
Uma verdadeira aula sensorial ao ar livre foi assistir ao espetáculo interativo “Abraça”, apresentado no Teatro de Bonecos da Tijuca, na Praça Xavier de Brito. A peça, com apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro, revela como a linguagem teatral, quando pensada para a infância, pode unir arte, educação e inclusão de forma natural e encantadora.
A personagem Bela, muito bem interpretada por Isabella Pellas, ao lado da delicadeza de Paty Costa, que manipula os bichinhos e os aproxima das crianças para que possam tocá-los, conduz a narrativa acolhendo os animais e seus sons. Entre eles, destaca-se a imponente cobra Cissa, com quase oito metros de comprimento, que se transforma em um elemento sonoro e visual de grande impacto.
A trilha sonora, cuidadosamente elaborada para o universo infantil, reproduz cantos de pássaros, ruídos da natureza e variações rítmicas que despertam a escuta ativa e a curiosidade das crianças. Cada som provoca reações imediatas nos pequenos, estimulando a imaginação e a percepção sensorial.
O grande diferencial pedagógico do espetáculo está na interatividade. As crianças podem tocar, observar de perto e acompanhar os movimentos dos animais. Esse contato direto favorece a construção de conceitos fundamentais da educação infantil, como cores, formas, deslocamento no espaço, coordenação motora e noções de movimento. O corpo aprende junto com o olhar e com o ouvido.
Além do impacto sensorial e estético, o espetáculo cumpre também um importante papel educativo ao estimular hábitos de higiene quando, por exemplo, a atriz simula um banho na cobra e nela mesma. Em outro momento, trabalha o abecedário com as crianças, reforçando o aprendizado das letras por meio da brincadeira e da musicalidade. A peça aborda ainda noções de educação ambiental ao mostrar a personagem recolhendo um papel do chão, ensinando, de forma simples e afetiva, a importância de cuidar do espaço coletivo e da natureza.
A presença da linguagem de sinais amplia ainda mais o alcance educativo da montagem, reafirmando o compromisso com a inclusão e permitindo que crianças com deficiência participem plenamente da experiência. O mais bonito é perceber que as outras crianças também passam a ensaiar os sinais, num momento em que o teatro cumpre sua função social de ser espaço de expressão, escuta e reconhecimento de todos.
O ambiente da praça potencializa o caráter lúdico e democrático do teatro. Adultos que passavam pelo local eram atraídos para o espaço central e permaneciam para assistir, interagir e se emocionar com a peça. Idosos, pessoas com deficiência e transeuntes eram convidados a participar da ação cênica. O espetáculo ainda possibilitou o resgate de brincadeiras tradicionais — como esconde-esconde, vivo-morto e estátua — fundamentais para a construção de laços afetivos entre as crianças e para a diminuição do uso excessivo do celular.
Na plateia, Floriano e Katia Salvaterra, colunistas do Portal Artecult, destacaram a experiência vivenciada:
“Para nós, os pontos altos do espetáculo foram o contato das crianças com os bichos e a linguagem de sinais. O espetáculo inclusivo explorou a experiência tátil, visual e auditiva das crianças. A audiodescrição foi muito importante para a compreensão do espetáculo, assim como o timing da exploração dos animais manipulados. As crianças passaram por diversas experimentações, participando o tempo todo. Destacamos ainda a oportunidade de ocupar espaços públicos e amplos, que possibilitam às crianças contato direto com atores e adereços do espetáculo. Como o próprio nome diz: ‘Abraça’ foi acolhedor.”
“Abraça” comprova que o teatro pode ser uma poderosa ferramenta pedagógica. Ao integrar som, movimento, narrativa, afeto e inclusão, o espetáculo promove uma aprendizagem significativa, despertando nas crianças o prazer de descobrir, imaginar e se relacionar com o mundo por meio do brincar.
Márcia Renault
Jornal Fala Criança
Prêmio Cultura Nota 10 – Chancela da UNESCO (2005); Magister em Excelência Educativa pelo Conselho Íbero-Americano (2004); referência na Semana Mundial da Mídia pela Infância (2006/2007/2008); finalista dos prêmios Itaú-Unicef e Prática de Gestão Local (2005); jurada do Prêmio Cultura Nota 10 (2007).









