SOBRE TER FILHOS QUE MUITO SE PARECEM COMIGO

Coluna de Márcio Calixto

 

Sobre ter filhos que muito se parecem comigo

 

Os amigos já sabem que eu tenho 3 filhos. Deles já comentei aqui na coluna, sou pai há 18 anos, Idade que tem a minha mais velha. Depois tive o zero Dois, hoje com 8 anos. Agora há o terceiro, com 2 aninhos. Os traços físicos deles, com o tempo, foram se singularizando. Sofia tornou-se longeva e magra, com volumosos cabelos castanhos. Arthur já se mostra parrudo, de braços largos e mãos bem desenhadas. Suas pernas, já parecem de corredor. Théo ainda um neném. No entanto, suas pernas grossas e mãos muito ativas somados a um sorriso constante se mostram presentes. Mesmo de mães distintas os três, todos eles vieram muito parecidos comigo.

Peço que não façam aqui uma leitura sobre força genética. Sabemos que foi a sorte das seletividades que os fez parecidos comigo. Ao olhá-los, também me olho. É impossível não pensar desse jeito. Revisito-me quando os vejo. Amo a singularidade de cada um. Sofia em seu desprendimento e foco. Arthur em seu desejo ao desenho. Théo que apenas quer mamar, claro, dois aninhos apenas. Sua mãe busca de todas as formas encontrar-se nele e atender essa constante demanda.

Não sei se é normal entre casais, mas a disputa por semelhanças físicas é um embate saudável a meu ver. Não é uma briga pelo filho. Isso fica no campo das varas familiares. Com o nascimento de Théo, meus outros dois filhos me afirmavam que ele em nada se assemelhava comigo. “Pai, ele é todo Tia Juliana”, dizia a minha mais velha, puxa saco de minha esposa. Tive de apelar. Saquei uma foto das antigas: eu, com sete meses, no colo do meu pai. Era o meu garoto todinho. Murchei a minha esposa.

Derrotada, passou a reclamar. Cria-se aquela briga gostosa, de provocação. Prefiro, nesse processo, a revisitação. No crescimento de Sofia, relembro dos meus desejos à vida. Memórias e exercícios tão íntimos me voltam com naturalidade. O que parecia esquecido, perdido no mundo das adultices, retornam com a volúpia da época. Me vejo de volta jovem, com 17 anos. Mochila nas costas. Já sendo professor enquanto ainda um rapaz do 3º ano. Eu rascunhando ideias sobre o futuro. Agora, em que nele estou, meu presente são filhos.

Em outro momento, me voltam as palavras de minha mãe quando do seu retorno ao passado. Naquela época, apenas mãe de um, ela diz que Arthur fez o mesmo que eu fazia: observar, sentar-se em um canto e desenhar. Arthur desenha com maestria ímpar para alguém com tão pouca idade. “Marcio Fernando, você era assim também”.

Me move um desejo de alimentar nele essa ânsia pelo desenho. Ele é meticuloso. Tem calma. Tenacidade. Quer a perfeição do traço. O que já faz para o desenho não o faz para a caligrafia. São motivos diferentes. Memórias me voltam. Desenhei com profusão até os meus 14 anos. Foi nessa época que descobri os livros. Saí do universo dos quadrinhos e fui aos poucos migrando para as palavras. Letras de músicas também me moveram a esse mundo. Passei a ler muito. Foi a mudança na adolescência. Se Sofia hoje me faz revisitar o início de minha vida adulta, Arthur me fez revisitar minha alma em construção. E como ele, em sua seletividade vocabular, me reforça esse retorno. Por viver essa era de tecnologia, o tablet fornece uma educação material quanto a recursos para o desenho que apenas hoje eu conheço, não foi falta de protagonismo meu ao desenho, foi falta de recursos financeiros. Mesmo depois que passei a ganhar salário, não entrei em grandes papelarias para estudar tipos de lápis. Eu fui às livrarias. Trouxe até para os meus filhos um ensinamento que absorvi de uma entrevista do Leo Jaime, quando afirmou que tinha um acordo com seu filho, “Aqui em casa não falta dinheiro para livros”. Digo o mesmo aos meus. Nossa casa tem muitos livros. E quero que comprem sempre. É um vício gostoso. Sofia passou a despontar agora aos livros. Arthur não larga de seu tablet de desenho. Eu me maravilho.

Penso que agora tenho de dedicar um parágrafo só ao Théo – meus filhos são ciumentos – e sei que nem leem o que escrevo. Um dia será Theozinho, e sei que vai me cobrar. Porém, o que vejo nele é uma cópia em trejeitos. Dorme fazendo as mesmas posições. Ainda estamos em descoberta e descobrimento. Seus olhos, sua forma de abraçar. Ele desembaraça o mundo, eu descubro a felicidade.

Tudo fora de suas cobertas. Lembro de meu pai, que hoje passa o dia com sua neta. Uma vez me afirmou que o melhor da vida é ser avô. Se soubesse que era tão bom ser avô, o teria sido antes de ser pai. Ele lembra muito de mim em meus filhos. Será que já estou próximo de ser avô? Prefiro deixar a vida fluir na sua lentidão.

 

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

 

Márcio Calixto | Foto: Divulgação



Coluna de Márcio Calixto

 

Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.

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