Sob o som do frevo, crimes e desigualdade: estreia literária aposta no noir brasileiro

Paulo André Souza | Foto: Divulgação

 

FREVO NOIR

 

Assim como no cinema de Kleber Mendonça Filho, em que o Recife pulsa entre modernização, ruína e violência silenciosa, a cidade também se impõe como personagem central em Frevo noir (Editora Mondru, 144 págs.), livro de estreia do pernambucano Paulo André Souza (@p.a._souza). Ao transformar o Carnaval em metáfora narrativa, o autor constrói 16 contos que revelam uma capital atravessada por desigualdades, crimes, paixões e paradoxos existenciais, onde festa e tensão convivem em permanente fricção.

Em vez de cenário, o Recife é organismo: respira frevo, exala contradição e expõe as fissuras sociais que estruturam suas histórias. Delegado da Polícia Federal e estudioso da escrita criativa, Paulo André utiliza o ritmo da cidade, seus batuques, silêncios e sombras, para compor uma literatura que dialoga com o thriller social, o existencialismo e uma tradição urbana contemporânea que encontra no espaço urbano não apenas ambientação, mas força dramática.

Formado em Direito e especialista em Ciências Criminais, o autor traz ao texto tanto sua vivência no Recife quanto o olhar de quem também estudou extensão em Escrita Criativa pela PUCRS e participou da oficina do Centro Cultural Raimundo Carrero. A obra tem texto de orelha assinado pela escritora Conceição Rodrigues.

O cenário escolhido desempenha papel essencial para as tramas e para a composição das personagens:

Por viver numa cidade que respira carnaval em meio a tantas privações, procurei traçar o fio narrativo a partir desse paradoxo. São personagens em rito de expansão ou de fuga (de festa), numa cidade (num mundo) que as sufoca. Os crimes, as paixões e os mistérios são estados da existência em que esse paradoxo melhor se revela”, explica.

O núcleo discursivo é uma ode à contradição. Ao longo das narrativas, o escritor aborda a suposta alegria do povo brasileiro, ao mesmo tempo em que denuncia as violências produzidas pela desigualdade social. Em meio a crimes, suspense e muita desconfiança, Paulo André constrói uma atmosfera existencialista, marcada pela fúria e pelo desejo de justiça.

Na obra, o carnaval ganha nuances pouco exploradas pela literatura. Como sugere o próprio título do livro, o ar festivo e alegre se contrapõe às cenas de injustiça, morte e perseguição. Em Frevo noir, o mundo que diverte e protege os mais ricos é o mesmo que abandona os mais pobres à própria sorte.

 

O Recife que pulsa entre festa e ruína

O livro divide as 16 histórias em quatro partes (nomeadas como Pulsação 1, 2, 3 e 4) e se destaca pelas tramas envolventes e por diálogos irônicos e bem construídos. Exemplo disso é o conto “Mapas de mergulho para ogivas nucleares”, em que dois personagens utilizam piadas internas como tentativa de amenizar uma situação tensa e, possivelmente, catastrófica que se anuncia.

O gênero transita pelo thriller social, ou uma “literatura criminal”, que transcende as amarras da literatura policial clássica. As narrativas se aprofundam em temas como solidão, segregação racial, a constante sensação de insegurança e o punitivismo. Já a linguagem utilizada pelo escritor é capaz de apresentar metáforas a respeito de assuntos que vão da violência ao sentido da vida. Não por acaso, no início de “O filósofo e o homem da meia-noite”, o narrador escolhe o jazz como elemento central para discorrer sobre aspectos filosóficos relacionados à existência.

As histórias ainda se utilizam de referências a diferentes ícones da cultura pop — como Hilda Hilst, Pink Floyd e Nietzsche  —, que conferem mais identidade e complexidade aos personagens. A fantasia se adensa na marcha dos caranguejos que escapam do mangue até o mar, ao som de um cancioneiro nacional em forma de trilha sonora ressoando pelas tramas.

“Meu estilo se estabeleceu a partir da tentativa de conciliar os excessos da narração mais coloquial, ‘de enredo’, com um tratamento de linguagem concisa e imagética. Nos temas, as escolhas se revelaram ‘fantasias realistas’ (uma faceta, um toque, de realismo fantástico)”, destaca o autor.

Entre as influências literárias, cita Machado de Assis, Rubem Fonseca, Raimundo Carrero e Ana Paula Maia. Mas sua formação também disseca letras de música — de Luiz Gonzaga a Engenheiros do Hawaii e Chico Science & Nação Zumbi — e a atmosfera do cinema de Hitchcock, Tarantino e Kleber Mendonça Filho. A coleção Vaga-Lume, lida ainda na infância, foi decisiva para despertar sua vocação para a escrita.

A ideia do escritor é que Frevo noir seja o primeiro de uma trilogia de contos.

“Escolhi  o conto porque talvez seja a forma mais desafiadora e ao mesmo tempo repleta de atalhos para iniciar a busca por novas dúvidas para a existência. Novas dúvidas e novos mundos possíveis”, ressalta.

 

Confira trechos de dois contos de Frevo noir

 “Vomitou a sentença assinalando guimbas de aço no cinzeiro que o maître acaba de trazer. […] Ele pisca os olhos na minha direção, pede outra garrafa de vinho e diz, quase um sopro, velhinho, vá em paz, tá tudo bem.” (trecho do conto “A ética de Sade”)

 “Vou atrás de quem? Meu rumo é o prédio. Minha abstração recende a manga suculenta. Cheiro de manga caindo e cerveja. Cornetas e batuques se apagavam virando cantinela de remotos estertores. […] Só o frevo ecoando seus passos intitulados ferrolhos, tesouras, dobradiças, parafusos.” (trecho do conto “Admiro claraboias em simetria com o chão”)

 

 

Venda do livro

Adquira “Frevo noir” pelo site da editora Mondru: https://mondru.com/produto/frevo-noir

Adquira diretamente com o autor no Instagram: @p.a._souza

 

 

 

 

 

CHRIS HERRMANN
Escritora, musicista, editora, designer.
Editora-chefe Redação e Colunista ArteCult.com

 

 Coluna:
Sarau da Varanda

 

Author

Chris Herrmann é escritora/poeta, musicista, musicoterapeuta, editora e webdesigner teuto-brasileira, nascida no Rio de Janeiro. Estudou Literatura na UFRJ, Música no CBM e pós-graduou-se em Musicoterapia na Universidade de Münster, Alemanha. Tem 13 Livros publicados (poesia contemporânea, haikai, romance, contos e literatura infantil); bem como participação e organização em inúmeras coletâneas de poesia no Brasil e exterior. Recebeu diversas premiações ao longo dos últimos 20 anos, como escritora, poeta, webdesigner e curadora de sarau. É editora-chefe da revista eletrônica Ser MulherArte (www.sermulherarte.com | @sermulherarte); articuladora do Mulherio das Letras na Lua (Grupo de Poesia ligado ao Movimento Mulherio das Letras); editora do Sarau da Varanda (@sarau.da.varanda) e Arthéria Viva (@artheriaviva) no Instagram. Desde Outubro de 2025, é editora-chefe e colunista do Portal ArteCult (www.artecult.com | @artecult).

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