ATARAXIA: use sem moderação

Serenidade – Ilustração ArteCult e CoPilot Designer

“Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco”.

(Epicuro: Sentenças Vaticanas #68[1])

 

Começo o artigo de hoje com o substantivo feminino ataraxia (αταραξία /ataraksía), que pode ser interpretado como “ausência de inquietação, impassibilidade, tranquilidade[2]”. Gosto de usar a definição no adjetivo: imperturbabilidade. Ou seja, uma qualidade e atributo daquele indivíduo que não se deixa perturbar. O grego em sua estrutura gramatical usa o alfa ( α ) antes de uma palavra como negação de seu sentido original. Neste caso, o alfa priva o sentido de agitado, perturbado. É um dos preceitos fundamentais do Estoicismo e do Epicurismo.

O estoicismo, uma das escolas do helenismo, surge com Zenão (336 a 264 a.C) de Cítio (cidade de Chipre), portanto um não grego. Segundo os historiadores, o cipriota chega a Atenas por volta de 314 a.C e se inicia na Filosofia como discípulo de Crates, da escola dos Cínicos[3]. E deste mestre leva, talvez, um dos preceitos mais fundamentais para sua futura escola do Pórtico: o homem sábio é aquele que vive em conformidade com a natureza (uma reverberação da aceitação, do autoconhecimento, da busca pelo equilíbrio e moderação). Zenão funda sua escola aos 42 anos num pórtico (substantivo feminino grego στοά porta ou pórtico) em Atenas, por isso a referência como filosofia do pórtico ou a escola da ‘Stoa’. Zenão viveu modestamente, rodeado por seus discípulos e sua escola era aberta a todos, semelhante à de Epicuro. Teve uma larga produção de textos, mas, de suas obras restam poucos fragmentos nos dias atuais.

Mares nada calmos levaram Zenão a Atenas. E dos mares agitados o cipriota aporta para fundar, anos depois, a Escola do Pórtico, de onde precisamente emergiram ensinamentos éticos atemporais e essenciais para um direcionamento de um bem viver. Ensinamentos como a ataraxia, o comedimento e a busca pelo autoconhecimento.

A escola do pórtico tinha outras ‘concorrentes’, como a Academia de Platão ou o Liceu de Aristóteles, além da Escola do Jardim de Epicuro. Mas, segundo Barnes e Gourinat[4]:

“durante a época helenística o estoicismo era, sem dúvida, a filosofia mais florescente, a mais viva, a mais inovadora em Atenas”. (p. 20).

A escola se difundiu e gerou profundas influências por outras regiões territoriais do império greco-romano, como Babilônia, Rodes e Roma. O efeito dos ensinamentos filosóficos deste período terá ainda um grande predomínio na Filosofia cristã que surge no século I. Por outro lado, a escassez e a perda de obras e referências bibliográficas dos pensadores deste período, ao contrário de escolas tradicionais da antiguidade clássica, causa-nos dificuldade de acesso ao que aqueles filósofos nos deixaram.

O estoicismo é comumente classificado em três períodos históricos:

  1. Estoicismo antigo: começa com Zenão, no século IV a.C e vai até Crisipo, no século III a.C;
  2. Estoicismo médio: com Panécio de Rodes como seu principal representante, no século II a.C.;
  3. Estoicismo imperial: que vai do século I a. C, com Sêneca e em seguida, Epicteto (século I e II d.C) até Marco Aurélio no século II.

Estes últimos, segundo Gazolla (1999),

“deram um tom profundamente aconselhativo às teses éticas da escola e são chamados de ‘diretores de consciência’”. (p. 23).

A ética é o legado mais importante e o que mais se destaca nesta escola, como reforça Reale[5]:

“a parte mais significativa e mais viva da filosofia do Pórtico não é a original e audaciosa física, mas a ética: foi, de fato, com a sua mensagem ética que os estoicos, por mais de meio milênio, souberam dizer aos homens uma palavra verdadeiramente eficaz, ouvida como particularmente iluminadora do sentido da vida, profundamente consoladora dos males do homem e libertadora das ilusões. Para os estoicos, assim como para os epicuristas, o fim do viver é a aquisição da felicidade”. (p. 72).

O estoicismo é uma escola muito plural e representativa, sobretudo na sua fase imperial. Deste período temos um filósofo-senador (Sêneca), um filósofo que foi ex-escravizado (Epicteto) e um filósofo-imperador (Marco Aurélio). Epicteto[6] (50 – 130) nasceu em Hierápolis, região da Frigia (hoje Turquia).

Zenão herdou de seu mestre Crátilo alguns princípios fundamentais que moldaram sua prática e vida filosóficas. Zenão passou a viver (após o naufrágio) uma vida bastante simples – desde hábitos alimentares até o modo de morar e de se vestir: uma vida sem excessos e comedida. O comentador Holiday diz em seu livro A vida dos estoicos[7], que “quando se descrevia alguém sóbrio, frugal e disciplinado, tornou-se quase proverbial em Atenas dizer:

“ele é mais moderado do que Zenão, o filósofo!’” (p. 28).

Eis aqui algumas palavras-de-ordem desta escola:

Resignação – paciência – escuta – reflexão – despojamento – nada em excesso – autoconhecimento…

Vinte e cinco séculos depois, estes são ainda ensinamentos estoicos válidos desde Zenão!

Decorrido tanto tempo, sabemos obviamente que não dá pra morar num barril como o fez Diógenes, o Cínico, para demonstrar o princípio de viver de acordo com a natureza e com simplicidade. Mas é bastante possível e muito provável vivermos com mais simplicidade e menos ostentação – de bens, de cargos, de posses que em sua boa parte custou muito sofrimento físico e psíquico e muito tempo, nosso bem mais precioso. Sobre isso a escritora Martha Medeiros, em sua coluna da Revista ela de 25 de maio diz :

“o fascínio pela opulência está desnudando o nosso vazio”. (p. 8).

Neste sentido nos diz o ex-presidente uruguaio Mujica:

“não compramos coisas com dinheiro, e sim com o tempo de vida que gastamos para ter esse dinheiro”.

Pepe tem determinados contornos de frases que refletem o modo como pensava e como vivia. Talvez um verdadeiro estoico latino-americano do século XXI.

As duas citações estão lado a lado a nos alertar e chamar nossa atenção para uma reflexão verdadeira sobre como estamos nos relacionando com o consumo, com o dinheiro e com o outro semelhante. O tripé da lógica do sistema liberal capitalista de produção – trabalho – consumo nos encurrala cada vez mais e mais. E por isso a necessidade de uma passa reflexiva para um autoquestionamento. Essas “compensações” à custa de bens externos não são duradouras.

Quanto sofrimento muitas vezes auto submetido para termos um item de última geração e que brevemente se tornará obsoleto? Quanto sofrimento para chegar a determinados cargos de trabalho, onde não há nenhuma garantia de permanência – afinal os cargos também passam? Falei até aqui de consumo, mas outra face deste problema é o individualismo, que corrói tantas relações de amizade e que merece ser explorado em outro momento.

Há ainda outra armadilha do sistema, desta vez na linguagem. E nós repetimos continuamente – sem nos darmos conta das suas consequências. É o que chamo de gavetas das compensações: ‘quando eu tiver isso, serei feliz’, ‘quando aquilo, serei feliz’, ‘quando aquilo outro, serei feliz’…É sempre um condicionamento material, onde a felicidade está sempre projetada (palavra que vem do latim, projectare: jogar pra frente). E assim seguimos indefinidamente, em busca desse ‘isso’ à custa de tantos malefícios pessoais, alguns deles irreversíveis, como exemplo os transtornos psíquicos que testemunhamos em nossos dias.

A realidade se dá à cada instante e não dá para ser postergada. Exige escolhas (olha aí o uso do senso crítico e nosso logos) e é pautada em aspectos múltiplos. Por isso é preciso (!) (re)aprender a viver sem ser norteado pelo desejo da ostentação, do excesso, do que não precisamos…Há um outro filósofo da antiguidade, Epicuro de Samos (século IV a.C), em suas Sentenças Vaticanas, que nos lembra justamente nossa condição transitória. E aqui cito três dessas Sentenças:

“Nascemos só uma vez, não é possível nascer duas vezes, teremos de não ser por toda a eternidade. Tu, porém, que não és de amanhã, postergas tua alegria; mas a vida se desperdiça com a demora e cada um de nós morre envolvido em seus afazeres”. (#14)

“Alguns gastam a vida preparando aquilo que é relativo à vida, não percebendo que ao nascer tomamos, cada um de nós, uma poção mortal” (# 30)

“Todos deixam a vida como se tivessem acabado de nascer”. (# 60).

São afirmações simples e diretas, como o filósofo costumava falar em suas aulas. E por isso deveríamos ter este permanente lembrete fixado à nossa frente. Para nos refrescar a memória da nossa condição e assim um possível redirecionamento de padrões de atitude e de comportamento. A filosofia helenística (onde estão inseridos Zenão e Epicuro) se concentra também nos problemas morais, comuns a todos os homens, em qualquer tempo.

E comum também para eles era o princípio de uma vida feliz: a aponia (não sofrimento do corpo) e a ataraxia (não sofrimento da alma). Dois substantivos gregos que podemos perfeitamente tentar usar em nossos dias. Uma vida feliz, diziam, é quando estamos com a alma tranquila, sem perturbações. Ensinavam eles também que enquanto cada humano estiver vivendo não precisa temer a morte e sim voltar-se para o aqui e agora. O tempo de agir, ser e pensar é agora e aqui – não havendo um devir. Um verdadeiro levante de pensamento e por isso, o indivíduo deve buscar realizar-se (satisfazer-se) neste tempo presente.

E por isso, como forma de aconselhamento indicativo, o filósofo de Samos nos fala para não deixarmos escapar este instante, como na Sentença número quatorze:

“Nascemos só uma vez, não é possível nascer duas vezes, teremos de não ser por toda a eternidade. Tu, porém, que não és de amanhã, postergas tua alegria; mas a vida se desperdiça com a demora e cada um de nós morre envolvido em seus afazeres.” (p. 23).

E assim, a ocasião propícia τό χαίρον (tó khairon) para a felicidade é aqui e agora. Porque não devemos sabotar o que temos à disposição. E com uso da razão, tentarmos uma resposta à pergunta feita na música O último dia, do compositor brasileiro Paulinho Moska[8]: “O que você faria se só te restasse esse dia? Se o mundo fosse acabar. Me diz o que você faria”. O que você faria?

ATARAXIA: USE SEM MODERAÇÃO!

 

ZAL

Zalboeno Lins (ZAL). Foto: Divulgação

 

 

 

 

 

 

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[1] EPICURO. Sentenças vaticanas. Tradução e comentários João Quartim de Moraes. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

[2] Dicionário Grego-Português (DGP), vol. 1, equipe de coordenação Deise Magalhães, Maria Celeste C. Dezoti e Maria Helena de Moura Sales. P. 141.

[3] A Escola de Filosofia dos Cínicos começou com o filósofo Diógenes de Sínope, na Ásia Menor (hoje Turquia), no século IV a.C. O nome da escola vem da palavra grega κύνης (kunes), que significa cachorro. Era a maneira que Diógenes dizia que deveríamos viver – de acordo com a natureza. Sem ostentação e com simplicidade.

[4] GOURINAT, J-B; BARNES, J. [orgs.]. Ler os estoicos. Tradução Paula S. R. C. Silva. São Paulo: Edições Loyola, 2013.

 

[5] REALE, G. Estoicismo, ceticismo e ecletismo: história da filosofia grega e romana v. VI. Tradução Marcelo Perine. 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2015.

[6] Segundo Dinucci (2020): “recebeu um nome comumente dado a pessoas dessa classe na Antiguidade, e que significa ‘adquirido’”. (p. 9)

 

[7] HOLIDAY, Ryan. A vida dos estoicos: a arte de viver, de Zenão a Marco Aurélio. Tradução Alexandre Raposo, Luiz Felipe Fonseca. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

[8] Billy Brandão e Paulinho Moska. O último dia. Rio de Janeiro: EMI-Odeon: 1995.

 

 

Author

Me chamo Zalboeno Lins Ferreira, mas pode me chamar de Zal.☺️ Sou graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento do RJ. Em seguida concluí o Mestrado em Filosofia Antiga, com Dissertação falando sobre o conceito da morte e vida feliz em Platão, Epicuro e Epicteto. E atualmente faço Doutorado em Filosofia Antiga pela UERJ, com o projeto de pesquisa sobre o conceito da morte e felicidade em Epicuro e Krenak. E nesta pesquisa, vou traduzir as Cartas de Epicuro do grego antigo para o português e anexá-las à Tese. Mais uma contribuição que fica das Cartas epicuristas. Também realizo palestras de temas de Filosofia, tanto para um programa interno da empresa onde trabalho, quanto para pessoas fora da organização. Semanalmente também apresento o Filosofia de Primeira, no Programa De Primeira Categoria da Rádio Itapuama FM (92,7) de Arcoverde (PE). Comento ideias e temas de autores de Filosofia em inserções de 4 a 5 minutos... É uma forma de deixar a Filosofia acessível para mais e mais pessoas, de forma simples, sem descaracterizar a ideia original do pensador. Mas acima de tudo, sou um grande admirador da Filosofia, como meio de nos resgatar do senso comum...☺️ Num direcionamento de uma vida feliz! Uma vida compartilhada! E por fim, como costumo repetir: sigamos em philía!

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