
Coluna de Márcio Calixto

Árvore frutífera na janela
Tarde de festa, aniversário de Pedro, amigo professor de matemática. Em um dado momento, meu filho cobra o desejo de brincar. Por ele ter agora uma moto elétrica que muito se assemelha a uma moto comum, ele fica no desejo constante de com ela andar. É de se imaginar, eu mesmo não quero deixar de andar com minha moto. Seguimos até a área onde havia um parquinho, dentro do condomínio do prédio em que se realizava a festa do camarada. Condomínio gostoso, que muito me lembrou parte da infância que passei em prédios na Ilha do Governador. No entanto, quando estávamos brincando, vi um coqueiro bem cuidado, atrás do condomínio, em que a copa dava para uma janela no segundo andar do prédio.
Aquele breve momento, em que pude tirar os olhos de meu filho, observar aquela copa, me fez retornar à casa que tive em Araruama. Houve uma vez que do nada surgiu um mamoeiro debaixo da escada que levava à casa. Para se ter uma noção desse espaço, a casa era feita sobre pilotis, garagem embaixo, um gramado rodeava a casa, desse gramado se caminhava até uma área com um jardinzinho debaixo dessa escada, que levava à varanda e dali se seguia para a casa. Em alguns momentos, tomei café da manhã na varanda. Não sei se dali saiu semente de mamão que ordenhou daquela grama um pé de felicidade. Não demorou muito, pegava mamões sem esforço.
Tornou-se comum eu acordar, abrir a porta e buscar pelo menos dois mamões. Nessa época, era pai apenas de Sofia, que gostava de dividir uma fruta ou outra comigo. Os cachorros que tínhamos, entre eles a Menina e o Rabão, gostavam mesmo das bananas, que já existiam com a casa quando eu a comprei. O mamoeiro não. Aliás, foram alguns mamoeiros que tive. Um atrás da casa. Esse outro de que falo agora à frente. Dele, dividi mamões com minha filha, sua mãe e alguns passarinhos. Ao olhar a copa desse coqueiro em frente a uma janela, pensei o quanto deve ser gostoso ter água de coco direto em sua janela.
Um dia, acordei e o mamoeiro, que já era entortado pela escada, estava todo tombado. Não sei o que o levou a tombar, mas era fato que ele não ficaria de pé para sempre. Até tentei replantá-lo. Ele não suportou. Não soube escorá-lo com precisão. Fiquei, sim, com alguma tristeza pela queda. Querer mantê-lo era, no fim, parte de um desejo egoísta desse alguém que passara a ter sentimento pelo mamoeiro. Desse evento, cheguei a ler sobre como ter uma plantação de mamões, mas a vida de professor impede outros sonhos, sonhos a mais. Quando me separei, a casa ficara enorme e o barulho das ausências deixou tudo agudo. Me tornei um homem de humor obtuso, abstruso, convivendo com meus cachorros quase que de maneira ordinária, dando-lhes pouca atenção, não mais indo à praia, as plantações que sobraram, como os pés de acerola, de banana, de pitanga, de limão e de tangerina estavam alimentando pássaros, gambás e alguns micos. Os micos, infelizmente, às vezes, eram alvos dos cachorros. Os gambás também. Com minha filha morando no Rio, era hora também de me mudar.
Pisco e hoje vejo mais um filho, com dois anos, descendo e subindo um escorrega. Um vento balança a copa daquele coqueiro, algumas de suas frondosas plantas arrastam no vidro, sibilando um carinho e uma saudade de colheita. Meu filho puxa minha mão, ele retorna a sua motinha. Minha filha, a mais velha, segue um retorno à Região dos Lagos, estudando em Macaé. Já não colho mais mamões ou tangerinas. Nem mais tomo caipirinha do meu limoeiro. Tenho constância pela losartana. E se a vida repassa passados, vale observar as colheitas por que passamos.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


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