
Coluna de Márcio Calixto

Foto: Divulgação
Uma entrega de provas
Levei um filho para ir trabalhar comigo. Feriado na escola dele, que mora em outro município, não quis outra coisa:
– Pai, quero ir no trabalho contigo.
Seria algo simples mesmo, entrega de provas, debater o gabarito, analisar possíveis erros, coisa bem tranquila. Pedi para que ele entregasse as provas para mim. Ainda na letra A, quando um problema de caligrafia o levou a falar errado o nome de uma aluna, aconteceu a questão:
– Ana Caralha.
Silêncio.
Arregalei os olhos. Ele repete. Algumas risadas surgem. Meu pequeno não entendeu – e entendeu ao mesmo tempo, a forma como repetiu o palavrão ao invés de acertar o nome da aluna expôs seu breve desejo à piada.
Peguei a prova. Li o nome. Realmente, parecia Caralha. Mas era Carolina, a posição exótica do i, em seu volume, perto do n, deu sim a impressão de ser um h. Li com calma. Não queria constrangimento, a sala de aula hoje é perversa e perigosa, precisamos estar atentos a tudo. Sempre.
Pedi desculpa à aluna. Ela a aceitou bem. Não seria um problema. Ela mesma reconhece o problema gerado por sua caligrafia apressada. Sei o que é o problema de uma caligrafia apressada. Um dos custos da digitação de minhas crônicas às vezes se dá em entender o que escrevo. Caos particular e preciosístico.
Ao receber a prova e sentar, alguns de seus colegas concordam, parecia realmente que estava escrito caralha.
Pronto. Virou mais um dos folclores que seguirão com minha carreira.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


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