PRIMEIRO, OLHA-SE A CAPA…

Arte digital com IA | Chris Herrmann

 

PRIMEIRO, OLHA-SE A CAPA…

 

Das várias fases de construção de um livro, a mais intrincada, depois da escolha do título, é a concepção da capa. Este foi um tema sugerido pelo poeta Tavinho Paes (1955-2024), um selfmade editor & publisher, que fez uma carreira paralela à de poeta e letrista, além de compositor incomparável de marchinhas de Carnaval.

A capa é 50% de chance de um livro ser comprado. Os outros 50% estão em seu conteúdo, mas a capa é 100% responsável por fazer alguém pegar um livro para olhá-lo e, depois, ao abri-lo e ler o texto, o comprador se convence de que encontrou algo “único” e o compra sem pestanejar.

Nesse quesito, a capa é o elemento mais importante: sem ela, ninguém nem nota o seu livro. Fica misturado aos demais, sem se destacar na livraria. Depois que o texto fica pronto e revisado, e o título já foi escolhido, aí, sim, a criação da capa entra em ação. Costumo usar um fator determinante, que aprendi na minha primeira aula de “Teoria Geral do Direito”, no 1º ano da faculdade: “A definição não pode conter o definido”.

Assim, por exemplo, no livro de contos, A mulher, a pedra, de Laura Esteves, eu não poderia colocar uma estátua de mármore com a forma de uma mulher na capa por ser óbvio demais. Tinha que buscar outra representação que não contivesse os elementos citados no título. Saí em busca da minha mulher “sem ser de pedra” para colocar na capa do livro, e encontrei um Modigliani belíssimo, nas cores quentes preferidas da autora (amarelo, laranja e vermelho), que estava num livro que comprei no antigo sebo Livros, livros e livros, em Ipanema.

Quando pensava as capas, tinha de entrar em meditação profunda, que, às vezes, me ocorriam enquanto fazia outra coisa: eu estava num concerto, na Sala Cecília Meireles, quando “vi” as letras vazadas com as águas do Rio Hudson por baixo, para a capa do livro Poemas de Nova York, de André Gardel. Eu havia passado aquela tarde na gráfica, ao lado do capista, resolvendo o enquadramento da foto, e não tínhamos conseguido terminá-la. Fiquei de voltar para continuar e fui ao concerto: no meio da execução de uma música de Villa-Lobos, meu cérebro distraído “encontrou” a solução que eu vinha buscando conscientemente num momento de relaxamento. Voltei no dia seguinte à gráfica e disse ao diagramador como eu queria a capa: uma das melhores que já fiz, com foto de Paulo Batelli da Ponte do Brooklin, só que vista do outro lado (todo mundo ficava procurando as Torres Gêmeas que não existiam mais). O livro foi lançado um ano depois do 11 de Setembro, em 2002 (como editora, eu sou meio jornalista).

Só descobri que sabia fazer isso (e não precisava de um capista senão para executar o que eu havia imaginado), quando “enxerguei” a capa, no momento em que Ricardo Ruiz me mostrou a foto que ele queria para seu livro Poesia profana. Todo o restante foi feito a partir daí.

Hoje, trabalho do mesmo modo: a partir da capa. Os designers têm que me apresentar a capa primeiro, mas nem sempre é fácil. Eu sei que tenho que gostar no momento em que olhar para ela.

Tem que produzir o mesmo efeito que terá sobre quem a vir na livraria: um impacto imediato. Cada livro tem esse segredo: encontrar a melhor capa – e aí dou minha receita: é aquela que faz com que não imaginemos outra melhor. Se quisermos melhorá-la em qualquer coisa, não é a capa certa. A certa é insubstituível.

E este é um consenso que deve surgir entre editor e autor, que terá de aprová-la; sim, porque, afinal, a capa está sendo feita para ele. E não há satisfação maior senão “ver” a capa que o autor não viu, mas ser aquela que ele quer embora ainda não saiba. Nem sempre o autor sabe qual é a melhor capa para o seu livro – e o próprio livro terá de “dizê-lo”, e a capa será refeita tantas vezes quantas forem necessárias até acertar.

Um livro começa pela capa. É a primeira coisa que se olha. E que influencia diretamente a mão do leitor para pegá-lo. E, se ele o abrir e o texto for bom, está feito: ele comprará o livro.

 

Thereza Christina Rocque da Motta

Janeiro 2026

 

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

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