
Coluna de Márcio Calixto

IArte – Chris Herrmann
QUANDO UM FILHO DESABA
Quando um filho desaba, o pai também desaba. Escrever tais palavras me apresenta um novo grau de humanidade com que eu ainda não tinha vivido. Ao mesmo tempo, em plena comemoração do Dia dos Pais, eu não teria minha filha comigo.
Foi com ela que aprendi a ser pai. O didatismo de seu nascimento me foi fundamental para entender o poder da vida. Nascer é crescer, quando nascemos, nada podemos entender da vida a não ser vivê-la. Agora, quando fazemos nascer, tudo sucumbe e questões particulares de tristeza se perdem, se minimizam e se passa a viver a vida fazendo aquela vida viver. Esse é o poder do filho. Essa é a significação do pai. Meu amor pela paternidade, aliás, triplicou. Sendo pai de três é puro deleite. Porém, quando um filho desaba, o pai também desaba. Foi com esse sentimento que lidei quando minha filha foi internada no fim de semana do Dia dos Pais. Seria o primeiro em que não teria os 3 juntinhos. Dessa vez, eu não teria a primogênita, aquela que me apresentou a paternidade.
Sua internação veio como um baque. Por que ela seria internada por algo tão simples? Com o desenrolar dos exames, a cara dos médicos não era convidativa. Prefiro, obviamente, aqui não expor o que se desenrolou, até para não gerar gatilhos contemporâneos, mas vi diante de mim a temporalidade de minha Sofia. Confrontado com isso, desabei. Como assim, minha filha, uma jovem mulher com apenas 18 anos pode te um diagnóstico tão pesaroso? Quando Arthur quebrou o cotovelo, aos 7 anos de idade, pensamos na naturalidade de um menino de pouca idade e muita energia em se machucar sério. Sua cicatriz é um reflexo de uma decisão errada, que não coloca a sua vida em risco. Sofia estava finita à minha frente. Desabamento.
O ano de 2025 já era de muita sensibilidade pelo desencarne de Preta Gil, aos 50 anos. Não tem como não se colocar no lugar de Gilberto, seu pai, que já lidou em sua história com a perda de um filho de 19 anos. Retornei ao início de minha carreira, época em que eu dava aula em um cursinho pré-vestibular na Tijuca e duas alunas morreram em um acidente de carro logo que saíram de uma micareta no Centro do Rio. Carlos Drummond também lidou com a perda de sua filha, não conseguindo viver com essa dor. Sofia finita não é algo com o qual quero lidar. Nunca. Pais são finitos. Avós são finitos. Filhos nunca. Deveria haver alguma lei divina que proibisse essa possibilidade. No entanto, Deus criou as leis da física, da biologia e sua fidelidade a elas é inquestionável. Cabe a nós, os que sentem dor, estudar todos os meandros para os barbitúricos da sobrevivência. Vivemos na melhor época da humanidade no que tange qualidade de vida e ter minha filha, em um quarto de hospital e não sob domínio da curanderia exótica e medieval me aquece o coração.
Em um dado momento, hoje, enquanto estava em casa ruminando tristeza e mascando esperança, passava em um canal de TV chamado Gringo um filme de faroeste de Bud Spencer. Nesse filme, aprece uma cena que é digna de filme em mover esperança e sonho humanos. Há um menino que é filho do personagem de Spencer. Alimentado pela suposição através de uma carta de um possível tesouro deixado pela avó, ele tenta comprar um potro. No caminho de retorno, o menino, sozinho, é picado por uma cobra. O menino sobe no potro que milagrosamente o leva à casa onde o pai está. Lá há um antídoto para a cobra e um tratamento, que consistia em colocar batatas cortadas na sola do pé. Pelo decorrer da obra, não dá dois dias e o menino está plenamente recuperado. Pela realidade, aquele menino não teria chances. Sabemos hoje que um antídoto lega bem mais tempo para atuar, até realmente ter efeitos positivos. Ao mesmo tempo, a vítima ainda lidará com inchaços absurdos e grotescos. Nada do que aquele menino sofreu. Cinema em seu esplendor, o filme me fez pensar na minha filha. O tesouro, inclusive, era algo nessa percepção sobre família. A título de curiosidade, o filme se chama Os Encrenqueiros.
Minha filha e meu filho, quando tratados em um hospital, tiveram um acesso ao melhor que a medicina moderna pode oferecer. Arthur hoje consegue ter movimentos plenos. Eu ainda escrevo sobre minha filha internada. Aqui na cantina do hospital, saboreando o sonho de sua saída plena. É com ele que me recomponho aos poucos passivo, possível, pai.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

Coluna de Márcio Calixto


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo
com Thereza Christina Rocque da Motta
















Meu amigo Calixto, sua crônica/poema me deixou intensamente comovido, não só pelo contexto, que me levou às minhas perdas, emocionais e físicas, mas, igualmente, pela maneira bela e quase leve com que você a constrói, diante de um tema tão forte e intranquilo. Com certeza, tarefa para bons escritores. Por aqui, fica meu coração com você e com a Sofia. Abraços fraternos