Duas mulheres encantadoras que praticavam o encantamento na TV
Por Jorge Ventura
Houve um tempo em que a opinião pública se dividia e se posicionava de maneira polêmica no Brasil – talvez menos radical do que nos dias de hoje com a polarização ideológica e política –, contudo, gerava discussões calorosas e acirradas. Tudo era motivo para discordância, não obstante as torcidas rivais de times de futebol e de escolas de samba. Muitas vezes, o ponto de divergência era sobre coisas sem relevância alguma para a transformação social, como a preferência por uma marca de cerveja, uma fabricante de automóveis ou a de um eletrodoméstico. Afinal, a concorrência sempre foi livre, e as propagandas sabem bem disso.
A disputa pelo gosto pessoal atingia vários segmentos, personalidades e celebridades nacionais. Por exemplo, havia quem preferisse o programa do Chacrinha ao do Silvio Santos e vice-versa; o Nelson Piquet ao Ayrton Senna e vice-versa; o Jô Soares ao Chico Anysio e vice-versa, a série A Feiticeira à Jeannie é um Gênio e vice-versa. Eu sou daqueles poucos que amavam as duas séries, por conseguinte, as duas belas protagonistas, as duas mulheres encantadoras que praticavam o encantamento na TV nos anos 1960. Quer dizer, não posso negar que tinha uma “quedinha” a mais pela Jeannie, ou melhor, pela atriz Barbara Eden, o meu primeiro crush! Não que eu não achasse a atriz de A Feiticeira, Elizabeth Montgomery interessante, mas a Barbara… Ah, a Barbara tinha um “quê” especial. Provavelmente, fosse sua roupa de odalisca que despertasse “algo mais” numa criança como eu, que ainda não compreendia os artifícios do sex-appeal.
O fato é que o gênio Jeannie e a feiticeira Samantha mexiam com o imaginário masculino, cativando jovens e adultos, embora as séries fossem categorizadas como “comédias de família”. As meninas da minha geração costumavam imitar o passe mágico das duas. Samantha, a feiticeira, fazia um movimento rápido com o nariz. Segundo fontes, o diretor da série, William Asher – casado, na época, com Elizabeth Montgomery – foi quem percebeu este, digamos, ligeiro cacoete da atriz em momentos de tensão e irritação, e a aconselhou a usá-lo nas cenas de feitiço, sendo pontuado por um efeito sonoro instrumental característico. Já a Jeannie fazia a magia acontecer de maneira diferente. Ela erguia os braços e os cruzava na altura dos seios, fazendo uma espécie de ponte. Em seguida, ela dava uma breve piscada de olhos, enquanto balançava a cabeça, sendo acompanhada também por um efeito sonoro.
A Feiticeira (Bewitched) estreou na TV norte-americana ABC, em 17 de setembro de 1964, e até 1972 foram transmitidos 254 episódios inéditos, em oito temporadas. Do elenco principal, além da protagonista e da atriz Agnes Moorehead (Endora, mãe da Samantha), os atores Dick York e Dick Sargent interpretaram o papel de Darrin Stephens (na dublagem brasileira, o nome foi trocado por James Stephens, no caso, para facilitar a pronúncia). Dick Sargent, o segundo James, desde o início, era o ator preferido dos produtores, mas estava indisponível na ocasião, então, Dick York acabou assumindo o papel – na minha opinião, o “James” mais engraçado.
York, infelizmente, teve de se afastar da série por problemas de saúde. Em 1959, quando participava das filmagens de Eles vieram para Cordura, também traduzido como Heróis de barro (They came to Cordura, de 1959, estrelado por Gary Cooper e Rita Hayworth), sofreu um grave acidente que comprometeu sua coluna. As dores da antiga lesão voltaram a incomodá-lo durante a série A Feiticeira e, em 1969, ele chegou a desmaiar no set de gravação. A partir da sexta temporada, o ator foi substituído por Dick Sargent, que atuou como James até o fim da série, em 1972.
Sargent fez um “James” um pouco mais contido, sem muitas expressões faciais ou caricatas como York, mas conseguiu dar conta do recado. Na vida real, seu papel mais significativo foi na defesa dos gays. Anos depois do fim da série, o ator assumiu publicamente sua homossexualidade e lutou pelos direitos LGBTQIA+, chegando a se tornar um dos marechais da Parada do Orgulho Gay de Los Angeles, em 1992, com o apoio da sua amiga e parceira de trabalho, Elizabeth Montgomery,
A Feiticeira foi um marco de audiência e de popularidade nos Estados Unidos. O enredo contava a história de uma mulher nascida e criada numa família de feiticeiros, que, ao se casar com um homem normal, um publicitário honesto e trabalhador, se portava como uma típica dona de casa, que cuidava do marido, dos filhos e dos afazeres domésticos, qual o modelo padrão da “mulher do lar” dos anos 1960. A série, por meio de humor e comédia, fazia uma crítica ao papel da mulher na sociedade naqueles idos marcados pelo crescente feminismo na terra do Tio Sam. A Feiticeira tecia também críticas sociais relativas àquele período de grandes transformações sociais.
James, que trabalhava na agência de publicidade McMann & Tate, era alvo de reclamações do chefe, em razão dos atrasos na elaboração de campanhas a seus clientes ou de um planejamento para novos negócios – sei não, será que foi essa série que me despertou o interesse de ser um publicitário? Será que eu imaginava casar com uma bela feiticeira? Vá entender, prezado(a) leitor(a).
O marido James, invariavelmente, não concordava com os métodos de feitiço usados por Samantha, sua mulher, e preferia, ele próprio, encontrar uma solução para os seus problemas. Exemplo de marido dedicado à família, James bem que tentava levar uma vida comum e convencer Samantha a evitar o emprego de seus poderes mágicos. Mesmo pressionado pelo chefe, jamais buscava ajuda da sua íntima bruxa.
Samantha, fiel a sua origem, era mais prática e sempre tentava usar os seus poderes para facilitar a vida do casal. Em nome do amor e para não contrariar o marido, ela fingia não se comportar como uma bruxa. Esse conflito era o grande dilema que envolvia o casal e a família em diversas situações embaraçosas, desafiadoras e engraçadas.
A tensão na família aumentava quando Endora – interpretada magistralmente por Agnes Moorehead – implicava com o genro James, a quem tratava com desprezo pelo simples fato de ele não ser bruxo. Os personagens Samantha e James, ao longo da série, tiveram dois filhos: Adam, o filho mortal, que puxou ao pai, e Tabhita (na dublagem brasileira, Tábata), que nasceu bruxinha, puxando à mãe. Para efeito de curiosidade, houve sete atrizes mirins que interpretaram Tábata. Cynthia Black fez a personagem recém-nascida em sua estreia em 1966. Depois, vieram as primeiras gêmeas Heidi e Laura Gentry, que se revezaram no papel da Tábata bebê na segunda temporada. Tamar e Julie Young foram as gêmeas substitutas na mesma temporada. Em seguida, entraram outras gêmeas, Erin e Diane Murphy, na terceira temporada. Como Erin foi ficando com as feições diferentes da loirinha Tábata, Diane permaneceu até o fim da série, atuando em 103 episódios. Esse rodízio era obrigatório devido à carga excessiva de horas de gravação e, como nos EUA, as leis eram rígidas para o trabalho audiovisual com crianças, foi essa a alternativa encontrada pela produção.
Mais um detalhe curioso: os pais de Samantha eram separados e viviam às turras, trocando farpas, ofensas e feitiços. Para a época, foi uma ousadia tratar a relação deles numa comédia de família na TV. Destaque especial para o ator Maurice Evans, que interpretou o bruxo Maurice (por coincidência, seu homônimo), o pai “gente boa” de Samantha. Seu personagem tinha um “ar de intelectual”, portanto, adorava recitar versos e fazer citações de Shakespeare. Evans ganhou a imagem de um bruxo culto e carismático. Acabou sendo chamado em 1967 para interpretar o vilão O Enigmista (Puzzler), nos episódios 65 e 66 da série Batman da TV. Roman Polanski o convidou para encarnar Edward “Hutch” Hutchins, amigo do casal Woodhouse, em O Bebê de Rosemary (Rosemary´s Baby, 1968). Porém, foi como Dr. Zaius da saga O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 1968) que Evans se consagrou.
Em A Feiticeira, o dia a dia do casal era partilhado com outros personagens hilários, como a tia Clara; a Esmeralda, a babá esquecida da criança Tábata; Gladys Kravitz, a vizinha bisbilhoteira; e Abner, seu marido distraído. Outra personagem interessante era Serena, a prima rebelde e espevitada de Samantha, na verdade, interpretada pela própria Elizabeth Montgomery, que usava uma peruca de cabelo preto e curto e arrumava muita confusão para o casal. Montgomery, como uma simples brincadeira, assinava nos créditos finais o pseudônimo Pandora Spocks no papel de Serena. Completando o elenco, havia ainda os atores David White (Larry Tate, o chefe de James na agência de publicidade) e Paul Lynde (tio Arthur, o tio palhaço de Samantha).
Apesar de a comédia retratar uma personagem “dedicada ao lar’, em fevereiro de 1964, a feminista Betty Friedan, que sempre criticou severamente a forma pela qual as mulheres eram representadas na televisão, escreveu um artigo intitulado “Televisão e Mística” para a revista TV Guide, em que considerava a série uma crítica suave e inteligente sobre o entediante trabalho doméstico relegado às chamadas donas de casa, e que subvertia os estereótipos culturais sobre feitiçaria, propaganda e consumismo.
Ao longo das oito temporadas, A Feiticeira foi indicada aos prêmios mais significativos da TV, entre eles, quatro Globos de Ouro e 22 Prêmios Emmy. A honraria mais memorável foi a conquista do prêmio de melhor atriz coadjuvante em comédia por Marion Lorne, por sua performance como tia Clara. Lorne, entretanto, faleceu 10 dias antes da cerimônia. Elizabeth Montgomery recebeu o prêmio em nome da parceira profissional.
O sucesso da trama de A Feiticeira se limitou ao período de transmissão e de suas inúmeras reprises até hoje pelas TVs do mundo. Porém, tanto seu spin-off (com a série Tabhita, a filha de Samantha, protagonizada por Lisa Hartman, com apenas 13 episódios exibidos entre 1977 e 1978), quanto seu filme-tributo A Feiticeira (Bewitched, de 2005, dirigido por Nora Ephron, com Nicole Kidman e Will Ferrell) não obtiveram êxito, sendo, respectivamente, fracassos de audiência na TV e de bilheteria nos cinemas.
Maldição ou não, a obra criada pelo roteirista e produtor Sol Sacks – segundo ele, inspirada nos filmes Casei-me com uma feiticeira (I married a Witch, 1942) e Sortilégio de amor (Bell, Book and Candle, 1958, com James Stewart, Kim Novak e Jack Lemmon) – parece ter ficada encantada numa espécie de poção mágica exclusiva. E, na memória dos fãs sessentistas e setentistas, a trilha sonora da série A Feiticeira, composta por Warren Barker, que serviu de base para o desenho animado de abertura, desenvolvido pelo designer Ed Benedict, nos estúdios Hanna-Barbera, marcou nossa infância.
Confira a galeria de imagens de A FEITICEIRA:
Porém, nada comparado com o sucesso da trilha de abertura de Jeannie é um Gênio, provavelmente, o tema mais sampleado dos seriados antigos. Aqui, em 1996, para efeito de registro, nas rádios brasileiras, foi tocado até como sample na música “Tanajura”, do álbum Nosso Ninho, gravado pelo grupo de pagode Negritude Júnior. Essa melodia instrumental, a mais marcante que ficou famosa, foi composta pelo maestro Hugo Montenegro, a partir da segunda temporada. A melodia chegou a ganhar letra assinada por Buddy Kaye, da terceira à última temporada, mas que nunca foi utilizada. A primeira temporada, ainda em preto e branco, era outra música, assinada por Richard Wess, que não vingou. A produção animada com a caricatura da atriz Barbara Eden como Jeannie, foi, desde o primeiro ano da série, de responsabilidade dos estúdios DePatie-Freleng Enterprises, a mesma que produziu os desenhos da Pantera Cor de Rosa.
Mais um dado interessante: Jeannie é um Gênio foi criado e produzido por Sidney Sheldon, escritor que ficou muito conhecido pelos seus livros best-sellers, como O Outro lado da meia-noite (1972) e O reverso da medalha (1982). Sheldon também criou outro seriado de sucesso na TV: O casal 20 (Hart to Hart, 1979-1984, com Stefanie Powers e Robert Wagner). Ele dizia que, em seus enredos, tanto nos livros quanto para TV ou teatro, a figura feminina era enaltecida, pois gostava de escrever sobre mulheres talentosas, fortes e capazes, que mantêm seu maior poder: a feminilidade.
Produzida para combater a audiência da emissora concorrente – que exibia A Feiticeira – a NBC estreou Jeannie é um Gênio em 18 de setembro de 1965 e transmitiu episódios inéditos do programa até 26 de maio de 1970. Foram, ao todo, cinco temporadas, 139 episódios, e a série contou com um elenco de peso. Além de Barbara como Jeannie Nelson (que também fazia outro gênio, a irmã malvada, de mesmo nome, Jeannie, porém, de cabelo preto, bem ao estilo de Serena, prima da Samantha de A Feiticeira), Larry Hagman (major Anthony Nelson), Bill Daily (major Roger Healey), Hayden Rorke (dr. Bellows), Emmaline Henry (Amanda Bellows), Barton MacLaine (general Peterson) e Vinton Hayworth (general Shaeffer).
No enredo, o major Nelson (então, capitão), astronauta a serviço da Força Aérea Americana, em uma missão especial para a NASA, acompanha sua nave cair acidentalmente numa ilha deserta, onde encontra uma garrafa diferente e misteriosa. Ao abri-la, acaba por libertar a bela Jeannie, um gênio de 2.000 anos, com poderes mágicos e que passa a chamá-lo de “amo”, demonstrando paixão à primeira vista, jurando, tal qual o gênio da lâmpada, ser sua serviçal. Jeannie passa a seguir Anthony Nelson e a tumultuar sua vida, envolvendo-o em várias situações complicadas. O atrapalhado major Healey, amigo próximo de Nelson, descobre os poderes mágicos de Jeannie e tenta de todas as formas conquistá-la, embora sem êxito. Por fim, desiste de suas investidas, guarda o segredo e mantém-se fiel a Nelson. A participação do dr. Bellows na trama é outro ponto alto. Psiquiatra e militar da aeronáutica, também, a serviço da NASA, desconfia de Nelson e procura descobrir por que coisas estranhas sempre acontecem quando ele está por perto. Muitas vezes, dr. Belows pensa estar delirando e precisando de umas férias. Apesar dos momentos embaraçosos e enrascadas provocadas sem querer por seu gênio, sem contar a intromissão de parentes, amigos e até animais de estimação, como Djinn Djinn, o cão invisível de Jeannie, que odeia uniformes e fardas, o major Nelson se rende ao amor e a todo o seu encantamento, levando-o a se casar com Jeannie – o que, para muitos fãs, foi o que perdeu a graça e resultou no fim da série.
Confira a galeria de imagens de JEANNIE É UM GÊNIO:
Em 1973, numa parceria entre a Screen Gems e a Hanna-Barbera, Jeannie é um Gênio virou uma animação com novos personagens, como o gênio amalucado Babu (dublado, originalmente, pelo comediante Joe Besser, conhecido como um dos Três Patetas). O elenco de dubladores reuniu ainda Julie McWhirter-Dees, na voz de Jeannie, e Mark Hamill (que havia atuado na saga Guerra nas Estrelas) na voz de Corry Anders.
Esta produção não emplacou como se esperava e durou apenas 16 episódios. Na verdade, todos amavam ver a bela Barbara Eden no papel da graciosa Jeannie. Os pedidos dos saudosistas foram tantos que ainda houve fôlego para dois longas-metragens: Jeannie é um Gênio – 15 anos depois, de 1985, e Jeannie ainda é um Gênio, de 1991, mas a química do casal parece mesmo que havia terminado, porém permaneceu preservada em nossa memória.
- Jeannie é um Gênio – 15 anos depois, de 1985
- Jeannie ainda é um Gênio, de 1991
Ah, tempo bom! Quem se lembra?
BÔNUS! Veja alguns episódios de A FEITICEIRA e JEANNIE É UM GÊNIO
SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 14 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.
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