Oi vovó

 

Ei, vovó, cheguei até aqui, com cinquenta e um anos. Dentro do teatro, lembrei de nós, dos nossos momentos, e aprendi que estaremos juntas para sempre. Lembro dos seus cabelos brancos e do mesmo tom de pele que o meu. Eu era a única neta que trazia essa tonalidade. Agora são os meus cabelos que estão quase iguais aos seus. Carrego ainda as belas músicas que a senhora me ensinou, como “Pisa na Fulô”. Eu adoro o Nordeste que a senhora me apresentou, e não temos divergências políticas. Lembro de tudo, vovó, e, quando vejo a sua bisneta, minha sobrinha, vejo a senhora todinha, Dona Francisca. Saiba que te amarei para sempre. No entanto, quero te contar algo.

No oitavo andar do Teatro Glauce Rocha está a montagem “Laura”. Claro, mas estava na Argentina um dia desses…

Sabe, vovó, o espetáculo é um trabalho de teatro documental e autobiográfico, no qual Fabrício Moser investiga a história da avó dele, Laura, que faleceu precocemente, Fabrico então nem chegou a conhecê-la, ela teve sua trajetória de vida silenciada pelas circunstâncias de sua morte.

A sinopse foca na busca do artista pelo legado de sua avó — uma mulher, filha, mãe e avó — cuja história permaneceu desconhecida para o neto. Utilizando objetos, relatos, documentos e memórias, Moser reconstrói poeticamente a vida de Laura no palco.

Tirei isso da sinopse que encontrei em um site. Ao contrário de nós, vovó, o artista não conheceu a avó, mas, ao trazer o teatro para a vida dele, desenhou uma Laura. Ficou tão poético, tão tocante… Eu adoraria que a senhora assistisse. As pessoas saem dos espetáculos fungando, lembrando das avós.

Todo figurino que ele utiliza é impecável e nos leva ao tempo de Laura, lá no Rio Grande do Sul: o xale e o vestido lembram os da senhora, aqueles de botão na frente e bolsos laterais. Uma graça, vovó…

Do cenário posso te dizer que há uma mesa e vários objetos que ele utiliza para lembrar a trajetória dele em busca da avó. Xícaras esmaltadas servem café para a gente na plateia. Ah! Ele serve também bergamota — nome estranho, né? — mas é uma fruta. Não quero te contar mais, a senhora precisa assistir para saber qual é.

Ele conta o que aconteceu com ela, com ricos detalhes, frutos de uma pesquisa profunda: jornais antigos e fotos de família. Tudo muito coeso.

Ao narrar a morte dela, ele nos conduz, por meio de um aplicativo, pelos lugares onde tudo aconteceu. Conhecemos as ruas próximas do último local em que ela esteve. Creia, paramos em um baile da cidade — e todos dançamos, todos! Ele disse que eu era um pé de valsa, isso porque não te conheceu, risos.

O mais incrível é que ele nos mostra tudo com muitos movimentos e jogos cênicos, transformando-se em outros personagens. Aliás, há de se dizer que a capacidade técnica dele é incrível, pois ele mesmo controla as músicas e os vídeos dos filhos que falam sobre a mãe. Ele domina as cenas com muita respiração e cuidado. É incrível, vovó.

Ele não utiliza microfones nem meta teatro, nada dessas inovações do teatro contemporâneo. Ah! Tem um refletor, mas com imagens de pessoas como eu e os demais que assistem à obra. Tudo é intimista e simples demais; no entanto, o mais admirável é como ele toca nossas memórias afetivas.

Certamente, vovó, a senhora já deve ter conhecido Laura. Ele redesenhou uma mulher que eu gostaria de conhecer, porque Laura era divertida como tantas outras avós.

A senhora iria adorar a trilha musical — divertida, alegre — que nos faz rir. Posso dizer que rimos em muitos momentos, assim como nos assustamos com a história dela, que partiu aos cinquenta e cinco anos.

A luz é outro fator interessante, porque torna o espetáculo vivo, assim como a direção feita pelo próprio ator.

Vovó, vou parar por aqui. Estou um pouco cansada hoje. Saiba que as pessoas não acreditam que eu te chamei de vovó até quase meus cinquenta anos. Eu tive a honra de ter vindo de você, de ser uma parte de você — mais que isso, de ter sido amada por você. Eu nunca vou esquecer do angu doce amarelinho nos pratos Duralex, com canela por cima e a fumacinha subindo, nem da sua carne de panela. Saiba que ainda ouço a senhora batendo roupa no tanque e sinto o cheiro do sol nas toalhas que a senhora estendia no varal.

Não sei o que o artista queria quando montou essa peça, eu só sei que vi você aqui dentro de mim mais uma vez.

Eu te amo, vovó.

 

FICHA TÉCNICA:

Criação, atuação e produção: Fabrício Moser. Colaboração artística: Ana Paula Brasil, Cadu Cinelli, Gabriela Lírio, Francisco Taunay, Nathália Mello e Rafael Cal. Assistente de produção: Marcus Liberato. Formação de plateia: Fabrício Moser e Patrícia Lopes

 

SERVIÇO

Laura” – Espetáculo teatral solo.

Criação e atuação: Fabrício Moser.
Temporada: 6 a 28 de novembro de 2025.
Dias e horários: quintas e sextas-feiras, às 19h30.
Classificação indicativa: 14 anos.
Ingressos: R$ 40 (inteira) | R$ 20 (meia-entrada) | Vendas pelo site sympla.com.br (com taxa da plataforma) e na bilheteria.
Sympla: https://www.sympla.com.br/evento/laura-temporada-de-10-anos-no-rio-de-janeiro/3179879
Duração: 1 hora.

Local: Sala Murilo Miranda – Teatro Glauce Rocha.
Endereço: Av. Rio Branco 179, 8º andar, Centro – Rio de Janeiro (RJ) | Em frente ao Metrô Largo do Machado | Espaço Cultural da Fundação Nacional de Artes (Funarte) | Lotação: 60 lugares

Rodas de Conversa
6/11 – Ana Paula Brasil e Nathália Mello.
13/11 – Gabriela Lírio e Gabriel Morais.
20/11 – Cadu Cinelli e Cassiana Lima Cardoso.
27/11 – Francisco Taunay e Rafael Cal.

 

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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