
Continuando nossa saga de viagens pelo Brasil atrás das delícias típicas de cada cantinho desse país continental, nesse artigo a gente vai descobrir – e experimentar – os encantos capixabas, com sua rica tradição gastronômica, com influências indígenas, africanas e europeias. Lógico que não esgotarei o assunto, mas darei um panorama geral daquilo que se apresenta mais relevante e caracterizador dos sabores da região. Aproveitei que estaria na área de Vitória e Vila Velha para as festas de final de ano e decidi viver a experiência de provar in loco as iguarias que se tornaram símbolo do Espírito Santo.

Aqui, pro nosso ARTECULT, já escrevi matéria sobre a Bahia e alguns outros estados do Nordeste, já desbravamos a gastronomia da Estrada Real e de recantos do Rio de Janeiro e São Paulo. Mas acho que está na hora de começar a ampliar nossos horizontes, já que temos muita coisa ainda pra conhecer. Pretendo, por certo, visitar cada uma das regiões desse país atrás da sua cultura e gastronomia e vamos começar esse ano novo de 2026 com um novo estado, o ESPÍRITO SANTO, cuja bandeira, adotada em 1908, usa a cor rosa – única no Brasil que adota essa cor – simbolizando Nossa Senhora da Penha, junto ao azul (céu/mar) e branco (pureza), com o lema “Trabalha e Confia” em referência a Santo Inácio de Loyola, destacando a fé e o trabalho do povo capixaba.

Antes de tudo, acho válido começar falando da gastronomia do Estado:
A gastronomia capixaba é produto de muitas influências dos habitantes locais, como indígenas, portugueses, africanos e imigrantes europeus. A tradição pesqueira e a herança da cultura indígena e negra influenciaram profundamente a culinária capixaba. Com a vinda de imigrantes europeus, novos pratos foram acrescentados à cozinha capixaba.
Dos italianos, que exerceram maior influência, temos o anholini, o tortei, a sopa pavese, o risoto e a polenta. Dos alemães, recebemos uma culinária à base de batatas e carne de porco. Os portugueses deixaram sua marca com as delícias dos pratos à base de bacalhau, azeite, batata e doces feitos com ovos. Mineiros também trouxeram de suas terras pratos típicos, como o péla-égua e o feijão tropeiro.
Com a dificuldade de encontrar determinados ingredientes, receitas foram modificadas, ganhando um sabor bem brasileiro. Alimentos também foram surgindo: pães, bolos, tortas, doces, geleias, licores, queijos, ricotas e embutidos fazem hoje a delícia da culinária capixaba. Surgiram ainda o brote, típico pão alemão; o socol; a broa de milho; o bolinho de arroz; o bolo de aipim com coco; a papa de milho verde; o biscoito de nata e de polvilho; o pudim de leite; o arroz-doce; a cocada, o beiju, o cuscuz e a mentira. (fonte: https://descubraoespiritosanto.es.gov.br/segmento/gastronomia)
Não seguirei uma ordem cronológica, mas me pautarei pelo significado de cada prato dentro do contexto. E aí, dentro essa linha, o primeiro prato não seria outro senão a famosa MOQUECA CAPIXABA, prato emblemático do ESPÍRITO SANTO, feito com peixe fresco, tomate, cebola, urucum, alho e coentro. Vale ressaltar que o fato de não utilizar o azeite de dendê ou o leite de coco na sua preparação, o que a torna tão especial, reduzindo a gordura e a tornando mais única e saborosa, servida nas tradicionais panelas de barro, é o que a diferencia da moqueca baiana, existindo uma expressão popular na região que diz que “moqueca é a capixaba, o resto é peixada”. Esta frase traduz o sentimento dos capixabas pelo prato e, apesar de existir uma disputa acirrada entre uma e outra, o fato é que são duas receitas muito diferentes. Na minha modesta opinião, a capixaba privilegia enormemente o ingrediente principal, dando-lhe protagonismo, enquanto que a baiana foca na força do tempero peculiar e seu conjunto.
Pra esse prato, escolhi um restaurante localizado no coração do famoso “Triângulo das Bermudas”, chamado BILAC (@bilacbaroficial). Via de regra, as moquecas são servidas com uma moquequinha de banana da terra, pirão e arroz branco. Vale lembrar que a Lei Municipal 8.213/2012 instituiu o Dia da Moqueca no município de Vitória, a ser comemorado todo dia 30 de setembro.





Fui atrás de um outro prato, tão famoso para os capixabas quanto a moqueca e que, geralmente, é servido durante a Semana Santa, já que, na sua confecção, são utilizados diversos frutos do mar, como siri desfiado, camarão, ostra, além de bacalhau e palmito. A TORTA CAPIXABA, como é conhecida hoje e cuja história remonta a 400 anos, começou a tomar forma apenas no século XIX. Os portugueses já costumavam consumir frutos do mar e, devido à forte influência da Igreja Católica sobre o povo lusitano, a prática de não comer carne durante a Semana Santa era rigorosamente observada. Foi exatamente nesse período que os portugueses tiveram a ideia de adicionar marisco e bacalhau à mistura preparada pelos indígenas, nascendo, então, essa iguaria tão apreciada! Ela é preparada com uma mistura de vários mariscos (ostra, sururu, camarão, peixe, bacalhau) e vegetais como tomate, cebolas e palmito e todos esses ingredientes são assados e cobertos com uma camada esponjosa de ovos com cebolas e azeitonas, servidos em uma tradicional panela de barro, sendo certo que, como todo prato de expressão cultural, cada família tem sua própria interpretação, sua receita, embora exista uma base comum.


O restaurante escolhido, também localizado no “Triângulo das Bermudas”, foi o PARTIDO ALTO (@partidoaltorestaurante), fundado em 1983. E não decepcionou – tanto que já fiquei com vontade de tentar fazer minha versão… Aliás, tenho um amigo capixaba, o Schubert Ronconi (@schubertronconi) de uma edição do JOGO DE PANELAS, que – certamente – faz uma TORTA CAPIXABA divina – ou, como ele diz, DI POCÁ!!!!



Acho que vale também mencionar que existem diversas cervejarias artesanais provenientes de microcervejarias no Espírito Santo que possuem relevância e que têm ganhado cada vez mais espaço nas prateleiras de supermercados e no gosto dos consumidores. Pra que esse tópico não passasse em branco, fui atrás de uma dessas cervejas e encontrei a RONCHI BEER (@ronchibeer) que “nasceu da paixão pela cerveja e pela paisagem de Pedra Azul, ES, inspirada por experiências como a da Baden Baden em Campos do Jordão, crescendo para se tornar um ponto de encontro familiar, com reconhecimento em concursos e uma linha de produtos distribuída no estado, valorizando o bom gosto e a união de amigos em um ambiente único com vista para a montanha.
“Não conheci Pedra Azul, que ficou pra próxima visita, mas encontrei a cerveja…”

Fui em mais um restaurante no “Triângulo das Bermudas” – sim, fiquei hospedado lá na Praia do Canto, próximo dessa área fervilhante – e o escolhido da vez foi o PIRÃO (@restaurantepirao), um dos mais tradicionais de Vitória. com mais de quarenta anos de história.


Fundado em 1982 por Hercílio Alves da Silva Filho, o popular “Pirão”, falecido em março/2025, o restaurante manteve a personalidade que agradou aos mais diversos paladares – prova disso são as paredes do salão, repletas de fotos de Pirão com visitantes famosos, além de charges, autógrafos, prêmios e matérias publicadas em jornais e revistas.




Pra começar, pedi uma Moqueca de Banana da Terra que, normalmente, como já disse, é servida nos restaurantes como acompanhamento da moqueca tradicional, feita com bananas da terra maduras, tomate, cebola e coentro. Aqui, a banana foi preparada em tamanhos maiores e servida na panela de barro.


Foi só colocar o avental que eles fornecem – ora, a moqueca, se não tiver cuidado, pode fazer um grande “estrago”! – e iniciar, com vontade, os trabalhos…

Também pedi um petisco muito apreciado nas praias capixabas, a casquinha de siri, feita com carne de siri refogada em temperos, e uma porção de camarão pequeno empanado e frito, que é bem comum nos bares da região.



Foi legal conhecer a gastronomia praticada por nativos – e eu tive esse oportunidade, já que passei a virada de ano na Praia da Costa, em Vila Velha, e a anfitriã Mara (@rosimarabrambati), capixaba, preparou um arroz de frutos do mar – grande fundamento da culinária do Espírito Santo – que estava, simplesmente, sensacional! Uma curiosidade:
“No Espírito Santo, sururu e mexilhão são a mesma espécie, um molusco marinho muito apreciado na culinária local, especialmente em pratos como moquecas e caldinhos, sendo até considerado patrimônio cultural capixaba, mas sua captura e comercialização são proibidas anualmente durante o período de defeso (reprodução), geralmente de setembro a dezembro, para garantir a sustentabilidade, conforme regulamentação do IBAMA.“



Depois disso, ainda faltava conhecer o PEROÁ, também conhecido como “porquinho”, peixe muito frequente no litoral capixaba em virtude dos campos de algas caucárias (de formação rochosa) localizados na região. A superfície favorece à propagação e procriação do peixe, que pode ser encontrado em abundância no centro-sul do Espírito Santo, mais precisamente na faixa litorânea que compreende Marataízes e Aracruz. Eu sabia que era uma tradição comer peroá nos quiosques à beira-mar, porém tive pouco tempo e tive que me socorrer de aplicativo de delivery. Ainda que não tenha sido degustado no método tradicional, valeu a experiência…



Fiquei frustrado por não conseguir experimentar alguns outros pratos – seja por falta de tempo hábil, por não encontrar restaurante aberto ou disponível – como o Camarão no Coco Verde, a Caranguejada, Arroz de Siri, Polenta com frango, costelinha ou ragu de linguiça, pão de ló de coco, bolinho de aipim e picolé de abóbora, dentre tantas outras coisas. Tudo ficou para uma próxima visita. Mas, acredito, consegui ter uma visão geral da gastronomia capixaba, suas nuances e encantos e, de posse da panelinha de barro que trouxe na mala, posso – finalmente! – começar meus testes e experimentos…
Quem vem comigo?
Até a próxima viagem!











Muito bom conhecer a Gastronomia do Brasil pelos seus artigos Del !
Dicas sempre boas e histórias interessantes dos pratos .
Adorei !