OS DEZ MANDAMENTOS DO LIVRO

    Arte Digital com IA: Chris Herrmann

OS DEZ MANDAMENTOS DO LIVRO

 

1º MANDAMENTO DO LIVRO

 

Releia seu texto até a exaustão, até não querer mudar mais nada. Enquanto isso não acontece, não se colocou o ponto final no livro. Esse processo pode acontecer durante o período de edição, não é sacrilégio, mas é preciso lembrar que a revisão só termina quando não se quer mais mexer no texto. Aí, sim, ele estará pronto. A pressa em editá-lo macula a edição. Algo vai acabar saindo errado. O tempo é o melhor fazedor de livros – e o livro sabe o seu tempo e, por isso, é preciso respeitá-lo.

 

2º MANDAMENTO DO LIVRO

 

Tenha paciência com o tempo do livro. Ele tem seu próprio tempo. Ele leva o tempo que quiser. Não basta vontade para escrevê-lo. Lembre-se que a ideia foi dele em virar livro. Agora espere ele se fazer, sozinho. Escreva, escreva, escreva, esteja sempre à disposição. Quando ele estiver pronto, você saberá. Se tentar apressá-lo, vai virar um monstro, tudo dará errado. Dê tempo ao livro para dizer o que e como ele quer ser feito, sem tentar conduzi-lo. Ausculte-o para saber o que ele diz e ele lhe dirá, nem que seja em sonhos.

 

3º MANDAMENTO DO LIVRO

 

Pesquise, não chute. Nada que estiver no livro pode ser falso. Você pode fantasiar, imaginar, mas mentir, nunca. O livro vai lhe passar uma rasteira se fizer isso. Pesquise a fundo os assuntos, leia tudo sobre eles, mergulhe nas conversas sobre os temas, compre tudo o que encontrar sobre o que está escrevendo. Mesmo que não leia tudo, terá à mão quando precisar. E quando tiver certeza, duvide: você ainda não sabe tudo sobre o que está escrevendo. Cheque, cheque tudo, ortografia, nomes e datas. Se escrever uma palavra em outra língua, olhe no dicionário. Não chute, senão o livro chuta você.

 

4º MANDAMENTO DO LIVRO

 

Peça a opinião dos amigos. Estes são seus primeiros leitores, eles saberão quando algo for bom, mas não se fie só na opinião deles. Ouça e medite a respeito. Quando não souber o que fazer, espere. Espere que a resposta venha do acaso, lendo outros livros, uma matéria de jornal, ouvindo uma notícia na televisão. Em geral, quando escrevemos sobre um assunto, tudo o que tem a ver com ele começa a surgir de várias fontes, ocorrem coincidências incríveis só para ajudá-lo a continuar escrevendo.

 

5º MANDAMENTO DO LIVRO

 

O livro não é uma coisa, é um ser. Um ser de papel, que pensa, acha, sente, dá opinião e reclama. Um livro dura muito mais tempo do que seu autor, portanto, ele tem o dom da permanência. Enquanto não se molhar, nem for queimado, durará uma eternidade. Um livro sabe a que veio e, enquanto não satisfizer suas vontades, não virá a lume, não será impresso, porque ele sabe exatamente onde, como e por quem quer ser feito. Por isso, não empurre. E ele mostrará o caminho.

 

6º MANDAMENTO DO LIVRO

 

Se a história for boa, escreva um livro. Todas as histórias existem para serem contadas. Desde os primórdios, os homens são narradores de si mesmos e, não contentes, querem que todos conheçam esses relatos. Por isso, o livro passou a existir, para substituir o narrador, que não poderia mais se valer apenas de sua língua. Se a história for boa, escreva. Um dia eu disse: “Se de tudo restar um poema, vale o poema”.

 

7º MANDAMENTO DO LIVRO

 

Não fique convencido. Você não fez nada sozinho. Um livro é a somatória de todas as forças que o fizeram escrever seu romance, conto, crônica ou poema e publicá-lo. Para isso, existe o espírito do livro, a musa da poesia, os anjos da escrita, as inspirações ancestrais. Ninguém escreve sozinho, então, o mérito não é só seu, nem se publica um livro por si só. Todas as forças do Universo se unem para esse propósito. Atenda-as. O Universo agradece.

 

8º MANDAMENTO DO LIVRO

 

Não conte sobre o que vai escrever, senão a inspiração vai embora. Essa lição é do romancista imortal Antônio Torres: não fale sobre o que quer escrever; escreva, senão a mente pensa que você já se desincumbiu da missão. Escrever exige concentração absoluta sobre o assunto e total discrição. Você pode mostrar o que já fez, mas não fale sobre o que quer fazer, senão não conseguirá fazê-lo. Trabalhe sozinho, mas mostre apenas o que fez. Assim, todos saberão que você está trabalhando e ficarão à espera do livro.

 

9º MANDAMENTO DO LIVRO

 

Escolha um bom título. O título é a porta de entrada do livro. Com ele, você abre todas as trancas e entra em todos os lugares. Ninguém esquece um bom título, mesmo que nunca tenha lido o livro. Ele é o coeficiente de aquisição da obra. Com ele, as pessoas não se esquecerão que seu livro existe.

 

10º MANDAMENTO DO LIVRO

 

Sempre carregue seu livro. É a única forma de assegurar que o leitor verá o livro e, eventualmente, irá comprá-lo. Não tenha vergonha de vender o que você escreve. Se não souber vender o próprio livro, quem venderá? Quanto mais gente souber que ele existe, mais pessoas falarão dele e terão vontade de comprá-lo. A divulgação é a mola do negócio.

 

Thereza Christina Rocque da Motta

Março de 2026

 

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

2 comments

  • Que bonito Thereza ! Uma vida plena, com tantos títulos e com tanta galhardia… Parabéns ! Quando for oportuno, gostaria de brindar, bebemorar ao seu Sucesso ! ✨✨♥️

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