UM ÚLTIMO CONFETE

Coluna de Márcio Calixto

Arte Digital com IA: Chris Herrmann

 

Um último confete

 

Final de Domingo. Também final de carnaval de 2025. Vou ao banho depois de todos os bailes em que pudemos ir. Com filhos, os bailinhos migraram para shoppings. Não são menos bailes, mas têm ar condicionado. Os espíritos cansados pelo tempo – e temperatura sufocante – se mesclam aos foliões juvenis, tão afeitos ao caos sistemático e plural do carnaval (mesmo em um shopping)

Tomo um último banho. Passamos o Domingo descansando. Precisávamos dormir e recompor os ossos para as labutas tradicionais do ano que irá se iniciar (sim, o ano começa depois do carnaval). Um lento café da manhã e uma xícara preguiçosa davam o nosso tom. Estávamos todos lentos. Não por dor ou breve nostalgia dos bloquinhos. Era a lentidão necessária. Meu filho mais velho tomava seu leite olhando a esmo. O mais novo mamava fitando os olhos fechados da mãe. Eu era as outras lentidões, vivo porque respiração é involuntária.

O tempo é modorrento. A televisão é modorrenta. Aos poucos o dia vai se colando de suas horas e, pronto, é noite. As crianças dormem. A esposa dorme. Me sobro no sofá. Penso na vida que há de voltar. Toda ela. Olho para a mochila que ficou esquecida esse tempo todo. Não mais nada o que fazer. Sigo-me ao banho. Final de Domingo. Era preciso acordar a segunda-feira que está guardada dentro de mim. O banho é lento também. Depois de muito me ensaboar, apareceu no chão do box um último confete. Ele não estava ali antes. Saiu de alguma parte de meu corpo que já havia tomado banhos depois de todos os bloquinhos. Um último confete ainda adornava o meu corpo. Desligo o chuveiro só para admirar aquela bolinha de papel branca. Um confete branco. Límpido. Impávido. Que também me olhava. Ficou dançando nas ondas que a água criava. Era um último baile, um último carnaval antes de sumir no ralo daquela água para segunda-feira. Suas idas e vindas eram bonitas. Me fez lembrar uma música. Uma marchinha. Sim, essa mesma que eu sei que também pensa agora.  Sim, essa mesma. É linda, não é ? Eu também acho.

 O último confete se vai, e com ele o carnaval de 2025. Sinto a segunda-feira no meu cangote. Só que eu assobio a marchinha. Ela está aqui, na lembrança do último confete, pedindo carnaval de 2026.

 

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação



Coluna de Márcio Calixto

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

2 comments

  • Leitura leve, nostalgicamente romântica lembrando alegria, diversão dos bailes carnavalescos que atingem faixas etárias diversas, com leve humor banhado de fadiga sonolenta com a certeza de um aproveitamento gostoso e saudável. O autor foi prático, sensato, agradável, acessível, sensível.

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    • Querida, como sempre você a me trazer esse retorno gostoso sobre meus textos. Muito obrigado, de coração.

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