
Coluna de Márcio Calixto

IArte – Chris Herrmann
OS BARULHOS DO SUBÚRBIO
Minha filha internou-se no Norte Dor, um hospital que divisa Madureira com Cascadura. O motivo de sua internação não vem ao caso. Quando em seu leito, que não foi o derradeiro, pude experenciar uma vez mais sons que em minha mudança para Zona Oeste (agora Zona Sudoeste) haviam desaparecido.
Áreas urbanas têm músicas particulares. A área onde atualmente moro é de um silêncio abissal, cortado apenas pelo futebol no campo do convento ao lado do condomínio. Sim, há um convento ao lado do prédio, nele há um campo de futebol com grama sintética e uma área para churrasco. Pouco usado por sinal. Moro perto de uma rua chamada Geremário Dantas, sempre engarrafada, lotada de ônibus e motos cruzando. Essa música urbana não é das mais aprazíveis. Só que me acostumei a ela. Principalmente agora andando de moto, as ruas ressignificam, tornam-se aventura. O som do motor monocilíndrico de 150cc é volumoso, rústico, batucado, espaçoso. Todo toque tenta trazer trote ao traço tonitruante do acelerador. Trova torta entre carros, tentação tanatológica, livre lavra-se a palavra felicidade. A moto ronca. Eu sigo. A Zona Oeste se faz na moto.
Pro Norte Dor eu também fui de moto. O pensamento em Sofia, eu não cantava com a moto, apenas pilotava. Peso no peito, pé no chão, filha inundando pensamentos e o medo tanatológico ao óbvio das existências. Eu não conseguia pensar em mais nada. Foi uma semana sem dar aula, chorando no canto morno de qualquer mundo o finito possível de minha filha. Depois de dias internada e os resultados melhorando, meus ouvidos recobram a alma ao feliz e eles voltam aos síbilos sutis dos dias.
Abrimo-nos. Uma persiana de alumínio renova e devolve a luz. As janelas não abrem, é parte fixa de uma esquadria que envolve todo o prédio. Porém, a luz passa e há sóis lá fora também. Da janela trancada como alegoria estética de um prédio, dá para se ver a Carolina Machado, o campo da light, o motel Classic e a linha do trem. Vejo Cascadura, que não aguentou os tempos do Século XXI e tem seus restaurantes tradicionais fechados. Vejo a linha do trem, quase sempre vazia, os trens que passam são poucos, estão sujos, viróticos, abandonados à própria sorte. Mas como é gostoso o ritmo desses trilhos. Eu havia esquecido dele. Quando morava no Engenho de Dentro, a zona norte sorria em seu fim. A Dois de Fevereiro era vivaz. O trem corta Madureira ao longo, a estação segrega, mas toca seu atabaque de bitola e dormente. Não se dorme nesse som, se nina e se encanta. É assim ao longo do dia.
A noite tem a tormenta dos tiros. Sempre tiros. Aflitos, indecentes, cariocas. Há décadas o cheiro de maresia reduziu-se ao cheiro de pólvora dos esquecimentos governamentais. Fechamos as persianas. Sofia dorme. Eu me ajeito para ir. Tenho outros filhos a colocar para dormir. Posso também fechar os olhos, pois todos os meus filhos uma vez mais estarão no dia seguinte. Seus breves roncos formatam meu subúrbio particular e meu tilintar de medos.
Volto a ter coração onde também durmo tranquilamente.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

Coluna de Márcio Calixto


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
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com Thereza Christina Rocque da Motta
















Meu querido Calixto, que texto reflexivo e adorável. Lembrei-me – e ainda me lembro – das minhas andanças por Cascadura, Jacarepaguá e adjacências. Entre ruídos e silêncios, o lirismo urbano à flor da pele. Parabéns!