
Imagem: Chris Herrmann/ferramenta de IA
SER EDITOR REQUER CORAGEM
Pode ser que dê tudo certo, mas também pode dar tudo errado. Quando se começa a fazer um livro, não sabemos o que vamos enfrentar. Na verdade, nunca se sabe.
Pode ser que chova no dia do lançamento. O papel pode ser cortado errado. A impressão pode não ser adequada para imagens coloridas. Tudo tem que estar nos conformes. Se não estiver, algo pode dar errado. E aí não se tem mais o que fazer.
Ninguém nos diz antes que ser editor é uma atividade de risco. Arriscamos tudo, até de o livro não vender o esperado. Aprendi a ser editora, sendo. Aprendi o que poderia dar errado, depois que o erro aconteceu. Acumulei uma série de erros ao longo do tempo. Dos mais execráveis aos mais memoráveis. Eles podem acontecer a qualquer hora. Erro não manda aviso, mas acende um alerta. Se um livro começa errado, vai errado até o fim. Mesmo na hora de vender. É importante, por isso, tomar certas precauções para não deixar o autor (e o livro) incidir em erro. Se o autor for principiante, então, as rezas têm que ser dobradas. Sim, porque é preciso rezar muito para os erros não nos pegarem.
Monteiro Lobato nos avisa que as gralhas são sacis que nos põem a língua quando não as pegamos a tempo. Mas o livro tem a paciência de esperar até que todos os erros sejam pegos. Por isso, não podemos apressá-lo. Cada livro tem o seu tempo.
Assim, quando chegamos ao fim e tudo deu certo, temos que erguer as mãos aos céus e exclamar: Amém! Este livro escapou de todas as perseguições que as publicações, em geral, sofrem. Aceitamos, por exemplo, alguns erros passáveis, porque nenhum livro é feito sem erros (salvo raríssimas exceções).
Já vi de tudo e sempre aparece algo que nunca aconteceu antes. Pode acontecer erro na diagramação, na impressão, na revisão, na troca de arquivo (pegar um no lugar do outro), e isso acontece a qualquer um, autor, editor, revisor, tradutor, diagramador e impressor. É impressionante como sempre somos pegos de surpresa por algo que seria impossível prever. Então, quando NADA ACONTECE ERRADO, temos que agradecer mil vezes por isso.
Parte pode ser culpa do autor, parte do editor, parte do revisor, parte do tradutor, parte do diagramador, parte do impressor e, quando todos os erros se somam, ocorre uma tragédia! Ninguém está isento ou imune a erros. E ainda tem a turma do “sem querer”, “não vi”, “não sabia”, “não entendi”, “esqueci”. Livro perfeito só Deus. E para provar que não somos Deus, existem os erros.
Certa vez, um autor me disse que eu fazia revisão com bisturi: foi o maior elogio que eu poderia receber de alguém. Eu caço erros como se fossem praga. Reviso, até não encontrar mais nenhum. Habituei-me a ler em computador e não só no papel. Não dá para imprimir tudo para fazer revisão. Já passou esse tempo. A tecnologia avançou o suficiente para que não tenhamos mais que depender do papel. Poupem as árvores!
Ainda acontece uma mágica quando se olha uma prova virtual e ela se abre exatamente em cima de um erro que deixamos passar! Aí, dizemos: “Parem as máquinas!” Volta tudo atrás para se trocar apenas aquela palavrinha digitada errado. Então, fomos salvos no pulo! O pior é quando o erro passa e ninguém viu!
Já enfrentei vários tipos de erro, como o do erro que volta. Faz-se a correção num arquivo, imprime-se uma segunda tiragem corrigida e quando vai-se fazer a terceira, algum tempo depois, descobre-se que o erro voltou! Mas, como? Após um breve levantamento, constata-se que o arquivo corrigido, ou foi deletado, ou não foi salvo na pasta, ou se perdeu numa troca de computadores. Isso pode acontecer também.
Os erros que me perdoem, mas não tem editor que não tenha pesadelos com eles. O segredo é pedir que eles se mostrem. Assim ficará mais fácil acabar com eles.
Thereza Christina Rocque da Motta
Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 2025
Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)










