
IArte – Chris Herrmann
SALVOS PELA PALAVRA
Se me contassem, eu não acreditaria, mas creiam, publicar e falar sobre livros toma um tempo enorme das nossas vidas. Já toquei violão, fui bailarina, professora de inglês e advogada, e hoje só tenho tempo para escrever, traduzir e publicar livros.
A atividade editorial toma todo o meu tempo disponível e o restante, se eu conseguir fazer, será por obra e graça do Divino Espírito Santo. Quando não estou pensando num livro, estou fazendo, senão revisando, traduzindo ou lendo um livro!
O que faço no meu tempo livre? Leio livros. O que faço para me distrair? Vou a uma livraria atrás de mais livros. E quando não faço nada disso, sento para tomar um café com um livro nas mãos.
Diriam que é uma obsessão e concordo: é. Mas, se eu fosse jogador de futebol, estaria o dia todo com uma bola no pé. Assim, não surpreende que eu só pense em livros: é o que eu faço. E sobre o que eu falo? Livros.
Como advogados, engenheiros e médicos, que só falam sobre sua profissão e raramente falarão sobre outra coisa. Para ser perfeito no que se faz é preciso dedicar-se de corpo e alma. Alma e corpo amalgamados, pois só uma carne envolvendo um espírito pode suportar a pressão de fazer o que mais se gosta.
Pode ser assim em outras profissões, afinal, ser atriz, modelo, fotógrafo, diretor, pintor, escultor não deve ser diferente, mas só posso falar da minha, e digo que é como cachaça: não se larga.
Publicar tem a ver com a perpetuação da vida. Aquilo que publicamos, fica. O que escrevemos, continua vivo. O que pensamos, colocamos no papel e imprimimos, permanece.
Houve um poeta que disse que ele não servia para fazer nada, senão pensar nas coisas, pois, afinal, alguém precisa pensar sobre elas. E o editor pensa o livro. Não só pensa, como faz com que ele nasça. Elabora-o, até o menor detalhe, pensa em tudo que ele deve conter e, não satisfeito, ainda fica feliz em contar para todo mundo o que ele fez.
Todo mundo tem um pouco do bicho-carpinteiro de editor. Todo mundo já sonhou em publicar um livro, ou pensou seriamente em fazê-lo, mas nem todo mundo leva esse intento até o fim. Claro, não é para qualquer um. É preciso ter nascido para isso. Como um escriba, como um monge copista, um rato de biblioteca. Esses vivem para os livros e os livros viverão dez mil vezes para eles.
Assim me lembro de Jorge Luis Borges, Pablo Neruda, Gabriela Mistral, Cecília Meireles, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Henriqueta Lisboa, Manuel Bandeira, Cora Coralina, todos devotados a livros em suas mentes, todos irmãos solidários das causas perdidas, poetas, escritores do acaso, irmãos de uma coisa única, que é a palavra.
Clarice, Hilda e Pessoa: eis uma tríade, uma trindade. Para quem escreve, lê-los é importantíssimo. Machado de Assis, José de Alencar, Alphonsus de Guimaraens, Cruz e Souza.
Leiam, leiam tudo, para que, no dia em que lhes faltar palavras, possam encontrá-las ali, no mais recôndito poema, no livro mais escondido e nunca mais esquecê-las.
Thereza Christina Rocque da Motta
Março de 2026
Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)


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