OS ERROS QUE NOS ASSOMBRAM

Arte digital com IA por  Chris Herrmann

 

OS ERROS QUE NOS ASSOMBRAM

 

Ninguém gosta de errar. Mas errar é humano. Então, como escapar do erro? Existem dois tipos de erro: o negligente e o inadvertido. O inadvertido é o que não quisemos cometer, mas que “passou” por atos falhos, esquecimentos, brancos, distrações. Tem gente que literalmente escreve no piloto automático, porque o cérebro está dormindo. É preciso despertá-lo. E existem os erros negligentes. Estes são mais sérios. Não é que a pessoa “quis” errar, mas a preguiça falou mais alto. “Ah, você entendeu”. Quem erra por negligência, comete um ato culposo, porque não teve a intenção de fazê-lo, mas errou mesmo assim. Não estudou o suficiente, torceu que ninguém visse, ou seja, não se dedicou a “não errar”.

Não errar exige prática. Uma vez que ninguém é perfeito e errar é humano, temos que fazer um esforço enorme para superar a “faixa de erros”. Temos que prestar atenção redobrada e não dormir no ponto. Gosto de pensar que não existem erros e, sim, “tentativas de acerto”. Ninguém quer errar, porque, se quisesse, seria um crime. Mas errar sem querer é justamente o erro que não se quis cometer e errou mesmo assim.

Certa vez, um autor me disse que eu revisava “com bisturi”. Há muito, me dedico a não errar. Procuro estar atenta nas revisões, traduções, copidesques e cotejos. Mas existe aquele erro que sempre nos assombra, que os olhos não veem. Revisando há tanto tempo (45 anos, exatamente), descobri que quem escreve não quer errar, mas colabora com o erro por não prestar atenção ao modo como escreve e, quando alguma dúvida o assalta, não corre para o dicionário, nem acredita na intuição avisando-o do certo. Já estudou isso, tem uma vaga lembrança, mas fica com preguiça de checar e deixa para depois. Porém, não volta para corrigir o texto e o erro fica lá.

Pior são aqueles que querem desculpar os erros alheios, dizendo que “era muito difícil”, ou que “não tinha como saber”. Este é um assunto muito delicado, que não podemos falar em aberto, sem sermos taxados de muito exigentes, já que “todo mundo erra”.

Os erros sempre vão nos assombrar, mesmo que não queiramos errar: para se desculparem dos erros, na Idade Média, inventaram o Titivillus, o “diabo dos erros ortográficos”. Afinal, temos que colocar a culpa em alguém, em vez de prestar mais atenção. Se eu não puder corrigir os meus erros, tenho que contratar uma Revisora Escarlate para eliminar todos os que cometi inadvertidamente, seja por esquecimento ou distração.

Quem publica livros é assombrado todos os dias por erros de revisão. Porque é muito fácil errar. Eu também erro. O dedo pode escorregar no teclado e sair uma letra fora do lugar ou faltar um S. Desde que aprendi a datilografar, os erros já me assombravam. Quando passei a digitar, a correção nem sempre era feita a tempo. É o eterno tormento dos que vivem da escrita, da revisão e da tradução.

Aprendi, ao longo dos anos, como corrigir originais que vinham de todo jeito. E depois me dizem que não gostam de ser corrigidos! Se isso fosse verdade, por que erram tanto? Por que não estudam como se escreve? Ninguém nasce sabendo escrever. A escrita é uma conquista civilizatória. É preciso aprender.

Escrever sem erros é um lento aprendizado. Os mais velhos diziam que, para saber escrever bem, temos que ler livros muito bem escritos.

Lembre-se: errar é humano, mas querer acertar é divino.

 

Thereza Christina Rocque da Motta

Janeiro 2026   

 

 

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

One comment

  • Os erros sempre vão nos assombrar. Mas para quem escreve é essencial evitá-los. Muito bom o seu texto Thereza.

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