
Foto: @hneryfotografia
Prólogo que eu não gostaria de escrever, mas é importante. Nesse mesmo fim de semana, estava em um salão, fazendo as unhas, quando ouvi de outra cliente a notícia de uma tia que perdeu a sobrinha de 22 anos após um suicídio. A moça deixou uma carta, para entendermos o motivo, entre eles, o preconceito da família quanto à orientação sexual dela. E o pior? A família estava feliz, em uma festa de casamento da filha hétero em menos de um ano do suicídio.
Não sei por onde começar a escrever sobre o espetáculo que não tem um arranhão, tudo está tão bem alinhado, tudo harmônico, um mergulho delicado em um tema tão complexo para nossa sociedade…
Dentro do programa, li frases que chamaram minha atenção: “O ano é 1960. Uma peça de teatro debate um beijo entre dois homens. O ano é 2025. Uma peça de teatro anuncia um beijo entre dois homens. O ano é 2040. Uma peça de teatro…?”
“Essa Peça Tem Beijo Gay”, eu confesso que minhas expectativas não eram as melhores, não gosto de clichês, muito menos de apelações, o que acontece com frequência em muitos espetáculos que abordam o tema. E fiquei surpresa com o que apresentaram à plateia. Afirmo que há poesia em pequenos gestos, os corpos em cena nos trazem um teatro elegantíssimo e maduro, isso sim.
Sinopse A partir de um conflito central envolvendo dois personagens — uma foto de beijo circulando nas redes sociais — o texto se abre para novas camadas, flertando com a autoficção, trazendo conflitos comuns aos autores, sobretudo a partir de suas origens em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. A dramaturgia problematiza como a visão da sociedade sobre os corpos dissidentes interfere nas vidas e formas de se colocar no mundo.
O flerte é um enlace com a dramaturgia do Nelson Rodrigues “O Beijo no Asfalto”, muito bem executada.
Sinopse A obra versa sobre um ato de misericórdia (um beijo na boca dado a um homem por outro homem na hora de sua morte) e suas repercussões na sociedade. Um repórter sensacionalista e um delegado corrupto fazem do ato um escândalo social, abalando a reputação de Arandir, que diz ter atendido o pedido do moribundo, levando a uma exacerbação dos sentimentos que conduz a um trágico e surpreendente desfecho.
Detalhe: na obra atual, dezenas de caixas de cigarros vazias são jogadas no palco, me fazendo lembrar de Nelson, o que julgo tão importante essa memória ou homenagem. “Protesto em nome da família brasileira”, gritou um espectador na estreia de “Beijo no Asfalto”. Fernanda Montenegro, que ligava insistentemente para Nelson em busca de um texto, foi agraciada com uma personagem da dramaturgia. Durante a estreia, Nelson (o sacana) tinha encontros com sua amante Lucia, que também era casada. Mas o problema era o “beijo gay”. “Essa Peça Tem Beijo Gay” esteve em temporada no Sesc Tijuca, que está localizado no bairro do Andaraí, onde morava Nelson Rodrigues com a esposa. E mais: durante a temporada da peça, Nelson dividia com Fernando Torres o receio de ser demitido do jornal “Última Hora”. Quantas coincidências…
Um texto contundente, que desliza muitíssimo bem na boca dos artistas e, como um passe de mágica, nos tornamos reféns deles, dos artistas e da dramaturgia desenhada por dois artistas gays, casados na realidade, fora do palco. E estão ali com decência, sem nenhuma fragilidade, muito pelo contrário, são robustos e conscientes de que existe um público com interesse em assisti-los.
No lobby do teatro, um rapaz dizia: “nunca os vi beijar em público, só isso é um acontecimento”, e como ele também posso dizer que, embora eu os conheça, nunca vi essas trocas de afeto em público.
Falo de dois artistas que são periféricos e oriundos da academia, de entrega ao conhecimento. Quem os acompanha sabe bem que ambos trabalham para o teatro, seja como pareceristas, jurados de prêmio, produção e tudo que está ligado às artes cênicas. Já aprendi com os dois, e lições que guardo para a vida, que inclusive a minha forma de escrever tem um pouco do que eles me ensinaram.
Leandro Fazolla é um artista competente, sólido, é o rapaz que teme a exposição de um beijo com o parceiro em uma foto postada na rede social, no que resume a demissão do personagem. Leandro é mais contido no espetáculo, trazendo equilíbrio e seriedade. Leandro é um estudioso do teatro, fura bolhas, rompe barreiras com o seu trabalho, defende a periferia e acredita nela. Foi com ele que entendi que o verdadeiro intelectual se faz entender por todos e não somente por uma classe elitizada. O artista, durante a temporada, chegou para os exercícios na academia apenas de chinelos, o que comprova que um trabalho com afinco causa consequências em nossas vidas, mas que trazem resultados totalmente satisfatórios.
Já Rohan é um personagem mais leve e com toques de comicidade equilibrada, não extrapola em nenhuma frase que traz ao texto, definindo bem o espetáculo, o motivo da existência dele. Há fogo nos olhos do artista, sapiência no seu fazer cênico, confesso que fiquei muito feliz com a beleza da atuação. E deixo claro que não curto a comicidade que, quando não bem feita, torna-se idiota, o que não é o caso. O personagem é desafiador e questiona o sistema, o preconceito, sem receio, levantando bandeira. Ele está muito bem no papel.
Ambos construíram o texto, e gostei muitíssimo quando o personagem do Leandro faz uma breve análise da obra de Nelson: “caramba, não era para a notícia ser um serviço à sociedade? E não algo que não diz nada?” — não foram exatamente essas palavras, mas algo nesse sentido. Um beijo gay é motivo de matéria de jornal? Não! No entanto, acontece, e muitos boçais ainda respondem a essa besteira. Aff… O texto é genuíno, escrito por quem vivencia o preconceito, isso é enriquecedor, usam os termos certos, que eles conhecem.
Os figurinos são contemporâneos, nada que chamasse atenção, nem era necessário, as indumentárias vestem dois personagens de hoje, do agora. Flávio Souza foi objetivo.
A iluminação da Ana Luiza é genial. O Teatro II, no Sesc Tijuca, é pequeno, intimista, o que combina com a obra, tudo fica gostoso de assistir. E dentro desse espaço, Ana apresenta sua arte com maestria. Afinal, a premiadíssima profissional soube atuar com precisão, atenção e sofisticação.
A trilha sonora é da BÈA AYÒÓLA, está refinada, extremamente bem-vinda aos ouvidos, um bálsamo. Impossível não mencionar.
Maurício Bispo assina a cenografia, pertinente para o espaço, divide o pequeno espaço muitíssimo bem e dá um toque no final com uma certa ganância de querer mostrar-se bom — e o fez — prendendo o casal gay, deixando-os como a sociedade gostaria que ficassem: encarcerados.
A direção? Vem de outro premiadíssimo, Dadado de Freitas, profissional que atua no Rio e em São Paulo. Ele e os idealizadores conseguiram seguir com as intenções de texto e cena com qualidade, transformando-as em um espetáculo que merece estar em muitos palcos. Porque não faz um ano que uma moça se jogou de uma janela, e muitos outros se jogam por preconceito — e não temos conhecimento…
A peça não está mais em temporada, mas estará, por ter vasta qualidade e refinado esmero em sua montagem.
FICHA TÉCNICA
Idealização, dramaturgia e atuação: Leandro Fazolla e Rohan Baruck
Direção artística e supervisão dramatúrgica: Dadado de Freitas
Direção de movimentos: Maurício Lima
Direção Musical: Bèá Ayòóla
Cenografia: Maurício Bispo
Figurino: Flávio Souza
Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni
Direção de produção: Stephany Lopez
Produção Executiva: Nilda Andrade
Assistente de Produção (acolhimento de PCD): Fran Dutra
Intérprete de LIBRAS: Claudia Chelque
Operação de Luz: Rafa Domi
Fotografia: Higor Nery
Gestão de Redes Sociais: VB Digital – Diogo Nasi e Victor Braga
Assessoria de Imprensa: Marrom Glacê Comunicação
Coordenação de Projeto: Leandro Fazolla e Rohan Baruck | RBARUCK

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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