
Coluna de Márcio Calixto

Por uma nova epifania particular
Quando se é alvo de uma crítica sensível e bem construída, não tem como aquilo não deixar as famosas marcas indeléveis, bem quistas, que comovem. Foi o que senti quando li sobre a chamada que escreveram para um t4xto meu aqui no Artecult. Já disse que o grupo que hoje se firma é de uma beleza só. Cativante. Apaixonante. Não posso deixar passar incólume a seleção vocabular que fizeram e que me levaram a essa autorreflexão sobre o que produzo de literatura.
Primeiro, esse sentimento de estar produzindo literatura. claro, há aqui dois mundos. Dois bons mundos, que se mesclam de desejo e de conquista. Depois, ser lido como escritor. Em seguida, ter palavras que decodificam sua obra. Dessas palavras é que hoje movo o sentimento dessa crônica. Escrever crônica, para mim, é escrever aquilo que está intimamente crônico. Absorvi essa percepção como conhecimento. Tenho agora novo processo. Saber que meu texto desce manso me deixa focado.
Passei a refletir sobre tal ponto. Não tenho escrito trivialidades. Quando leio crônicas do passado, percebo como o desejo de escrevê-las se mesclava com a vontade de bater ponto. Principalmente no aspecto jornalístico. Era preciso escrever. O quanto antes. Burocrático mesmo. Cheguei a refletir sobre esse ponto, qualquer assunto pode ser material para uma crônica? Ainda não sei responder, apesar de já ter escrito sobre tal aqui para esta mesma coluna. Só sei que escreverei manso, para levar a reflexões peculiares e próprias.
Pensei em metáforas. Primeiro, a ideia de uma boa bebida alcoólica, que desce refrescante, levando a olhos que se fecham. Pensei em um bom uísque. Claro que não podia deixar de pensar em um bom charuto. Início manso. Primeiro terço – que é como se fuma um charuto – leve, a descobrir que esplendor é possível no fumo. Segundo terço, sabores, quando a soma da chama e das cinzas em riste expele as suas particularidades. Terceiro terço, o poder da absorção. O fumo e a mente se mesclam. Manso no início. Como disse, amei essa colocação.
Nunca tinha feito uma reflexão sobre minha obra. Vou levar para o coração, como elemento sinérgico do que produzo. Resgato nesse momento o relato de Mark Twain, talvez o maior nome da literatura norte-americana, uma vez afirmou que, enquanto os seus pares escreviam para ser vinho, ele escrevia para ser água. Nesse caso, rebuscamento e simplicidade se chocam. Iniciei me comparando com bebida alcoólica. Charuto. Bem, perdão, Twain, é como se eu não tivesse aprendido nada contigo, mas entenda meu lado, estou no início, já o senhor é um eterno gigante.
Escrevo essa crônica em agradecimento, da sensibilidade de quem escreve essa percepção sobre um conto meu, agora estou eu aqui escrevendo sobre o sentimento daquela palavra, como digo aos meus filhos, sem saber, estava necessitando disso.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

Coluna de Márcio Calixto










