A Mãe Terra grita e o teatro a ouviu

ALUMBRAMENTOS. Ator: Gustavo Vieira. Foto de Laura Rios.

 

Há tantas tragédias ambientais. O mundo pegando fogo. Greta grita de lá e ecoa pelo mundo. Crianças indígenas morrendo devido ao mercúrio nas águas dos rios amazônicos. A terra chora. A mãe-terra, que mata nossa sede, chora. E, claro, o teatro iria chorar com ela.

Um espetáculo que demandou seis anos de pesquisa para tentar compreender um pouco de tudo: o desmonte ambiental, as pessoas que morrem ou são atravessadas pela ganância humana.

Sinopse:

Alumbramentos reúne fragmentos de uma memória estilhaçada: restos de sonhos, vozes e gestos de
uma comunidade ribeirinha atravessada por um desastre ambiental. Como afluentes de um rio,
histórias e personagens surgem, se entrelaçam e se perdem, revelando modos de vida, tradições e
uma íntima relação entre o vilarejo e a natureza.
A peça, dirigida por Erika Rettl, se baseia na linguagem do realismo fantástico e propõe uma reflexão poética sobre a relação entre seres humanos e a natureza, evocando saberes das culturas
tradicionais e os efeitos da exploração ambiental. A dramaturgia, de Fidelys Fraga e Clara Anido, foi construída de forma colaborativa com a participação da diretora e dos atores a partir de uma
inspiração livre no texto ‘Alumbramentos’ da escritora Nathercia Lacerda. Tem uma estrutura
fragmentada e mistura diferentes tempos, criando uma cronologia que se dobra sobre si mesma.

Há tanto a dizer…

Posso afirmar que a montagem carrega uma estética visual deslumbrante. Não há uma escorregada sequer. É uma obra quase imaculada em sua construção visual.

A paleta de cores que atravessa a dramaturgia parece Romeu e Julieta: elementos que se completam. Se por um lado a água virou chama, por outro o barro parece se estender por absolutamente tudo. Nos figurinos, no visagismo, no cenário e nos objetos de cena. O barro, em seu estado líquido, também compõe a narrativa.

O barro levanta poeira ao secar, e lá está ele encontrando a luz. Ele suja roupas, corpos, caminhos — e tudo isso está em cena. Vimos composições aguerridas, imagens que falam.

As casinhas me levaram imediatamente aos ribeirinhos. Que bela representatividade desse povo tão brasileiro. As pequenas casas transformadas em cenário aéreo. Meu Deus, que lindo. Um lustre que me levou às raízes secas de um mangue. Tudo contribuía para uma obra diferenciada.

Achei especialmente interessante o fato de as casas surgirem iluminadas. Sabemos que muitos territórios ainda vivem sem acesso eficiente à energia elétrica. Em comunidades ribeirinhas isoladas, muitas famílias dependem de geradores, lamparinas ou sistemas alternativos de energia solar. Existem, inclusive, projetos como o Litro de Luz, que levam iluminação sustentável a famílias amazônicas.

E no cenário elas chegam iluminadas, justamente para chamar nossa atenção.

A história fala sobre a Cobra Susuana, que vive embaixo do rio Pará, essa imensa lenda amazônica. Ao mesmo tempo, a máscara da onça — nossa grande representante da fauna brasileira — leva a personagem a uma espécie de vertigem.

Tive dúvidas. Conversei com a diretora, que me pareceu muito agarrada aos textos. Tive a sensação de que ela ainda não havia chegado completamente ao fechamento da obra. Mas isso também é bonito, porque quando sabemos, entendemos que não sabemos. E então a conta fecha.

Eu vi o Brasil quando entrei no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro. A iluminação âmbar me chamou profundamente a atenção.

O figurino… outra viagem. Outra beleza a ser contemplada. Tecidos, tingimentos, saias que me levaram ao carimbó. Quando vestida, a atriz realizou uma excelente coreografia. Via-se pesquisa, inúmeras tentativas até que o movimento encontrasse verdade. E encontrou. O quadril muito bem movimentado, o corpo consciente em cena.

Indo à sinopse: não é um espetáculo de entendimento imediato. Mas, quando direcionados, conseguimos compreender os encontros e desencontros da narrativa.

Minha maior dúvida estava entre território, espaço e “assassinato ambiental”. As lamas que mataram, em minha memória, me levaram imediatamente a Mariana e Brumadinho. Foram as imagens que mais me impactaram.

No entanto, a lama nos rios amazônicos também cresce impulsionada pelo garimpo ilegal e pelo descarte inadequado de rejeitos de mineração. Essa poluição contamina ecossistemas inteiros com metais pesados, ameaça diretamente comunidades indígenas e ribeirinhas e destrói modos de vida ancestrais.

E quem nos conta essas histórias?

Dois artistas com vozes aveludadas, nítidas, preparadas para serem ouvidas. Ressalto isso porque percebo o quanto muitos novos artistas chegam à cena sem se preocupar com o preparo vocal. A voz consolida a história, convence, sustenta o teatro. Existem espetáculos em que a vontade é sair da sala. Um verdadeiro show de horrores vocais. Não é o caso aqui.

As expressões faciais e corporais também possuem vigor e domínio técnico. Nada a apontar negativamente entre eles. Nada.

O espetáculo traz ainda a acessibilidade como parte da cena: artistas que se comunicam através da Libras integrados à estética do palco e dos figurinos. Gostei muito disso. Jhonatas Narciso e Ricardo Boaretto, o primeiro assisti no palco do Sesc Tijuca um dia desses, muito bom ator também.
Ambos fizeram um excelente trabalho de acessibilidade.

Finalizo falando sobre urgência. Sobre beleza. Sobre nossa terra, nossa gente, nossa cultura. Sobre um Brasil riquíssimo que não pode continuar sendo esfaqueado e sangrado dessa forma.

Obrigada, Motuara. Obrigada pelo teatro, pela beleza e pela coragem de contar, integralmente, uma história tão triste.

Essa reflexão ecoa o famoso provérbio indígena:

“Somente quando a última árvore for cortada, o último peixe pescado e o último rio envenenado, é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro.”

 

Ficha técnica

Coordenação Geral: Grupo Teatral Moitará
Atores criadores: Gustavo Vieira e Joyce Araújo
Direção: Erika Rettl
Dramaturgia: Fidelys Fraga
Asistente de Dramaturgia: Clara Anido
Consultoria e acessibilidade cultural em Libras e Visual Vernacular:
Jhonatas Narciso e Ricardo Boaretto
Direção e Supervisão Musical: Caio Padilha
Cenografia e figurino: Carlos Alberto Nunes
Iluminação – Desenho de luz: Djalma Amaral
Direção de Produção: Grupo Teatral Moitará – Venício Fonseca
Produção Executiva: Chris Rebello
Intérpretes de Libras Roda de Conversa: Jhonatas Narciso e Lorraine Mayer
Artes visuais criadas para o projeto: Rafael Prado
Programação visual: Gustavo Vieira
Assessoria de Imprensa: Luna Gamez – Ôlivu Entertainment
Mídia digital bilíngue (Libras / português): Aline Gomes da Silva e Jhonatas Narciso
Documentarista audiovisual: Gabo M. Barros.
Fotografia: Laura Rios

 

SERVIÇO

ALUMBRAMENTOS
Data: (sexta a domingo) 22, 23, 24 e 29, 30, 31 de maio de 2026
Horário: (sexta e sábado) 19h / (domingo) 18h30
Local: Teatro III – CCBB Rio de Janeiro
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66, Centro – Rio de Janeiro/RJ
Classificação indicativa: 14 anos
(espetáculo com acessibilidade em Libras)
Ingressos: (sexta e sábado) preços populares R$30 e R$15 (meia-entrada) à venda na bilheteria ou
pelo site bb.com.br/cultura
(domingo – 24 e 31 de maio) ingresso solidário, em troca de 1kg de alimento não perecível,
exclusivamente na bilheteria física do CCBB, a partir das 9h do dia do evento.

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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