas se insinuava. A medicina, entre a arte e a ciência, é o palco desses relatos. Que esperar dessas histórias? Riso e melancolia? Pode ser que sim. Basta entrar nesse universo para descobrir.

Texto de Wemerson F. Gomes sobre esse lançamento.

 

SERVIÇO

“Machado de Assis: contos da medicina”

 

 

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