A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

IArte – Chris Herrmann

 

(Nota do editor:

Esse texto está sendo publicado após a súbita partida de nossa querida colunista, a poeta, escritora, advogada, tradutora e editora Thereza Christina Rocque da Motta. 

Thereza há alguns meses atrás entrou em contato comigo propondo esse projeto maravilhoso que era através de uma coluna publicar seus textos que abordam de forma única o mundo editorial, contando seus principais desafios e mostrando a aventura de publicar livros no Brasil. Sua coluna é uma inspiração para futuros escritores e estamos muito honrados dela ter escolhido o Artecult para esse propósito. Descanse em paz, querida amiga de tantas e tantas histórias literárias. Nada é mesmo por acaso. 

Raphael Gomide

Diretor-geral do ArteCult.com ) 

 

A BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA

 

Um sábio se lembrou da biblioteca onde trabalhou um dia. Esta, cujas paredes continham todos os livros, trazidos de todos os lugares, como imposto de cultura a quem passasse por ali. Deixavam papiros, pergaminhos, tabuletas de argila, palimpsestos, lascas de mármore, cascas de árvores, tudo que contivesse um texto.

Essas histórias, escritas em todas as línguas, convergiam para uma única sala, cheia de mesas e cadeiras, divãs e espreguiçadeiras, onde se sentavam os jovens e os anciãos para consultar essas “páginas”.

Toda a vida do mundo voltava-se para este lugar, a grande biblioteca da cidade fundada por Alexandre, o Grande, que, apesar de jovem, era erudito – seu tutor, Aristóteles, não o poupara em seus estudos. Daí a fama de disseminador de cultura que tinha. E esses documentos de todos os tempos até então, enchiam a vista dos guardadores de rolos de pele de cabra.

Livros eram objetos raros e únicos. Copiá-los era um sacerdócio. Transcrevê-los e traduzi-los, uma missão para poucos. Por isso, o sábio se lembrava do tempo em que era jovem, copiando os textos que lhe passavam pelas mãos. Aprendia, assim, a ler e a copiar o que lia.

Os hieróglifos, o demótico, as letras cuneiformes, o grego, o latim… O tempo ali não passava, encerrado nas palavras e tudo o que lia era sagrado, como sagrado era o templo de Thot, deus da literatura e o criador do alfabeto egípcio. Maat, a deusa das leis, usava as palavras para julgar os homens, pelas boas ou más ações praticadas em vida. Pesava, contra a pena de avestruz, o coração dos homens e dos faraós, filhos de Rá.

Certo dia, a Biblioteca de Alexandria foi consumida pelo fogo, queimada pelos romanos para não disseminar seu conhecimento. A única forma de manter o poder.

E o sábio só se lembrava dos textos que copiara, dos papiros lidos à noite, sob o candeeiro, ou à luz do dia, e dos textos que lhe entregaram para estudar.

Assim lembramos de todos os livros que lemos, pois, mesmo ausentes, jamais nos abandonam.

 

Thereza Christina Rocque da Motta

03 de Dezembro de 2009

(publicado em “A Vida dos Livros”, Editora Íbis Libris, 2010)

 

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris) – IN MEMORIAM

 

 

 

 

com Chris Herrmann

 

com Márcio Calixto

 


com Ana Lúcia Gosling

 

com César Manzolillo


com Tanussi Cardoso

com Rose Araújo

 

com Thereza Christina Rocque da Motta

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

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