
Coluna de Márcio Calixto

Arte digital com IA: Chris Herrmann
Por um segundo caderninho
Passei o dia pensando em meus charutos. Há anos os fumo. Guardo um carinho pelas anilhas que os identificam, pelo menos as marcas deles. Pensei em fazer um quadro, colá-los em alguma forma que pudesse organizá-los. Veio-me de novo a ideia de um caderninho.
Esse mesmo caderninho em que hoje escrevo essa crônica. Vejo o que hoje escrevo como crônica. Papo para depois. Fico pensando no motivo de querer outro caderninho para organizar os charutos que fumei? Há um desejo de produzir tudo o quanto antes. Fumar charuto nunca me deu senso de urgência. Um novo caderninho, sim. O que me acontece?
Pensar nessa coluna para o ArteCult tem me movido. Escrever me move. Há anos. Fumar um charuto não me move. Me deixa estático. Como o livro a ser lido. Eu o quero para aquele momento em que muito preciso de mim. Vou ao livro quando quero me encontrar. As histórias que leio, de qualquer natureza, servem para esse processo de autoleitura. O charuto me ajuda a me ler. O livro também. Quando estou escrevendo, não é para essa terapia para dentro, é para fora, para o desejo à produção. Pode-se fazer uma leitura aqui que sei que me é plausível até pela palavra de amigos escritores: quando leio me vem o desejo de escrever. Ler e escrever têm intimidade em mim. Poucos amigos me dizem que só fiam na leitura. Diga-se de passagem, esses amigos que só leem não escrevem. Eles vivem uma liberdade que não tenho. E o charuto?
Costumo fumar e não ler um livro. Claro que há momentos em que fumar e ler se fundem. Nem sempre. Agora quero colocar num caderninho os próprios charutos. Acredito que há mais o desejo de um segundo caderninho mesmo. Só isso. Acendo um charuto, penso em pegar a chave da moto é ir à papelaria. É preciso escrever sobre os charutos.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


Coluna de Márcio Calixto










Crônica interessante! Divagou entre as letras escritas e o charuto fumado. Só com criatividade para colocar dois termos adversos. Um nos faz pensar e agir escrevendo. O outro nos faz sentir acender o charuto e divagar nos pensamentos olhando aquela fumaça circular que propositadamente expelimos e rimos porque é encantadora! Mente criadora.