Em entrevista exclusiva no Teatro Adolpho Bloch, atriz e diretor compartilham o processo criativo do espetáculo que celebra a potência das cantoras negras brasileiras através de seis episódios musicais
O Teatro Adolpho Bloch recebeu o ArteCult para uma conversa reveladora com: Maria Vitória Rodrigues (@mvitrodrigues) atriz que encantou o público com sua interpretação de Alaíde Costa no episódio 3, e Gustavo Gasparani (@gustavogasparani), diretor geral e idealizador do espetáculo. O encontro descortinou não apenas os bastidores da montagem, mas também a profundidade de uma pesquisa que mergulha no racismo brasileiro através da música.
Conheça, nas próximas linhas, mais sobre esses dois grandes talentos brasileiros.
A metamorfose de Maria Vitória

Foto: divulgação
Maria Vitória Rodrigues é protagonista em três dos seis episódios do musical, um feito que exige uma bela capacidade camaleônica de transitar entre personalidades, épocas e estilos musicais distintos. Sua performance como Alaíde Costa (@alaidecostaoficial) tornou-se um dos pontos altos da temporada, tamanha a precisão na construção da personagem.
“Foi um trabalho minucioso de observação e imersão”, revela a atriz. “Estudei detalhes do gestual da Alaíde, a forma como ela se portava cantando, suas expressões faciais, a maneira única como ela trabalhava a voz. Não se tratava de imitar, mas de compreender a essência daquela mulher e trazer isso de forma verdadeira para o palco.”
A semelhança conquistada por Maria Vitória com a cantora vai além da caracterização física. Há uma entrega emocional que toca o público. Além de Alaíde Costa, a atriz também dá vida a Carmen Costa e Ludmilla nos episódios 1 e 6.
“Cada uma dessas mulheres carrega uma história, um contexto, uma luta. Carmen, Alaíde, Ludmilla – são universos distintos que dialogam através do tempo e da resistência”, complementa.
O ArteCult já havia explorado a força dessas vozes em matérias anteriores. Em “Vozes Negras: a força do canto feminino – espetáculo celebra cantoras e compositoras negras“, apresentamos a proposta do musical que ilumina trajetórias historicamente invisibilizadas. Posteriormente, em “Como Invisibilizar a Luz do Sol“, refletimos sobre os mecanismos de apagamento que tentaram – sem sucesso – silenciar essas artistas.
Gustavo Gasparani: o arqueólogo das vozes esquecidas e um diretor multifacetado

Foto: Divulgação
Se Maria Vitória é quem dá corpo e voz às cantoras, Gustavo Gasparani é o arquiteto que sustenta a estrutura conceitual do espetáculo. Sua pesquisa sobre cantoras brasileiras é extensa, mas ao focar nas vozes negras ele encontrou um fio condutor capaz de costurar não apenas uma narrativa artística, mas um retrato contundente do Brasil.
“A proposta dos seis episódios não é arbitrária”, explica Gasparani. “Cada episódio representa um período musical diferente e, consequentemente, diferentes expressões do racismo que essas mulheres enfrentaram. Do samba-canção aos ritmos contemporâneos, o preconceito se reinventou, mas a resistência dessas artistas também.”
Durante décadas, as cantoras representadas neste musical foram fundamentais para a construção da música popular brasileira, mas raramente receberam o reconhecimento devido. Suas histórias foram minimizadas, distorcidas ou até mesmo apagadas. ‘Vozes Negras’ traz o tona o protagonismo que sempre foi delas por direito.
Em “Matamos Saudades“, o ArteCult explorou como o espetáculo resgata além das canções, as memórias afetivas de um Brasil que insiste em esquecer suas raízes. Já em “Samba-canção: um estilo que não me apetece, mas me agradou“, mergulhamos nas nuances de um gênero musical que foi palco de algumas das maiores contradições raciais do país.
Uma das características mais inovadoras de “Vozes Negras” é a incorporação adaptada do Teatro Fórum, técnica criada por Augusto Boal, que revolucionou a forma de fazer teatro. Gasparani estudou profundamente o método antes de adaptá-lo ao espetáculo. O Teatro Fórum é uma ferramenta teatral interativa e participativa que visa discutir e encontrar soluções para problemas de opressão social.
No musical, essa técnica ganha uma adaptação particular: durante o espetáculo, há uma interrupção planejada para a realização de uma entrevista com uma personalidade de destaque no âmbito da luta por direitos dos negros e contra o racismo. Esse momento quebra a linearidade narrativa e convida o público a refletir sobre as conexões entre o passado representado no palco e as lutas contemporâneas.

Foto: Divulgação
Paralelamente a “Vozes Negras”, Gustavo Gasparani está envolvido em outros três projetos que demonstram a amplitude de seu talento artístico. Como ator, participa de “Nas Selvas do Brasil”, em cartaz no CCBB Rio, onde interpreta Marechal Rondon ao lado de Franklin Roosevelt, ex-presidente norte-americano, em uma narrativa sobre a histórica expedição pelo Brasil.
“É fascinante transitar entre diferentes funções e épocas”, diz Gasparani. “Estar no palco como ator me mantém conectado à essência do teatro, enquanto o trabalho de direção me permite uma visão mais ampla do que queremos dizer artisticamente.”
Como diretor artístico e autor do texto de “Fafá de Belém – O Musical”, Gasparani novamente se debruça sobre a biografia de uma grande voz feminina brasileira. E ainda encontra tempo para assinar texto e direção de “Espelho Mágico”, espetáculo que comemora os 60 anos da Rede Globo.
Ao final da entrevista, Gasparani nos presenteou com dois momentos memoráveis. Primeiro, uma performance vocal de Nelson Gonçalves que ganhou nossos aplausos e revelou mais uma faceta desse artista múltiplo.
Em seguida, ao encerrar nossa conversa, o diretor evocou uma palavra carregada de significado: “Evoé!”. A interjeição, que tem origem na Grécia Antiga e era utilizada para invocar o deus Dionísio (Baco) durante as festividades, ressoa como um grito de alegria, entusiasmo e celebração. No contexto teatral, “evoé” funciona como um “viva”, uma expressão de desejo de que tudo dê certo, evolua e prospere.
“Vozes Negras” é mais que entretenimento; é um ato político de memória e resistência. Ao longo de seis episódios, o público é convidado a uma jornada temporal que revela tanto a genialidade artística dessas mulheres quanto a violência do racismo estrutural que tentou silenciá-las.
Maria Vitória Rodrigues e Gustavo Gasparani, cada um à sua maneira, são guardiões dessas histórias. Ela, através da arte da transformação e da entrega cênica. Ele, através da pesquisa incansável e da curadoria sensível. Juntos, constroem um espetáculo que celebra as cantoras negras brasileiras, mas também exige que prestemos atenção na violência que as cerca.
Como bem colocamos em nossa primeira matéria sobre o espetáculo, tentar invisibilizar a luz dessas vozes é tão impossível quanto apagar o Sol. E “Vozes Negras” está aí para garantir que essa luz continue iluminando gerações.
Confira mais imagens das nossas entrevistas
- Atriz Maria Vitória Rodrigues
- Atriz Maria Vitória Rodrigues
- Atriz Maria Vitória Rodrigues
- Entrevista com a atriz Maria Vitória Rodrigues
- Entrevista com a atriz Maria Vitória Rodrigues
- Atriz Maria Vitória Rodrigues
- Atriz Maria Vitória Rodrigues
- Raphael Gomide e atriz Maria Vitória Rodrigues
- Raphael Gomide, Floriano Salvaterra e atriz Maria Vitória Rodrigues
- Musical Vozes Negras
- Entrevista com o diretor Gustavo Gasparani
- Entrevista com o diretor Gustavo Gasparani
- Diretor Gustavo Gasparani
- Diretor Gustavo Gasparani
- Diretor Gustavo Gasparani
- Diretor Gustavo Gasparani
- Diretor Gustavo Gasparani
- Diretor Gustavo Gasparani
- Livro “Nas Selvas do Brasil” – Theodore Roosevelt
- Ator Gustavo Gasparani ensaiando para o peça “Nas Selvas do Brasil” – CCBBRJ
- Peça “Nas Selvas do Brasil” – Atores Isio Ghelman e Gustavo Gasparani
- Peça “Nas Selvas do Brasil” – Atores Gustavo Gasparani (1o plano), Isio Ghelman (2o plano) e diretor Daniel Herz (ao fundo)
FICHA TÉCNICA
VOZES NEGRAS – A FORÇA DO CANTO FEMININO
Idealização e Direção Geral: Gustavo Gasparani
Dramaturgia e Roteiro Musical: Gustavo Gasparani e Rodrigo França
Direção Musical e Arranjos: Cláudia Elizeu e Wladimir Pinheiro
Com Analu Pimenta, Maria Vitória Rodrigues, Roberta Ribeiro, Vanessa Brown, Taty Aleixo, Chelle, Lu Vieira e Maria Ceiça.
E as Candaces (coro): Maria Antônia Ibraim, Amanda Rocha, Carolina Carsi, Daniela Dejesus, Jessica Santos, Nanda Santos e Neñega Bharbosa.
Pesquisa Histórica e Musical: Rodrigo Faour
Consultoria de Representações Raciais e de Gênero: Deborah Medeiros
Coreografia: Junior Scapin
Cenário: Mina Quental
Figurino: Wanderley Gomes
Desenho de Luz: Ana Luzia de Simoni
Desenho de Som: Gabriel D’Angelo e Joyce Santiago
Visagismo: Mary Santos
Diretores Assistentes: Marluce Medeiros, Menelick de Carvalho e Sueli Guerra
Produção de Elenco: Elenco Negro Casting por Mônica Nega e Gabriel Bortolini
Direção de Produção: Bianca Caruso
Direção Artística e Produção Geral: Aniela Jordan
Direção de Negócios e Marketing: Luiz Calainho
SERVIÇO
VOZES NEGRAS – A FORÇA DO CANTO FEMININO
- Onde: Teatro Adolfo Bloch
Quando: 04 de setembro a 12 de outubro.
De quinta a sábado, às 20h
Domingos, às 19h - Ingressos de R$ 25 a R$ 170
- Vendas em Ingressos aqui

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