As loucuras sanas da Yara, e a força de Taís

 

Mais uma vez, chega ao palco carioca uma excelente montagem, sob a direção de Yara de Novaes — uma artista que nos últimos anos vem consolidando um movimento muito próprio: levar atrizes consagradas para o palco e, mais do que isso, colocá-las em estado de risco criativo e sucesso.

Não é pouco.

Basta lembrar de nomes como Débora Falabella e Andréa Beltrão — intérpretes que, sob sua direção, alcançam lugares cênicos mais complexos, mais expostos, mais vivos. Yara trabalha com profundidade. E exige. E quando há entrega, o resultado costuma ser grande teatro.

Quanto você já se adaptou para estar em algum lugar? Quantos incômodos sentiu por não se sentir pertencente? Qual o significado de se reconhecer em sua pele e identidade? Essas são algumas das perguntas que permeiam “Mudando de Pele”, montagem teatral da autora inglesa Amanda Wilkin com direção de Yara de Novaes que marca o retorno de Taís Araújo aos palcos, e é o resultado da busca da atriz por pesquisar e contar histórias originais sobre mulheres. “Estou há anos em busca de um texto que fale sobre histórias de mulheres e mulheres pretas que não passe pela questão da sobrevivência ou da dor. Mudando de Pele é uma reflexão com temas universais, que dialoga com o público em geral e com a artista que sou”, explica Taís.

Desta vez, o eixo é o racismo.
E em cena, Taís Araújo.

Antes de assistir, uma pergunta inevitável chegou: por que não uma diretora negra?
A inquietação é legítima. Mas, ao longo do espetáculo, ela vai sendo tensionada — não anulada, mas deslocada.

Iara não tenta falar por, ela cria um espaço onde a atriz fala de dentro. E talvez aí esteja a chave.

Para quem ainda não entendeu, saibam que a diretora em 2021 trouxe um espetáculo que se chamava “(Des)memória”, que partia de uma história familiar de Yara de Novaes, mas diz muito sobre a construção social do Brasil. A atriz atuou com seu nome real no papel de uma mulher nascida em Belo Horizonte que tentou reencontrar seu passado familiar a partir de uma foto de sua bisavó, Leopoldina Rosa de Souza Novaes, que era negra, ela falou sobre o embranquecimento na família, ela queria saber mais sobre quem ela tinha poucas referências.
Nesse espetáculo virtual que era também um game, atuou Cyda Moreno, que simplesmente fala sobre a diretora:

“A Yara é absurda. Maior diretora de teatro contemporâneo do momento. Mas antes fiz com ela A serpente, durante uns 10 anos, com a Débora Fallabela
Sempre foi brilhante uma puta intelectual e ao mesmo tempo generosa, parceira. Sabe extrair o melhor de cada um, com a maior delicadeza e sorrisão no rosto. Todos tombam por ela.
Ela emociona mesmo. Em tudo se aprofunda na raiz. É humana, sensível, de posicionamento político à esquerda. Uma humanista em favor da arte. Sofre junto, cria junto. E nos dá toda a liberdade”

Na época, escrevi na crítica:

“Na verdade, os espectadores já conhecem a competência, a excelência dos trabalhos de Yara Novaes, ela é sinônimo de boa qualidade cênica. Formada em letras e entregue ao oficio, parece deixar-se levar por suas intuições teatrais, que acabam dando bons frutos”.
https://jportal.com.br/resgate-o-passado-jogando-com-yara-de-novaes/

Portanto a diretora está no lugar certo.

Taís entra em cena jovem. Inquieta. Indignada.
Uma mulher que não aceita as regras silenciosas da empresa, nem as violências sutis que estruturam o cotidiano. Uma personagem que sonha — e o sonho aqui não é leve, é quase um delírio de transformação.

É impossível não se reconhecer.
Todos nós já acreditamos, em algum momento, que poderíamos mudar alguma coisa. Como quem, ingenuamente ou não, ainda carrega um traço de Mahatma Gandhi, se bem que esse era racista, mas não se apaga os ideais dele a favor dos indianos e da independência da Índia.

Lembrei-me da letra de uma música do grupo Casaca do Espirito Santo, que nasceu do ritmo de uma congada.

“Eu vou na frente pra quebrar essa corrente que segura essa gente
que não deixa ela vencer/
Eu falo alto só pra ver se ele me escuta é todo dia nessa luta, mais um dia eu vou vencer”

Mas o mundo não cede fácil. E a personagem pagou a conta. Porque o pior cego é aquele que não quer enxergar e então não conseguimos engajar, ficamos estagnados, humilhados, isso que aconteceu a jovem personagem.

Taís sustenta essa trajetória com rigor técnico e presença.
Sua dicção é exemplar — limpa, projetada, precisa. Voz de teatro. Voz que ocupa o espaço.
Uma vez me disseram que criança que tem uma boa amamentação tem uma excelente fala, então a atriz mamou sabe Deus quando, porque é peculiar e prazeroso ouvi-la.

Seu corpo, disponível. Seus movimentos conscientes. E, principalmente, sua coragem.

Coragem de se despir da própria imagem.

Ali não está a Taís Araújo “ícone”. Uma das mulheres negras mais bonitas do Brasil e sim a atriz, a personagem.
Está uma mulher cansada, moída, ainda assim resistente. Uma personagem que se desorganiza diante da realidade — e se reorganiza em cena.

Há um momento-chave: quando ela confronta uma política corporativa de “inclusão” que, na prática, é apenas maquiagem estatística. Ela identifica o erro, denuncia, rompe o discurso. E esse gesto ecoa — porque é reconhecível. Está no cotidiano. Inclusive no meio artístico.

A direção opera com inteligência contemporânea.
Há tecnologia, há ritmo, há um olhar quase circular — como se a cena fosse observada por todos os ângulos ao mesmo tempo.

E algo que realmente atravessa o espetáculo, o levando a uma montagem mais celestial, é a música.

A direção musical de Dani Nega não acompanha — ela estrutura.
Ela cria atmosfera, pensamento, tensão.

Quando surge “Preciso Me Encontrar”, de Cartola, não é citação: é transformação.
A canção deixa de ser memória e vira manifesto.

O que se ouve ali não é exatamente samba, nem rap, nem blues — é uma fusão pulsante, política e sensorial. Uma sonoridade que sangra por dentro da cena.

É raro.

E é talvez o maior acerto de encenação e musicalidade quando juntas: permitindo que essa musicalidade respirasse, crescesse e conduzisse.

O Teatro SESC Ginástico, recém-reformado, contribui com um desenho sonoro limpo, quase líquido. Há momentos em que o som chega como água corrente — contínuo, envolvente e preciso.

O cenário cumpre função, a luz é bem desenhada, a atuação é consistente.
Mas há um ponto de tensão: o texto.

A dramaturgia, em certos momentos, desacelera o fluxo, confesso que são poucos os textos de fora que me envolvo, deve ser um tipo de preconceito, não osu muito fã mesmo. Ele Retira dinamismo de uma cena que pede mais pulsação. E isso pesa — ainda que Taís sustente com técnica e presença. O ponto alto da dramaturgia a meu ver é quando a personagem Mildres, defende seu amigo de rua. Tais, diretora e texto, se abraçam e nos presenteiam com uma cena que merece ser perpetuada!

Vale mencionar que muitos amigos fãs de teatro adoraram o texto, isso deve ser pessoal mesmo.

No fim, o espetáculo se equilibra entre forças diferenciadas:
uma atuação potente, uma direção madura, uma música extraordinária — e um texto que nem sempre me fez vibrar, ainda sim, há grandeza.

E talvez o mais interessante seja isso:
a possibilidade de ainda sermos surpreendidos por artistas que já sabemos que são bons.

Porque não basta ser bom.
É preciso continuar se colocando em risco.

E é exatamente nesse lugar — o do risco — que essas mulheres fazem teatro.

Quanto ao Sesc, o bom desse investimento/patrocínio é ver uma plateia de gente negra, o que não acontece com frequência. Eles se juntam a Taís Araújo, como se dissessem para ela: estamos contigo!

 

SERVIÇO

Mudando de Pele

  • Teatro Sesc Ginástico (Avenida Graça Aranha, 187 – Centro)
  • De 23 de abril a 24 de maio de 2026
  • Quintas e sextas às 19h; sábados e domingos às 17h
  • Ingressos: a partir de 06/04 em www.ingresso.com
  • R$ 60 (inteira); R$ 30 (meia-entrada); R$ 15 (credencial plena Sesc e conveniados); Gratuito (público cadastrado no PCG)
  • Classificação indicativa: 14 anos

 

FICHA TÉCNICA

Mudando de Pele

  • de Amanda Wilkin
  • com Taís Araujo
  • Dani Nega e Layla
  • Direção: Yara de Novaes
  • Tradução: Diego Teza
  • Dramaturgismo: Nathalia Cruz
  • Diretora assistente: Ivy Souza
  • Diretora de movimento e colaboração artística: Cristina Moura
  • Direção musical, arranjos eletrônicos e criação musical: Dani Nega
  • Arranjos para kora e steel pan: Layla
  • Preparadora vocal e fonoaudióloga: Janaína Pimenta
  • Cenografia: André Cortez
  • Design de luz: Gabriele Souza
  • Design de som: Arthur Ferreira e Gabriel Salsi
  • Figurinos: Teresa Nabuco
  • Videografismo: Alice Cruz e Letícia Leão
  • Visagismo: Adriana Teixeira
  • Assistente de cenografia: Alice Cruz
  • Assistente de figurinos: Michelle Rabischoffsky
  • Costureiras: Sonia Maria da Silva
  • Alfaiate: Fábio Martins
  • Diretor técnico: Ricardo Vivian
  • Coordenação de palco: Antônio Lima
  • Técnico de som e microfonista: Gabriel Salsi
  • Técnico de luz e operação: Ricardo Vivian
  • Técnico de montagem: Iuri Wander
  • Contrarregra: Nivaldo Vieira
  • Construção da cenografia: André Salles
  • Equipe de comunicação | Trigo Casa de Comunicação
  • Coordenação de comunicação: Antonio Trigo
  • Assessoria de imprensa: Laís Gomes e Renata Ramos
  • Conteúdo digital | Digimakki
  • CEO: Victoria Oliveira
  • Coordenadora: Carla Azevedo
  • Analista: Itaiara Andrade
  • Identidade visual: Fábio Arruda e Rodrigo Bleque | Cubículo
  • Fotos: Pedro Napolinário
  • Arte finalista: Marcos Nascimento
  • Diretora de produção: Verônica Prates
  • Coordenadora de projetos: Valencia Losada
  • Produção executiva: Camila Camuso
  • Assistente de produção: Ellen Miranda
  • Assessoria jurídica: Bruno Mros
  • Produtora Taís Araújo: Cecília Bastos
  • Produção geral: Quintal Produções e AXIC’S

 

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

 

 

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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