Joias brasileiras da TC Jewelry marcam presença no Oscar 2026

Thais Jacinto em ensaio fotográfico no Palácio de Versailles | Foto: divulgação

 

Coleção inspirada em “Os Maias” e fotografada no Palácio de Versailles conecta literatura, cinema e geometria sagrada em narrativa autoral que leva o design brasileiro ao tapete vermelho da maior premiação do cinema mundial

 

Quando chega a noite do Oscar, o cinema ultrapassa a tela e invade todos os espaços da cultura visual. O tapete vermelho se transforma em um grande palco simbólico onde moda, arte, narrativa e identidade estética se encontram diante das câmeras do mundo inteiro. Cada escolha visual comunica algo. Cada detalhe constrói uma história.

No dia 15 de março, quando Los Angeles receberá a cerimônia do Oscar 2026, uma joalheria brasileira também fará parte desse cenário global. A TC Jewelry, marca autoral criada pela designer Thais Jacinto, levará suas criações à noite mais importante da indústria cinematográfica, apresentando ao público internacional um trabalho que dialoga com literatura, arquitetura simbólica e design contemporâneo.

Quem usará as peças será a jornalista e documentarista Flavia Guerra, correspondente internacional de cinema e presença constante em grandes festivais e premiações. Para a ocasião, ela escolheu joias da coleção mais recente da marca, incluindo o colar Veneza, elaborado com moissanite e com pedra central em topázio London blue, além de brincos exclusivos desenvolvidos especialmente para a cerimônia.

Mais do que adornos sofisticados, as peças foram concebidas como elementos narrativos. Cada joia nasce de um imaginário artístico que transforma o design em uma forma de contar histórias.

 

Cinema como ponto de partida

Fundada em 2022, a TC Jewelry surgiu com a proposta de aproximar a joalheria do universo das artes narrativas. Desde o início, cinema e literatura passaram a ocupar papel central no processo criativo da marca.

A coleção inaugural foi inspirada no romance Os Maias, de Eça de Queiroz, uma das obras mais importantes da literatura portuguesa. A narrativa ganhou ainda mais força estética para a designer após a adaptação televisiva dirigida por Luiz Fernando Carvalho, conhecida por sua atmosfera visual sofisticada.

“Thais Jacinto é uma artista genuína. Suas obras são um milagre, unindo a alta sensibilidade de seu olhar à uma capacidade técnica de excelência. Na sua relação com meus filmes e a literatura dos quais partiram, sua joias são verdadeiras traduções do espírito e da linguagem do que sempre sonhei”, ressalta Luiz Fernando Carvalho.

Entre os personagens da obra, a figura de Maria Monforte, interpretada por Simone Spoladore, tornou-se um dos eixos conceituais da nova coleção. A personagem ofereceu a designer um território simbólico e delicado. Além da coleção dos Maias, Thais desenvolveu a Coleção No Tempo da Delicadeza, inspirada na sua personagem Ana, em Lavoura Arcaica.

O editorial que acompanha a coleção foi fotografado no Palácio de Versailles, na França. O cenário não foi escolhido apenas por sua imponência estética. Versailles representa um dos maiores símbolos da cultura visual europeia, um espaço onde arquitetura, poder e teatralidade histórica se encontram.

A escolha do local reforça o diálogo entre literatura, drama e estética aristocrática que atravessa tanto o romance de Eça de Queiroz quanto o universo simbólico da coleção.

A Coleção Para o Infinito e Além se desenvolve como uma narrativa visual. Cada peça corresponde a um momento simbólico da personagem que inspirou o projeto. Lapidações, encaixes e proporções funcionam como elementos de direção de arte traduzidos em metal e pedras preciosas.

Thais também desenhou joias para a peça de teatro Gertrude Alice e Picasso, com Barbara Bruno usando um broche criado por ela.

Nesse processo criativo, a joalheria se aproxima da lógica do cinema. Existe um conceito inicial, uma atmosfera estética e uma narrativa silenciosa que orienta o desenho das peças.

E há uma excelente novidade a caminho: a TC Jewelry estará presente no longa metragem de uma diretora premiada. Nomes ainda não podem citados. Porém, esta notícia já é spoiler do que está por vir. Aguardem!

 

Geometria sagrada e arquitetura simbólica

Outro elemento fundamental da coleção é a presença da geometria sagrada, inspirada na arquitetura da Quinta da Regaleira, em Sintra, Portugal. O local é conhecido por seus jardins labirínticos, torres simbólicas e construções carregadas de referências ligadas à alquimia, ao hermetismo e às tradições filosóficas europeias.

Esses elementos foram reinterpretados no design das joias. Linhas, proporções e encaixes refletem padrões geométricos presentes na arquitetura do espaço. O objetivo foi traduzir em peças de joalheria a mesma sensação de mistério e profundidade que caracteriza o lugar.

A relação com Portugal também atravessa a história pessoal da designer. Thais Jacinto possui ascendência portuguesa por parte da família paterna, o que criou desde cedo uma conexão afetiva com a cultura lusitana e com a obra de Eça de Queiroz.

Em 2022, a designer realizou uma viagem a Portugal que acabou se transformando em uma jornada de pesquisa criativa. Durante o percurso, visitou a casa onde Eça de Queiroz escreveu parte do romance, localizada na região do Douro, além de percorrer cidades como Sintra e Lisboa para conhecer cenários associados à história e à adaptação televisiva da obra.

Essa experiência pessoal acabou se incorporando ao processo criativo da coleção. Literatura, cinema, memória familiar e arquitetura simbólica passaram a se entrelaçar como elementos que moldam a identidade da marca.

 

O Brasil no tapete vermelho do cinema

Nos últimos anos, designers brasileiros têm conquistado presença crescente em eventos internacionais ligados ao cinema e à cultura. O tapete vermelho tornou-se também um espaço de expressão estética e de afirmação criativa.

Nesse contexto, a presença da TC Jewelry no Oscar representa mais do que uma participação pontual em um evento de prestígio. Ela reflete um movimento mais amplo de valorização do design autoral brasileiro em cenários globais.

As criações da marca já apareceram em festivais importantes como Cannes e Veneza, além de eventos relevantes do audiovisual brasileiro, como o Festival de Cinema de Gramado. Mais recentemente, as joias também marcaram presença em transmissões relacionadas ao Globo de Ouro, ampliando sua visibilidade no circuito cultural internacional.

Ao chegar ao Oscar, a marca brasileira passa a dialogar com um universo tradicionalmente associado às grandes maisons internacionais de joalheria, levando consigo uma proposta estética baseada em narrativa, identidade cultural e autoria.

Este belíssimo par de brincos estará presente na entrega do Oscar 2026:

 

O colar Veneza

Colar Veneza – TC Jewelry

Entre as peças escolhidas para o Oscar 2026, o colar Veneza ocupa posição central na coleção apresentada pela TC Jewelry.

A joia é composta por moissanite e apresenta como destaque uma pedra central em topázio London blue, conhecida por seu tom profundo e sofisticado. O design combina elegância clássica com linhas contemporâneas, criando um equilíbrio visual que dialoga com a atmosfera dramática da coleção.

A intensidade cromática da pedra central reforça a dimensão cinematográfica do projeto, evocando profundidade visual e emoção.

 

 

A designer por trás da marca

Thais Jacinto – TC Jewelry

À frente da TC Jewelry está Thais Jacinto, designer que construiu sua trajetória a partir do diálogo entre arte, memória e narrativa.

Suas criações partem sempre de um universo conceitual. Literatura, cinema, arquitetura simbólica e experiências pessoais funcionam como pontos de partida para o desenvolvimento das peças.

Esse método criativo aproxima o trabalho da designer do território das artes visuais. Cada coleção nasce como um projeto estético estruturado, no qual as joias funcionam como fragmentos de uma história maior.

Entre Versailles e Hollywood, a trajetória da TC Jewelry revela como a joalheria contemporânea pode ultrapassar a ideia de ornamento e se transformar em linguagem artística.

No tapete vermelho do Oscar, essas peças carregam brilho e sofisticação. Mas carregam também histórias, referências culturais e um olhar autoral que atravessa literatura, cinema e design.

Porque, quando arte e identidade caminham juntas, até uma joia pode contar um filme inteiro.

 

 

Entrevista com Thais Jacinto

Thais Jacinto | Divulgação

 

Chris Herrmann: Sua joalheria dialoga diretamente com literatura e cinema. Como esses universos narrativos se transformam, na prática, em formas, pedras e composições dentro do design de uma joia?

Thaís Jacinto: O meu trabalho começou em 2022 com a coleção Para o Infinito e Além inspirada na serie Os Maias, dirigida por Luiz Fernando CarvalhoA coleção foi toda desenvolvida a partir da personagem Maria Monforte de Simone Spoladore.

Cada jóia traz em seu design os elementos contidos em cada cena, como a estrela em filigrana que é uma técnica milenar de ourivesaria muito comum em Sintra, onde a historia da série se inicia.

É um trabalho intuitivo, de rigor técnico, e simbólico.

A escolha das pedras e dos símbolos se conecta com a estetica presente na série.

 

CH: A coleção atual incorpora referências à geometria sagrada presente em lugares como a Quinta da Regaleira. De que maneira esse tipo de simbologia arquitetônica influencia o design contemporâneo?

TJ: Tenho um longo caminho espiritual no qual os símbolos sagrados estão sempre muito presentes. Um exemplo é o Merkabah, uma estrela tridimensional muito utilizada em meditações como um veículo que nos conduz a esferas superiores.

Além de ser um símbolo cheio de energia e significado, ele possui um design extremamente interessante. Ele dialoga muito bem com a atmosfera e a estética da Quinta da Regaleira, que possui uma arquitetura rica em simbolismo e mistério. Essas referências influenciam o design das peças e traz equilíbrio entre espiritualidade e arte, me inspirando no processo criativo.

 

CH: Você menciona uma forte relação afetiva com a obra “Os Maias” e com sua herança portuguesa. Qual é o papel da memória afetiva no seu processo criativo como designer?

TJ: Minha relação com Portugal vem desde a infância, quando meu pai lia para nós os livros de Eça de Queirós.

Acredito que todo trabalho criativo precisa partir de um elemento interno, construído desde a infância. No caso de Os Maias, uma obra-prima, com uma estética rica e extremamente inspiradora.

Para mim, ali já estavam presentes muitos símbolos, e detalhes visuais que dialogam perfeitamente com o desenvolvimento de uma coleção de joias.

De certa forma, tudo já estava lá, eu apenas tive a sensibilidade de captar a simbologia presente em cada cena e transformar tudo em peças únicas.

 

CH: A presença de suas peças no Oscar coloca a TC Jewelry diante de um público global. Como esse momento impacta a projeção internacional de uma marca autoral brasileira?

TJ: A TC Jewelry nasceu de um conceito à frente do seu tempo, que une cinema e literatura. Por trabalhar com temas universais, sempre foi natural imaginar que, em algum momento, a marca alcançaria destaque internacional. Ao longo dos anos, ela esteve presente em importantes festivais de cinema, como o Festival de Cannes e o Festival de Veneza, até chegar agora ao Academy Awards.

O impacto disso em uma marca autoral e simplesmente o reconhecimento do meu trabalho.

E isso e maravilhoso!

 

CH: O cinema aparece como uma das grandes inspirações do seu trabalho. De que forma a linguagem cinematográfica continua moldando o futuro criativo da TC Jewelry?

TJ: O cinema sempre será uma grande fonte de inspiração para o meu trabalho, mas não é a unica.
Gosto de explorar outras referências culturais e históricas.

No momento, por exemplo, estou desenvolvendo uma coleção inspirada na joalheria Art Déco e também na joalheria persa. São universos estéticos muito ricos e com grande potencial criativo.

Existem muitos temas fascinantes a serem explorados, e essa diversidade de referências é justamente o que continua moldando o futuro criativo da marca.

 

CH: O design brasileiro tem ganhado cada vez mais visibilidade no cenário internacional. Como você enxerga o lugar da joalheria autoral brasileira nesse contexto global?

TJ: Acredito que a joalheria autoral brasileira tem ganhado cada vez mais destaque no cenário internacional, e isso é extremamente positivo. O Brasil possui uma riqueza cultural e criativa forte.

Ver esse reconhecimento crescer fora do país é motivo de grande alegria, pois valoriza o nosso trabalho, a nossa arte.

Fazer parte desse momento é muito significativo e gratificante.

 

CH: Quando você cria uma nova peça, o processo começa mais pela narrativa, pela pedra ou pela forma? Como nasce, de fato, uma joia dentro do seu ateliê?

TJ: O meu trabalho geralmente começa com um desenho em aquarela, feito após uma conversa com a cliente. Esse momento é muito importante, porque procuro entender a história, o estilo e o que ela deseja expressar com a joia.

A partir dessa troca, desenvolvo um design exclusivo, todo criado por mim. Cada peça é única. A cliente pode escolher as pedras, o metal e o tipo de banho. Ela também leva para a casa o desenho feito por mim.

É um processo muito intimista, a criação de uma pequena obra de arte, e todo o trabalho é feito de forma artesanal.

 

 

 

CHRIS HERRMANN

 

 

 

Coluna Artheria Viva

 

 

 

 

 

Author

Chris Herrmann é escritora/poeta, musicista, musicoterapeuta, editora e webdesigner teuto-brasileira, nascida no Rio de Janeiro. Estudou Literatura na UFRJ, Música no CBM e pós-graduou-se em Musicoterapia na Universidade de Münster, Alemanha. Tem 13 Livros publicados (poesia contemporânea, haikai, romance, contos e literatura infantil); bem como participação e organização em inúmeras coletâneas de poesia no Brasil e exterior. Recebeu diversas premiações ao longo dos últimos 20 anos, como escritora, poeta, webdesigner e curadora de sarau. É editora-chefe da revista eletrônica Ser MulherArte (www.sermulherarte.com | @sermulherarte); articuladora do Mulherio das Letras na Lua (Grupo de Poesia ligado ao Movimento Mulherio das Letras); editora do Sarau da Varanda (@sarau.da.varanda) e Arthéria Viva (@artheriaviva) no Instagram. Desde Outubro de 2025, é editora-chefe e colunista do Portal ArteCult (www.artecult.com | @artecult).

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