
Imagem da Faixa de Gaza antes da criação do Estado de Israel (1948)
Oriente-se! Orientemo-nos!
“O Hebraico é uma catedral construída com antiguidades.”
Amós Oz
(1939-1918), escritor e jornalista israelense
Li a seguinte pergunta, em artigo para a Folha de S. Paulo (Caderno Ilustrada, 16/10/23, página C6), do filósofo Luiz Felipe Pondé e que retrata boa parte do pensamento mainstreaming (ou seja, dominante) vigente em vários meios sociais e amplamente reproduzido por parte da grande mídia corporativa. O filósofo, exercendo o seu direito, que reconheço, de se posicionar a favor do Estado de Israel em sua empreitada de defesa (desde já, concordo, legítima, em parte, mas escancaradamente desproporcional e sim, genocida na forma que assumiu) contra a agressão (covarde) do grupo Hamas (que, é bom frisar, o que parece por vezes esquecido, para muitos, não representa a maior parte do povo palestino, nem sua mais legítima causa, a de ter, finalmente, seu Estado reconhecido, tão negado que tem sido, notadamente, por Israel e pelos Estados Unidos), iniciou seu texto com certa ironia: “Como seria o mundo dos judeus sem Israel? Esta é a intenção do Hamas: a extinção de Israel”. O professor segue na ironia com uma resposta recheada de passagens como estas:
“A Palestina, agora livre do colonialismo judeu, poderá se tornar uma bela democracia sob a batuta do Hamas” ou como esta “Bolsas de estudo seriam dadas aos muitos defensores da resistência anticolonialista”.
Como nem tudo o que reluz é ouro, vamos à reluzente ironia do professor Pondé, cujos artigos, inteligentes e muitas vezes, bem fundamentados (noves fora deboches um tanto infantis, como adorar chamar quem pensa diferente de “inteligentinhos”, sem perceber que se mostra igual a quem deseja ironizar) acompanho com regularidade, embora discorde em boa parte das vezes (para ser absolutamente sincero, na maior parte das vezes). Não tenho a pretensão de rebater o texto, ponto a ponto, mas de aproveitar o tratamento irônico de tema tão sensível e relevante, para conversar um tanto com a querida leitora e com o caro leitor, sobre o tema, atualíssimo, diga-se de passagem.
Muita gente acha que o mundo não vai aguentar se a sua opinião, sobre qualquer coisa que seja, não for emitida. Já cantava Raul Seixas (1945-1989) que é melhor ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha (e carcomida, não raro) opinião sobre tudo. Bastantes dessas opiniões são abalizadas, porém, uma miríade delas é vazia, volátil, direcionada conforme biruta de aeroporto, baseada em pouca informação, equivocada por estar eivada de ideologia radical ou simplesmente, é falsa, com a concordância de quem as emitiu. Como não se deixar impregnar pela caoticidade vigente?
A opinião geral é a de que o grupo Hamas é terrorista e que o ataque que realizou, em território israelense, foi terrorismo, sem mais, e ponto final e que ele justificaria todas as ações subsequentes dos israelenses. Em contrapartida, também é dito que o Estado de Israel, atenção, que um Estado Nacional, fortemente armado, têm o direito de se defender, com armamento pesado, de um grupo de militantes individuais com ações, sim, terroristas, mas com força bélica bastante mais reduzida, tanto em quantidade quanto no potencial de mortalidade. Voltemos um pouco no tempo. Considero sim, o Hamas, um grupo de terroristas que deve ser combatido. Porém, o que está sendo feito, e não é de hoje, pelo Estado Nacional de Israel, com forte apoio de pequena parte da comunidade internacional, notadamente dos Estados Unidos, transcende a legítima defesa, que, uma vez mais, deve ser garantida a todos – a todos os lados. Como dizia vovó, caldo de galinha e, complemento, um pouco de História e de Geopolítica, não fazem mal a ninguém.

Cidade de Israel
O Sionismo, movimento que fundou o Estado de Israel e que o conduz, na sua vertente mais extremada, à direita, já de há décadas, que tem feito as atrocidades atuais contra civis desarmados, foi um movimento nacionalista iniciado no século XIX, que se baseou em ideias como “a terra prometida por Deus ao povo de Deus (judeus)”, como, inclusive, se outros povos da Terra não fossem criações divinas. Bem, a ideia é que este “povo de Deus”, não podia e não pode ser contestado e que é direito sagrado dele, povo judeu, de lá estar, tendo Jerusalém como capital exclusiva dele. Jerusalém, contudo, é uma cidade que abriga locais sagrados não apenas aos judeus, mas também aos católicos e aos muçulmanos e que, originariamente, na partilha da Palestina, ficou destinada aos três povos, como protetorado da Organização das Nações Unidas (ONU) – e ainda o é, oficialmente, mas o Estado de Israel ignora, solenemente, várias resoluções da ONU para desocupar a cidade, bem como Gaza e a Cisjordânia, especialmente aqui, construindo vários assentamentos ilegais, expulsando palestinos de suas casas. Igualmente é bom lembrar que Israel, criado em 1948, no Pós II Guerra Mundial (II GM), foi um Estado fundado, com a ignorância proposital, para muitos, sobre quem por lá morava, os palestinos, depois da perseguição sofrida da parte dos nazistas – vale frisar, também, que houve outras pessoas e grupos étnicos perseguidos, como comunistas, negros, ciganos, católicos… O nome do movimento, “Sionismo”, vem do Hebraico “Sião” (que é uma das designações locais para “Jerusalém”) foi uma ação que se propôs a criar Israel para evitar futuras perseguições e teve como primeiros teóricos Moses Hess (1812-1875) e Theodor Herzl (1860-1904), além de apoiadores que se basearam em ações terroristas, como o grupo sionista Irgun, que teve por líder Menachem Begin – posteriormente, Primeiro Ministro de Israel e, sabe-se lá como, Prêmio Nobel da Paz (?).
Em 1897, foi organizado o Primeiro Congresso Sionista Mundial, na Basiléia, Suíça, a partir do qual foram traçados os primeiros passos efetivos para a reivindicação de um Estado judeu no que diziam ser a sua “terra santa e destinada a eles por Deus”; Estado este que foi viabilizado pela Resolução 181 da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1947, logo após o termo da II GM que teve muitas vítimas e perseguidos, como dito, mas que teve nos judeus, sem dúvida, o alvo principal dos nazistas. Foi o chamado “Holocausto” que seria, como chamava Hitler, a “Solução Final”. Hoje, os sionistas parecem ter instituído o que podemos chamar de “holocausto palestino”.
O Diretor da agência da ONU para refugiados palestinos, Philippe Lazzarini declarou, em dezembro de 2023, o seguinte:
“Nem uma gota de água, nem um grão de trigo, nem um litro de combustível foi autorizado a entrar em Gaza nos últimos oito dias.”

Imagem da Faixa de Gaza, depois dos bombardeios israelenses (2023-2026)
Enquanto os confrontos se intensificavam ao norte, as cidades do Sul entraram em colapso. O governo de Israel alertou para que escolas e hospitais no Norte fossem esvaziados, ordem que o então Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, classificou de “sentença de morte”. Corpos foram armazenados em caminhões de sorvete… Isso é “defesa”? E vale a lembrança, os sionistas se apropriaram do termo “antissemistismo”, como se fossem os judeus fossem o único povo Semita do planeta. Árabes também são povos Semitas, porque essa é a designação de um grupamento étnico e linguístico originado na região do Oriente Médio, que guarda laços culturais em comum. São Semitas, por exemplo, arameus, assírios, palestinos e judeus. Então, pela lógica disseminada pelos sionistas israelenses, propagandear que árabes são, todos, terroristas, é ser antissemita, igualmente, por exemplo; assassinar palestinos, em morticínio visto pela televisão, como se fosse um joguinho de vídeo-game, e pelas redes sociais, é ser antissemita.
Neste exato momento, em que eu escrevo este artigo e em que você o lê, milhares de pessoas são mortas pelo mundo, injustamente, em decorrência da ganância, da crueldade e do ego da maior parte de nossas lideranças e, muito importante, embora, não raro, esquecido, de boa parte das pessoas que os apoiam. Também morrem pelo descaso com que estamos tratando a vida, pelo desrespeito com que lidamos com o outro que, diferente de nós, passou a ser tratado como inimigo a ser morto e não alguém que tem tanto direito de existir e de viver, como nós e pela alienação a que muitos estão sendo submetidos ou a que parecem se submeter, voluntariamente. O novo massacre, “justificado” na base de mentiras, como as que foram proferidas como quando invadiram o Iraque, a que a população e o Estado do Irã estão sendo submetido bem demonstra esta tese, e isso, sem diminuir as barbaridades que são perpetradas pela ditatura iraniana, que existe.

Cidade de Israel
Como mostrou o intelectual israelense Amós Oz, na frase em epígrafe, o Hebraico, a língua materna dos judeus, é uma catedral construída com antiguidades. Algumas interpretações podem ser retiradas deste belo pensamento. Uma delas é que uma língua, bem como outras expressões culturais, é um processo coletivo, histórico e geográfico, onde cada sentido produzido é um tijolinho na construção de um povo, de uma cultura, de uma etnia. Negar a(s) cultura(s) é sonegar ao(s) povo(s), sua(s) identidade(s) e sem ela(s), o conceito “povo” perde sentido; sem um território, um povo se dispersa; sem independência, um povo se desfaz e se dilui, sumindo, ao longo do tempo e no espaço negado, como povo. É isso o que, majoritariamente, mas não só, sionistas israelenses e boa parte dos estadunidenses estão fazendo com os palestinos (em que pese os muitos erros que estes últimos tiveram, desde 1948, dando, em parte, razão aos sionistas israelenses). A comunidade internacional não pode permitir que esse processo de massacre do povo palestino continue e se perpetue ainda mais. O Estado de Israel tem o direito de existir, tanto quanto o Estado Palestino, já compondo a ONU, tem o direito de nascer e, também, existir; os Palestinos têm o direito ao seu território e a não sumir enquanto Nação. O genocídio dos palestinos não cessou, apenas saiu um tanto das manchetes e outros genocídios pelo mundo também continuam, como sói acontecer com vários povos africanos. Até quando?

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana
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