Uma surpresa

 

Não me lembro de uma turma, de um curso de teatro, ter chegado nesse lugar. Aliás, lembro sim de um fenômeno: Marcela Treze, que bateu perna Brasil afora e já era algo fora da curva depois do Festu (Festival de teatro Universitário).

E de repente, você se depara com uma turma que sai de São João de Meriti sendo indicada a prêmios importantes e ainda aparecendo na crítica da Revista Veja. Isso surpreende. E digo mais: eu só consegui assistir porque disseram que dariam um jeito de me colocar para dentro, na época. Já começa assim.

Primeiro ponto — e talvez o mais importante: que essa crítica reverta em benefícios para o Instituto Cerne. É preciso programar patrocínios para oficinas e cursos. Estamos falando de um território onde o acesso é difícil, onde muitas vezes o próprio instituto deve tirar do pouco para sustentar sonhos que insistem em existir.

Quando um espetáculo sai desse espaço educacional com a força com que saiu — e chega onde chegou — isso não é acaso. Isso é sinal. É aposta. Qualquer instituição cresce quando decide abraçar futuros artistas ainda em formação. Fato.

Quanto à obra, confesso: eu e certos prêmios temos nossas divergências. Como no caso do Prêmio Shell de Teatro de dramaturgia a um texto da Cia— aquele eu não aplaudi. Mas uma coisa é inegável: de dramaturgia essa galera entende. Dobrar me ei!

E olha que eu já estou cansada de assistir à trilogia — Antígona, Jocasta, Édipo… esse povo de Corinto… (que, aliás, também é nome de um motel aqui na Zona Norte — e dos bons)

Mas “Maldita” traz algo diferente: uma comicidade rara. As três partes se conectam com inteligência, com unidade e com excelência — e não sou só eu que digo isso, é o público. Ri o tempo inteiro. E não tem como não rir: a peça é boa, é divertida.

Gostei do figurino? Não achei essas coisas, mas de alguma forma combinava com a loucura do que era apresentado. Mas também não fui por isso. Fui para entender o espetáculo — e encontrei uma obra diferenciada, com alunos em cena, sim, mas com uma potência que ultrapassa qualquer expectativa. O que não é palpável — as convenções, os códigos, o fazer artístico — está ali muito bem resolvido.

Igor e Leandro Fazolla — não sei se foram professores diretos, mas são, sem dúvida, pilares da Cerne desde o início — estão em cena. E o tamanho dos dois é evidente. Incomparáveis, claro. Mas atuam com leveza, cuidando do todo. Eles não precisam provar nada — o sucesso dos alunos já é o sucesso deles. E ponto. São sensacionais.

Alias, foi com Fazolla, com o doutor Leandro, com todo respeito que o profissional merece ser mencionado, que aprendi sobre a intelectualidade não estar em palavras difíceis, mas sim em se fazer entender, algo que guardarei comigo para sempre.

E tem mais: muita inclusão em cena. Idades, corpos, orientações. Um palco diverso de verdade. Não é discurso, não é forçado — são trajetórias que chegaram ali com profissionalismo. Ninguém é indicado a prêmio de humor, como o do Fábio Porchat, sem ter potência.

Aquilo ali é quase uma festa dionisíaca. Baco estava presente — dançando entre eles. Quem não viu, faltou sensibilidade.

A Cia Cerne, com “Maldita”, nos entregou talvez a grande surpresa de 2026. E digo sem medo: dificilmente verei algo que me atravesse dessa forma este ano, a conquista de um coletivo em total mergulho para mudar o próprio território.

Eles lutaram — e lutam — para isso acontecer.

E está acontecendo.

O espetáculo não tinha data de retorno, mas são audaciosos e voltaram sem ser convidados, no teatro Ipanema! Vão voltar!

 

Maldita

Comédia musical subversiva que explora a comicidade a partir de três tragédias: Édipo Rei, Sete Contra Tebas e Antígona. No contexto do espetáculo, um grupo de rebeldes resolve contar a história das tragédias a partir da própria perspectiva, tratando com ironia a relação entre o humano e o sagrado, escavando as tramas dos clássicos para provocar, inicialmente, reações acríticas do público, sob a premissa de rir da própria desgraça, e então desvelar os problemas desta intenção.

 

Ficha Técnica:

  • Dramaturgia e Direção: Rohan Baruck
  • Interlocução Artística: Madson Vilela
  • Elenco: Alexandra Mendes, Douglas Bezerra, Edlane Silva, Fabi Soares, Guilherme Gelaim, Higor Nery, Jaci Nogueira, Leandro Fazolla, Marambaia, Marcus Coutinho, Maria Carolina, Mari Silva, Rafa Domi, Rayane Souza, Rayane Zaguini, Ricardo Melchiades, Valéria Arias, Victor Valenttim, Vivien Jamille, Ygor Rocha, Vinicius S e Zo Monteiro
  • Coordenação de Direção de Arte: Higor Nery e Leandro Fazolla
  • Direção de Arte (cenário, figurino e visagismo): Cláudia Luzia, Dani de Freitas, Débora Faria,
  • Gizele Alves, Higor Nery, Larissa Ferreira, Leandro Fazolla, Marcelo Sina, Nilton Santos, Pollyanna Santos, Rohan Baruck, Ryan Rigueira, Tâmisa Pereira, Thiago Serrano e Wagner Lin
  • Cenotécnicos: Rafa Domi, Ricardo Melchiades, Rohan Baruck e Karla Muniz Ribeiro
  • Produção Musical: Camilla Monteiro, Leo Coutinho, Rayane Zaguini, Rafa Domi, Rohan Baruck e Vinicius S
  • Iluminação: Rafa Domi
  • Fotos: Stephany Lopez
  • Pré-produção: Amanda Tavares e Luã Rodrigues
  • Produção Executiva: Gabriela Estolano, Leandro Fazolla, Stephany Lopez e Valéria Arias
  • Assistente de Produção: Bruno Reis
  • Direção de Produção: Instituto Cultural Cerne e Rohan Baruck | Rbaruck
  • Coordenação Geral: Vinicius Baião e Leandro Fazolla
  • Agradecimento: Ateliê Sodoma e Organzza | Vinicius Andrade
  • Duração do Espetáculo: 70 minutos
  • Classificação: 14 anos

 

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

 

 

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *