
Coluna de Márcio Calixto

Arte digital com IA: Chris Herrmann
Quanto vale a vida?
Cheguei à meia idade. A idade do meio. Não a idade do medo. Sim, claro que tenho medo, medos, porém a idade não me deixou amedrontado. Consciente, talvez.
Por me colocar como pai de meia idade, penso nos meus filhos que têm idade e meia, mal nasceram, mas crescem. Bastante. A olhos vistos. Eu não cresço mais, apesar da interposição de minha silhueta. Eles é que realmente crescem. Penso em quem sou agora que tenho meia idade e me coloco como velho.
Volto à reflexão do uso do termo velho. Resgato uma vez mais meu pai, a quem sempre chamei de velho, até porque era do gosto dele. Inclusive, ele mesmo se impunha outros apelidos, como fonte financeira, carteira de nós todos e vários outros nesse sentido. Ele meio que se orgulhava em ser fonte dos filhos. No entanto, a vida não é só isso. Para meu pai, havia a questão de ele ser pai sem ter tido um pai. Aqui mesmo nessa coluna escrevi um conto imaginando meu pai no enterro de seu pai. Ele mesmo não leu. Ele não lê o que escrevo. Por isso, sei que de alguma forma o que escrevo agora não chegará até ele, talvez nunca. Meu pai era pai sem ter pai. Chamá-lo de velho era preencher esse espaço de lacuna absurda.
Já eu, sou velho que tem velho. E meu velho está vivo e sou velho com velho em referência. Adianto-me chamando-me de velho sem ainda ter alcançado a terceira idade, estando eu apenas na meia idade. Por que busco adiantar? Acredito haver aqui um desejo, que é o que tem me movido a escrever nesses últimos momentos. Deveria mesmo era escrever sobre política, sobre como a extrema direita tem buscado vitória em vários campos, esse deveria ser a minha maior tônica. Mas não. Tenho olhos para dentro nesse momento da vida. E quero conservá-los assim.
Não vou gastar minhas retinas, nem tão fatigadas assim, com essa claque que persevera de podridão. Não estou desatento. Só não quero olhá-los. O que quero olhar mesmo tem outro valor, outro sentido, um sentido e meio, que me vale mais a meia idade.
Olho para baixo, pés para fora do sapato, percebo que também a idade da meia se perfaz percebida. Preciso rejuvenescer, pelo menos, o que uso para tampar meus pés.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


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