O Terceiro Caderninho

Coluna de Márcio Calixto

O Terceiro Caderninho

 

Comprei o bendito. Bem hoje, quando fui ao shopping, com quase todos os filhos. Os outros caderninhos já estavam plenamente esgotados, não havia mais sequer uma página para poder rabiscar. Nadinha. Essa semana mesmo, precisei rascunhar algumas ideias, teve de ser em folhas soltas, tudo porque eu não tinha o caderninho.

Tê-lo se tornou parte de uma catarse. Colocá-lo no bolso ou mesmo na mochila me faz subir uma ânsia que se escapa da boca de um esfomeado. Ver essas páginas em branco me move ao desejo de rabiscar. Hoje, tendo o caderninho em mãos, canetas também novas, inclusive, pronto, preciso escrever.

Tirei o plástico que o contorna. O cheiro de novo sobe; suas páginas, um certo tom de amarelo traz leveza e ao mesmo tempo inquietação. Preciso escrever. Diferente dos outros dois caderninhos, a sua capa preta não é emborrachada. Aliás, percebo, ao compará-los, que eles não são do mesmo produtor. Esse com capa dura é bom sim. Mas a capa esborrachada dá uma docilidade ao toque. Essa diferença, no entanto, não me move à dúvida da escrita. Eu preciso escrever. É o terceiro caderninho.

Estava na ânsia para poder estrear um novo. Pensei em pegar o caderninho que tenho só para os charutos e escrever o que queria escrever à época. Consegui resistir. Não o peguei. Não arranquei as páginas dedicadas ao sabor fumangeiro. Lá elas estão, só eu as conheço. Não cheguei a mostrar aos meus filhos, esposa ou qualquer outro. Acredito que será por aqui que conhecerão a existência desse mais um bendito.

O caderninho mesmo, eu o guardo depois de cheio. Pensei em jogar fora, mas não. Vai que eu vire escritor de renome e queiram fazer alguma avaliação psicológica de minha persona caligráfica? Já cheguei a ler sobre isso. Há muito tempo. Pela caligrafia é capaz de se saber certos detalhes da psique do indivíduo. No entanto, isso é pseudociência. Porém, vou guardar os caderninhos. Pedro II o fez. Tudo bem, ele foi imperador. Eu nem imperador de mim mesmo sou. Suas 40 cadernetas de viagem hoje são material valioso de uma época. Quando acharam os cadernos de Anne Frank, havia a mesma comoção sobre algo histórico de uma época. Nessas crônicas que rabisco no caderninho, não sou histórico. Até escrevo sobre um detalhe ou outro com apego histórico, de criticismo ao que acontecia no momento. Entretanto, aqui, tenho mais preocupações com o trivial. E aqui está mais uma crônica, dessa vez para inaugurar o terceiro caderninho, que se move a um orgulho próprio. De antemão, obrigado, caderninho.

Espero que você, caro leitor, que um dia leu Machado de Assis dessa maneira, hoje também possa me ler. Meu muito obrigado mesmo.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


Coluna de Márcio Calixto

 

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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