

Foto: Divulgação
O Deus da Carnificina
O diretor pode ser o melhor do mundo.
Mas, se o elenco não estiver à altura, não há milagre: a perfeição não chega.
Dito isso, já me fiz entender.
Rodrigo Portella parece ter atingido um ponto raro na carreira — e não falo apenas dos prêmios, embora eles estejam aí, como testemunhas. Falo de algo mais difícil: a capacidade de nos fazer viajar dentro daquilo que ele cria.
Assistir a um espetáculo dirigido por Rodrigo é como entrar num território onde a cena não se limita ao palco — ela atravessa. Ele não assina seu nome na areia que o mar apaga. Ele grava sua marca em algo mais próximo de uma catedral do teatro — sólida, ritualística, viva. A chamada “era Portella” não nasce do acaso: nasce de um artista que fala a nossa língua, que não inventa uma arte para si, mas constrói uma arte para nós.
E isso é cada vez mais raro.
Dirigindo múltiplos trabalhos simultaneamente, circulando entre Rio de Janeiro e São Paulo, presente em grandes festivais, Rodrigo mantém algo essencial: o teatro como espaço democrático. Seu trabalho não é hermético, não é um enigma para poucos. Ele atravessa o cotidiano, a brasilidade, a contradição — e chega.
Ele nos alcança.
Não é sobre rasgar seda. É sobre estender tapete vermelho e, sem ironia, dizer: a gente te ama, cara.
E o que você fez desta vez, Portella?
Sem patrocínio, em mais uma empreitada quase insurgente, você cria um espetáculo que chega como um vendaval. Não exatamente como o Furacão Katrina — porque aqui não há destruição gratuita —, mas há abalo. Há deslocamento. Saímos mexidos, revirados por dentro, tocados por essa força que você tem de transformar o banal em tensão pura.
O Deus da Carnificina nos segura por noventa minutos sem respiro.
Dois casais, uma briga entre filhos, uma tentativa civilizada de resolução — e o que se revela é o que sempre esteve ali: egoísmo, violência, infantilidade. Ninguém é inocente. Talvez só as crianças que ficaram fora da cena.
O texto, já consagrado, ganhou o mundo — inclusive na adaptação cinematográfica Carnage, dirigida por Roman Polanski e com um elenco estelar. Mas aqui, no palco, o que importa é outra coisa: o risco do ao vivo.
E o elenco responde.
Thelmo Fernandes é força bruta e precisão. Seu trabalho tem maturidade, deboche na medida certa e uma entrega que sustenta o espetáculo. Há algo de prova de fogo em sua atuação — e ele atravessa com excelência. É um ator que não se apoia em aparato: ele é o acontecimento.
Ângelo Paes Leme constrói um personagem seco, contido, quase cortante. Seu corpo e sua voz trabalham juntos numa composição enxuta e eficaz. Nada sobra — e isso é qualidade.
Anna Sophia Folch desenha sua personagem em camadas. Começa delicada, quase contida, e aos poucos implode — muda o olhar, a voz, o ritmo. Há um jogo interno interessante, um desafio que ela abraça com inteligência.
E Karine Teles…
basta abrir a boca para a plateia reagir. Há comunicação direta, quase íntima. Seu trabalho tem humor, precisão e algo muito potente: ela fala com a gente — especialmente com as mulheres — sem esforço.
O figurino de Karen Brusttolin merece atenção. À primeira vista, causa estranhamento: uma estética de época convivendo com celulares e situações contemporâneas. Mas é justamente aí que reside sua força. O figurino aprisiona — e depois revela. Quando uma personagem rompe com sua estrutura, surge uma camiseta de Hello Kitty sob a composição clássica. É quase um grito visual. Um gesto simples que diz muito.
Iluminação e cenário passam de forma mais discreta. Há elementos interessantes — como os picolés e os papéis espalhados — que evocam a infância e tentam “esfriar” os ânimos. Funcionam como metáforas, ainda que não roubem o protagonismo.
E talvez seja essa a chave: nada é mais potente que o ator em cena. E o texto.
Ao final, os quatro parecem formar uma constelação — algo próximo ao Cruzeiro do Sul. Quatro estrelas principais em tensão constante, com uma quinta presença invisível orbitando: o diretor.
Rodrigo está ali — não no centro, mas sustentando o desenho.
Quando vamos ao teatro, buscamos algo que nos complete, que nos desestabilize ou nos faça rir. Aqui, encontramos tudo isso — mas, principalmente, encontramos um espelho pouco confortável.
E ainda bem.
Ficha Técnica
O Deus Da Carnificina
- De: Yasmina Reza
- Direção: Rodrigo Portella
- Tradução: Eloisa Araújo Ribeiro
- Elenco : Ângelo Paes Leme, Karine Teles, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch
- Coordenação Geral: Anna Sophia Folch e Felipe Valle
- Direção Musical/Trilha Sonora: Federico Puppi
- Figurinos: Karen Brusttolin
- Cenografia: Rodrigo Portella
- Cenógrafa Executiva: Rahíra Coelho
- Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni
- Assistente de Direção: Maria Clara El-Bainy
- Direção de Produção: Felipe Valle
- Produção Executiva: Juliana Trimer
- Assistente de Produção: Gabriela Lira
- Realização: Curumim Produções e Trupe Produções
SERVIÇO
O Deus Da Carnificina
- Quando: Temporada de 23/04/2026 a 07/06/2026. De Quinta à Sábado: às 20h00 e Domingo: às 17h00
- Teatro TotalEnergies. Rua do Russel, 804 – Glória, Rio de Janeiro – RJ



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.









