Os irmãos Timótheo da Costa: Descobrindo nomes e histórias do Brasil

 

Desde quando comecei a escrever para o teatro, tive a oportunidade de aprender a descobrir nomes e descortinar o mundo. Essa é a grande premissa que deixo como prólogo para esta escrita.

Sinopse

Em cena, Irene, vivida por Jeniffer Dias (indicada ao “Prêmio Potências”, em 2022, por sua atuação na série do Globoplay “Rensga Hits”), é uma pesquisadora contemporânea empenhada em escrever uma peça sobre os irmãos Timótheo da Costa, de quem ela ouviu falar uma vez e nunca esqueceu. Ao pesquisar suas vidas, ela descobre que, como tantos outros personagens negros, eles foram apagados da história e quase não há material sobre eles — apenas um pesquisador que focou na obra, e não na vida dos irmãos. Irene vai desvendando suas histórias e chega à realidade do negro pós-abolição na então capital federal, ao racismo da Belle Époque carioca, à hipocrisia da sociedade racista e à epidemia de doenças mentais que atingiu pessoas pretas entre o final do século XIX e o começo do século XX.

 

Pillar, um diretor que posso apontar como vertiginoso, ele é provocador.

O trabalho dele que me levou a escrever laudas em forma de crítica foi “Na Palma da Mão”, que contava a história da poderosa Lecy Brandão. Agora ele chega com mais um pérola: Os irmãos Timótheo da Costa.

Em 2022, conheci também Estevão Silva, outro pintor negro que teve a vida artística ameaçada diversas vezes por ser de grande importância para a época, também reconhecido como precursor do modernismo no Brasil. Por que foram apagados? Porque eram negros — e negros no Brasil sempre foram tratados com descaso. Agora, parece que o Brasil está cada vez mais negro, e as histórias estão voltando, recolocando as coisas no lugar.

Na verdade, não queremos desmerecer Tarsila, Portinari, Anita. Apenas dar visibilidade àqueles que a história teimou em apagar. E é assim que o espetáculo chega: com a missão de fazer esses irmãos entenderem que ainda estamos aqui.

O que dizer de um espetáculo dirigido por Pillar? Penso que o mais importante a ser dito foi o respeito que ele teve pelos artistas, os Timótheos. Primeiro, por convocar profissionais cênicos e criativos de peso no cenário teatral, muitos premiados ou indicados — e isso, por si só, já merece o olhar de críticos, público e jurados.

Depois, a obra é elegante, refinadíssima. Nos mostra que Pillar teve o cuidado de dar a esses artistas o que mereciam. O respeito do diretor é perceptível, como uma mãe que cuida da chegada de recém-nascidos.

Uma direção forte, que atua em campos diferentes: com licença poética e também com a necessidade de dizer o que é o Brasil em relação aos negros.

 

A iluminação de Dani Sanchez expressa a riqueza dos corpos em cena. Um desbunde de iluminação. Dani é parceira de Pillar — assim foi também em Lecy — e demonstra uma sensibilidade riquíssima. Parece entender da luz sol e da lua, da luz das estrelas e dos cometas.

Ela mesma me falou sobre a quantidade de gravações na mesa de luz até chegar naquela margem de perfeição. Para mim, uma das melhores.

 

Claudia Valle parece ter falado ao coração de todos os dramaturgos. Quando escrevemos sobre alguém com o coração, sonhamos em tê-los por perto, queremos ouvi-los mais — os personagens tornam-se próximos. Só quem escreve sabe.
E quando isso é transformado em cena… as lágrimas descem.
As minhas desceram. Como eu quis falar com Maria Felipa, pedir desculpas pelo apagamento…
Desceram também quando o artista Luciano Aquino desce a escada dizendo que artistas misturam cores e tudo pode acontecer. A alma do artista estava ali, naquela fala.

Temos que agradecer pelo teatro silencioso, sem risos fora de hora. Estávamos diante de fatos duros demais. Pela primeira vez, fiquei feliz em estar em um teatro para a classe. Acho estranhíssimo quando amigos de artistas riem sem motivo. Acho esdrúxulo!

 

O vídeo design e as projeções trazem os quadros, belíssimos. Adorei conhecer as obras de perto — valeu muito a pena ter acesso a essa história. Plínio Hitt e Alan de Souza, gratidão por uma colaboração ética e potente.

 

Muato… tenho até receio de comentar. Falamos de um profissional que cresce como fermento no pão, que mexe estruturas. Neste espetáculo, soube criar mixagens elaboradas. Ele gosta do diferente, não é repetitivo e preza pela elegância. Mesmo com um currículo extenso, parece manter o mesmo sorriso de sempre. Sua musicalidade acompanha essa grandeza.
Batidas, erudito — tudo se ouve, tudo encanta.

 

Outro nome que precisamos reverenciar é Cachalote, pelo seu Prêmio Shell deste ano. A engenhoca de cenário que construiu poderia ser coisa de doutor — e ele é. É preciso entender a dificuldade de chegar nesse lugar. Quando chegamos, não ganhamos luxo, mas ganhamos um fardo de conhecimento e responsabilidade.
E ele chegou.
Cachalote faz acontecer — e fez neste espetáculo. Tive a sensação de que a estrutura eram gaveteiros de arquivos sendo abertas. Projeções, iluminação, cenas — tudo acontecia como uma orquestra nessa estrutura, em perfeita ordem.

 

Figurinos elegantes, bem colocados. A época parece ter sido bem pesquisada, dos sapatos aos chapéus. Um diálogo entre passado e presente. Excelente trabalho de Rute Alves.

 

E o elenco?

Jeniffer Dias, Luciano Quirino, Lucas da Purificação, Sérgio Kauffmann e Pablo Áscoli.

Jeniffer e Lucas têm química e constroem o espetáculo sem pecar.

Luciano Quirino traz sua trajetória e experiência, ocupando espaço com sua voz e olhar. Irrepreensível.

Pablo Áscoli me surpreendeu: leve, interessante, jovial.

E então, Sérgio Kauffmann.

Mais uma vez me conquistou. Tem um trabalho corporal e expressivo que conduz a cena com naturalidade. Sou fã. Ele olha para a plateia e nos captura. O teatro parece ter carimbado seu destino. Ele me lembrou umas palavras da Fernanda Montenegro ao Amir Haddad quando fala sobre a construção de um personagem. Quando se destrói a medula violentamente a procurar incansável da estrutura criativa. O personagem me fez chorar, Sérgio me fez chorar através da sagrada busca dele.
Há uma cena em que seu personagem enlouquece em uma estrutura metálica, é devastadora. A dor nos atravessa.

 

E nesse mesmo momento que resume o espetáculo: quando a memória insiste em permanecer viva através do irmão em uma dramaturgia visceral, recusando o esquecimento do outro. Ali, dramaturgia, iluminação e direção se encontram com força total.

Haja coração.

Obrigada por trazerem essa história.

Obrigada ao CCBB por tanto.

A arte e a educação estão mais vivas do que nunca.

 

Ficha Técnica:

Apresentação: Ministério da Cultura e Banco do Brasil
Diretor de Produção e Artístico: Luiz Antônio Pilar
Assistente de Direção: Estela Silva
Dramaturgia: Cláudia Valli
Elenco: Jeniffer Dias, Luciano Quirino, Lucas da Purificação, Sergio Kauffmann e Pablo Áscoli
Atriz stand in: Estela Silva
Produção Executiva: Thaís Cairo
Direção Musical e Composições Originais: Muato
Figurinista: Rute Alves
Cenógrafo: Cachalote Mattos
Iluminador: Daniela Sanchez
Vídeo Designer: Plínio Hit
Projeção Mapeada: Alan de Souza
Designer de Som: Vilson Almeida
Músicas de Henrique Alves de Mesquita
Interpretadas pelo Art Metal Quinteto
Trompete: Jessé Sadoc
Trompete: Wellington Moura
Trompa: Antonio Augusto
Trombone: João Luiz Areias
Tuba: Eliezer Rodrigues
Músicos Instrumentistas: Felipe Oládelè, Márcio Sorriso, Muato
Assistente de Produção: Sandro Carvalho
Preparador Vocal: Pedro Lima
Preparador Corporal: Estela Silva
Equipe de Cenografia
Assistente de Cenografia: Joyce Oliveira
Assistente de Cenografia: Leandro Mattos
Cenotécnico: Marcos Souza
Contrarregra: Felipe Mattos
Contrarregra de Cena: Sandro Carvalho e Feliphe Afonso
Equipe de Figurino
Assistente de Figurino: Ana Silva
Alfaiate: Leonardo Ramos e Alex Leal
Costura: Emerson Viana, Joanice Penna e Darlan Kroger
Visagista: Andrea Bordadagua
Chapelaria: Denis Linhares
Camareira: Erika dos Santos
Operador de Multimídia: Alan de Souza
Operador de som: Moisés Cardoso
Operador de luz: Guilherme Trindade
Assessoria de Imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha
Fotografia Artística: Luiz Antonio Pilar e Plínio Hit
Fotografia de cena: Kessis Sena
Designer Gráfico: Pedro Pessanha
Coordenador de Mídias para Internet: Mozart Jardim
Realização: Governo do Brasil e CCBB

 

SERVIÇO

Os irmãos Timótheo da Costa.

De 19/03/2026 até 19/04/2026. Quinta 19h, Sexta 19h, Sábado 19h e Domingo 18h
Duração 90 minutos
Valor R$30 (inteira) / R$15 (meia)
Região: Centro / Rio de Janeiro
Teatro / Espaço:  CCBB RJ – Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro. Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro/RJ – 20010-000

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

 

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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