

Foto: Divulgação
“Saudades” ainda reverbera em mim.
E talvez eu esteja tentando entender até agora o motivo desta escrita.
Muitas vezes a morte aparece no teatro para crianças. Fala-se dela de formas delicadas, simbólicas, pedagógicas. Mas dessa vez foi diferente. Foi surpreendente.
Quem me conhece sabe: independentemente das minhas poucas relações de amizade e consideração, eu jamais escrevo sobre o que não gosto. E ponto final.
Fulano gostou? Ótimo.
Ciclano odiou? Ótimo também.
Mas eu não sou nenhum deles.
Mesmo entre oficinas, dramaturgias, leituras e anos estudando teatro, sigo funcionando muito pelo instinto. Tenho minhas apostas. E erro pouco.
Quando escrevo, escrevo por paixão. Isso me basta.
“Saudades” é uma montagem que eu indicaria e, ao mesmo tempo, não indicaria. Não lembro de algo ter rompido minha medula em dois quando penso em artes cênicas.
A primeira parte me pareceu uma tremenda confusão. Eu não conseguia me conectar. Olhava aqueles artistas em cena sem saber se eram extraordinários ou apenas caóticos. Sabia que tinham boas vozes, boas expressões faciais, interpretações nada lineares — e isso me interessava —, mas o texto me expulsava o tempo inteiro.
Tudo parecia um caos.
Pensava: isso é para crianças?
Lembrei de um episódio de “Caverna do Dragão”, talvez “Os Meninos Perdidos”. A sensação era exatamente essa. Crianças que brincavam em enterros como se aquilo fosse festa. E quanto mais eu assistia, mais irritada eu ficava.
Todos vestidos de branco.
As crianças de branco.
Uma senhora com um cajado observando tudo.
Música. Muitas músicas ao vivo.
Um artista tocava uma espécie de teclado e um instrumento de sopro que eu sequer sei nomear. Era excelente. Talvez fosse a única coisa de que eu realmente gostava naquele momento.
Então cantaram “Samba Lelê”.
Quase tive uma síncope.
Hoje, a música é atravessada por discussões sobre racismo estrutural e violência. Há quem associe a letra às marcas deixadas pela escravidão no Brasil. Mas ali aquilo parecia não existir. E havia uma menina negra no elenco. Talvez, para eles, tudo aquilo ganhasse outro significado. Talvez eu estivesse olhando para o lugar errado.
Até que um dos meninos vira estrela.
E pensem num giro de 360 graus nas minhas emoções.
As lágrimas vieram como uma represa rompida. E foi ali que entendi tudo o que eu não tinha gostado até então.
Aquelas crianças contavam suas histórias antes de conhecerem a morte de perto.
Meu Deus.
Comecei a me perguntar onde eu havia aprendido o que era morrer. E lembrei.
Claro que, depois daquele dia, aquelas crianças já não brincavam mais nos enterros da mesma maneira. Sentiam saudade do amigo. Das brincadeiras no terreiro enquanto um corpo era velado.
A morte era cantada no palco do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro.
O chão brilhava.
As roupas brilhavam.
Eles já não estavam mais de branco.
Canções francesas ecoavam pelo teatro. Bolas e brincadeiras invadiam a plateia. Tudo se transformava.
E quando parecia acabar, veio o golpe final: a mãe do menino.
Recitando versos sobre a vida. Sobre continuar vivendo apesar da dor.
Que representação brutal das mães que perdem seus filhos. Que humanidade existe em lembrar dessas mulheres.
Mas as palavras da atriz me atravessaram porque eram simples: a vida continua, mesmo diante da dor dilacerante.
Foi aí que conheci a morte.
Aos 13 anos, quando meu irmão partiu.
Virou estrela.
Marco Antonio.
Lembro perfeitamente do dia 21 de outubro de 1987. Lembro da dor. Do vazio. Do mundo seguindo normalmente enquanto algo tinha sido arrancado de dentro de mim.
Nada muda.
Só o buraco que fica.
SINOPSE
Em um pequeno vilarejo, a morte era motivo de festa e brincadeiras entre as crianças, porque a cidade parava e toda a sua rotina era alterada. Um dia, um acontecimento muda para sempre o olhar daquelas crianças, que se encontram com a fragilidade da vida e a força das memórias, marcando o fim da inocência.
Parabéns aos envolvidos.
E ainda nem falei da beleza imagética da montagem.
O cavalo de pau parecia conversar conosco. Os brinquedos em cena pertenciam exatamente à infância de boa parte daquela plateia. O pogobol, o pião… havia pesquisa ali. Havia memória.
O público infantil talvez enxergasse brincadeiras.
Os adultos, talvez enxergassem a própria infância.
E o final…
Ah, o final da montagem é um deslumbre que prefiro não revelar. Ele merece permanecer guardado.
Vale mencionar as críticas dos colegas, que li ao final da minha escrita.
O crítico e fotógrafo Bob Sousa descreveu a visualidade do espetáculo como “espinha dorsal da experiência cênica”.
Já o crítico de arte Rômulo Sobrinho descreve a experiência de assistir a SAUDADE como algo que “fala menos ao intelecto e mais à pele, à memória e ao afeto”.
Marcos Antônio Alexandre, doutor em Letras pela FALE-UFMG, relata ter vivenciado um “encontro profundo com minhas memórias e minhas saudades”, transitando “do riso ao choro” e recuperando o “olhar das infâncias” sobre a perda.
Obrigada.
Pela primeira vez, um espetáculo me colocou entre a cruz e a espada.
O grupo Os Geraldos, com 20 integrantes e criado há 18 anos em Campinas, investiga o teatro popular que valoriza a relação direta com o público. Já passou por 105 cidades em 24 estados brasileiros e 10 países.
FICHA TÉCNICA
- Patrocínio: Banco do Brasil
- Direção e concepção de cena, figurino e cenografia: Douglas Novais
- Direção musical e preparação vocal: Everton Gennari
- Dramaturgia: Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro
- Direção de texto: Douglas Novais e Paula Guerreiro
- Elenco: Alexandre Cremon, Carolina Delduque, Emme Toniolo, Everton Gennari,
- Gileade Batista, Guilherme Crivelaro, João Fernandes, Julia Cavalcanti, Paty Palaçon,
- Paula Guerreiro, Pedro Dias, Roberta Postale e Valéria Aguiar
- Iluminação: Caetano Vilela
- Visagismo e maquiagem: Douglas Novais e Gileade Batista
- Assistência de direção: Julia Cavalcanti
- Assistência Dramatúrgica: Emme Toniolo e Tatiana Alves
- Coordenação do Ateliê Kairós: Emme Toniolo
- Assistência do Ateliê Kairós: Gileade Batista, Guilherme Crivelaro,
- Vinícius Zaggo, Valéria Aguiar, Agnes Foster, Aline Sivieri e Jennifer Adélia
- Fotografia: Stephanie Lauria, Bob Sousa e Guto Muniz
- Design gráfico e Ilustrações: Guilherme Crivelaro
- Redação do programa: Paula Guerreiro
- Operação de luz: Débora Piccin
- Coordenação de produção executiva: Paty Palaçon
- Produção executiva: Anna Helena Longuinhos
- Assistência de produção: João Vitor Paulato, Nicole Mesquita, Lívia Telles
- Captação e Projetos: Carolina Delduque, Paula Guerreiro, Lívia Telles, Paty Palaçon
- Assistência de Captação e Projetos: Pedro Dias, Anna Helena Longuinhos e Débora Piccin
- Coordenação técnica: João Fernandes e Alexandre Cremon
- Assistência técnica: Roberta Postale e Pedro Dias
- Coordenação de comunicação: Nicole Mesquita
- Coordenação de gestão: Tatiana Alves
- Coordenação geral: Douglas Novais
- Produção: Os Geraldos
- Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany
- Realização: Governo do Brasil e CCBB
SERVIÇO
Saudade
- Temporada: de 1º a 10 maio de 2026
- Onde: Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro
- Horários: sexta e sábado, às 19h e domingo às 18h
- Ingresso: R$ 30 (inteira), e R$ 15 (meia para estudantes, professores, profissionais da saúde, pessoa com deficiência e acompanhante, quando indispensável para locomoção, adultos maiores de 60 anos e no pagamento com cartões BB), à venda no site www.bb.com.br/cultura e na bilheteria física do CCBB RJ de quarta a segunda-feira, das 9h às 20h (fechado às terças)
- Gênero: drama musical
- Capacidade do teatro: 158 lugares
- Duração: 60 minutos
- Classificação: 12 anos
- Acessibilidade do teatro: sim



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.









